Participações Especiais – Será que Ninguém Mais Confia no Próprio Taco?

Participações Especiais – Será que Ninguém Mais Confia no Próprio Taco?

Todas as semanas eu posto os lançamentos aqui no Blognejo. E a cada semana aumenta a quantidade de músicas lançadas por artistas novos com a participação de algum outro artista, nem sempre estourado nacionalmente. Isso acontece há tempos, na verdade. Por que? Qual é o motivo que leva a maioria absoluta dos artistas a aparentemente não confiarem na própria força e convidarem alguém mais forte para assim diminuir a pressão quanto ao estouro da música que lançaram? Será que ninguém confia mais no próprio taco?

Houve um tempo em que uma participação especial de um artista consagrado numa canção era tida como um grande evento, uma ocasião histórica. Reunir dois nomes importantes da música era algo a se comemorar, pelo menos para os fãs. Em outros casos, um disco vinha lotado de grandes nomes apenas para celebrar a importância do tipo de música gravado nele, como nos casos da série “Meu reino encantado”, do Daniel, ou no disco “Clássicos Sertanejos”, da dupla Chitãozinho & Xororó, que celebravam a música raiz. Hoje, virou uma banalidade.

Ao invés de celebrarem alguma coisa ou apenas de comemorarem uma parceria, a maioria das participações hoje vêm revestidas da mais descarada das intenções: aproveitar a força do convidado no mercado para pegar uma caroninha no sucesso e, talvez, conquistar um pouquinho do espaço que este convidado já tem. Assim aconteceu, por exemplo, com dezenas (talvez centenas) de músicas gravadas com a participação da dupla Jorge & Mateus. Algumas não causaram nenhum tipo de impacto. Outras promoveram os artistas originais a um degrau acima no mercado.

Mas se a intenção de quem convida é, aparentemente, apenas se aproveitar do sucesso do convidado, porque é que o convidado aceita? Ora, divulgação é divulgação. O convidado vai ter o seu nome divulgado gratuitamente pelo artista que convidou durante sei lá quanto tempo e não vai ter que fazer absolutamente nada. Em alguns casos, aliás, o convidado acaba se dando tão bem por conta da participação que em alguns casos nem precisa se preocupar muito com o próprio trabalho.

Apesar da banalização da participação especial, ela ainda carrega em si alguma coisa de bacana, e por isso o público gosta tanto. Mas parceiros importantes dos artistas acabam ficando de saco cheio de tanta música gravada com convidados, principalmente os radialistas. É que a maioria das rádios tem uma metodologia de trabalho definida. Apenas uma música de um artista naquela determinada hora, para citar apenas um exemplo. Como fazer, então, se um mesmo artista participa de 3 músicas de sucesso em determinada temporada?

Como uma rádio consegue tocar na mesma hora, por exemplo, “Gatinha Assanhada”, “É fato” e “Vem ni mim Dodge Ram”, a primeira do Gusttavo Lima e as outras duas com a participação dele? E na época das centenas de participações da dupla Jorge & Mateus então? A dificuldade de planejamento era ainda maior. Isso sem falar, é claro, de algumas rádios inescrupulosas, que provavelmente ficam mordidas por não terem como cobrar o tradicional jabá também da participação, mas apenas do artista principal.

Além de tudo isso, e voltando de fato ao assunto principal deste post, é incrível como pouca gente hoje em dia deposita confiança apenas em si mesmo. Muitos artistas acreditam que seu trabalho só vai funcionar se tiver a participação deste ou daquele artista, geralmente um que já esteja fazendo muito sucesso. O Cristiano Araújo, por exemplo, é a bola da vez nas participações. Todo mundo o quer gravando um pedaço de uma música.

Há casos, claro, de músicas que só foram sucesso por conta da participação. Outras provavelmente teriam feito sucesso mesmo sem a participação de ninguém, o que na verdade nunca dá para saber. Mesmo assim, parece que o que falta hoje em dia é um pouco de coragem. Parece mais uma grande incoerência um determinado artista se lançar no mercado mas não ter estômago para matar um leão por dia na grande arena de gladiadores que é o mercado sertanejo sem estar se apoiando numa participação especial em sua música de trabalho. Auto-confiança deveria ser um item tão necessário quanto carisma e talento na estrada do sucesso. Afinal, se o artista não confia no próprio taco, que estrutura psicológica ele tem para enfrentar tudo o que está por vir?