Os criativos que se explodam

Já notaram como não apenas na música mas em qualquer área das relações humanas as pessoas tendem a copiar o que está fazendo sucesso ao invés de simplesmente criarem algo novo justamente para se diferenciarem e atingirem um público diferente? Sob a desculpa de que a “demanda” acaba levando ao aumento do número de “copiões”, a maioria das pessoas acaba se aproveitando de uma idéia original que deu certo para tentarem ganhar alguma coisa com isso.

Na música sertaneja, o que se observa é uma proliferação exagerada de “marias-vão-com-as-outras”. Se algum artista de repente tem uma idéia interessante, lança um produto baseado naquela respectiva idéia e consegue algum destaque no mercado, a tendência é que mais e mais artistas se baseiem na mesmíssima idéia deste artista apenas com aquele pensamento de que “se deu certo, é isso então que a galera quer ouvir” e comecem a tentar abocanhar uma fatia desse público conquistado pelo tal artista que teve a idéia original.

No início dos anos 2000, a dupla Bruno & Marrone resolveu arriscar num projeto inusitado. Ao invés de investirem em mega-produções como era mais comum à época, eles resolveram que lançariam um projeto ao vivo somente com instrumentos musicais básicos: violão, sanfona, baixo, bateria e percussão. O “Acústico” da dupla Bruno & Marrone acabou vendendo mais de dois milhões de cópias e simplesmente transformou o mercado sertanejo. De repente todos os artistas começaram a lançar trabalhos nessa mesma linha. A idéia original da dupla Bruno & Marrone foi copiada exaustivamente.

Há alguns anos, talvez por conta da preocupação com o ócio que tomava conta do mercado sertanejo na época do carnaval, alguns artistas  tiveram a boa (na época) idéia de adaptar seus sucessos ao axé e de subir em trios elétricos para continuarem trabalhando mesmo numa época que os sertanejos geralmente tiravam para descansar. A idéia funcionou. Os poucos artistas que se aventuraram nessa praia quano ainda era pouco comum colheram bons frutos. Qual o resultado óbvio desse sucesso? Um moooooooooonte de gente entrou na onda e começou a fazer (ou tentar fazer) a mesmíssima coisa.

Há uns dois anos e meio, resolveram lançar nacionalmente um artista sertanejo diferente. Ao invés de seguirem a linha tradicional, as letras e as melodias do referido artista seriam mais voltadas a um público que até então tinha pouco ou nenhum interesse pelo nosso segmento: o público infanto-juvenil. Ainda que a intenção inicial não parecesse tanto ser essa, o fato é que o referido artista acabou atingindo em cheio esse público e é o artista brasileiro de maior sucesso na música atualmente. Qual o resultado? Uma infinidade de “projetos de Luan Santana” têm aparecido às pampas por todo o Brasil, todos se baseando na mesma idéia que os que conceberam o “Luan Santana” originalmente.

No ano passado uma música se tornou um hit no Youtube por conta do gosto duvidoso da sua letra e de seu clipe, na época com o Grupo de funk “Avassaladores”. O funk “Sou foda” virou febre e explodiu de views, sem nenhuma artimanha, hehe. A música em si era uma merda, mas o potencial da moda acabou chamando a atenção de uma dupla, que adaptou o funk a uma versão sertaneja. A música foi se difundindo junto ao público sertanejo e de repente diveeeersos artistas resolveram fazer a mesma coisa. A música ganhou regravações de diversos outros artistas e instituiu uma nova onda: a adaptação do funk ao sertanejo. A idéia original e até interessante da primeira dupla acabou virando uma idéia “original” também para diversos outros artistas.

Estes são alguns dos exemplos. Se a gente parar pra analisar, essa lista ainda pode aumentar bastante ainda. O ponto em comum a todos estes acontecimentos e a essa profusão de idéias originais que se tornam banais e repetitivas, porque a maioria dos profissionais não tem capacidade para conceber uma outra idéia original e precisam ficar copiando o que está fazendo sucesso, o dono da idéia original permaneceu como o mais lembrado mesmo vendo a sua idéia ser copiada centenas de vezes. Apesar de todos os CDs acústicos lançados após 2001, o da dupla Bruno & Marrone ainda é o mais vendido e lembrado. Apesar de todos os projetos sertanejos de carnaval que apareceram, a dupla Jorge & Mateus ainda é a mais requisitada nesta época. Apesar de todos os artistas sertanejos teen que surgiram, Luan Santana ainda reina. Não sei porque, então, tanta gente fica insistindo em copiar o que dá certo ao invés de parar um tempo pra pensar em idéias novas. A lição que se tira é óbvia: copiar é fácil, mas definitivamente criar algo novo faz muito mais diferença. Quem cria algo e se dá bem fica para a posteridade. Quem copia fica por aí, pelo caminho mesmo…