Por que Luan Santana foi vaiado na Formula Indy?

No último domingo, na abertura da partida final entre Santos e Corinthians pelo campeonato paulista, Hugo & Tiago cantaram o Hino Nacional Brasileiro. Ao lembrar do que aconteceu com Luan Santana na Formula Indy, um frio deve ter percorrido a espinha da dupla mas, tal qual o planejado, tudo correu bem. E apesar da interpretação toda cheia de estilo e dos arranjos diferenciados, não houve vaias, muito pelo contrário, público e profissionais presentes respeitaram o momento. Mas por que no início do mês com Luan Santana foi diferente?

Quando a organização da Formula Indy pensou em Luan Santana para cantar o Hino Nacional na abertura do evento, o fez com a melhor das intenções: queria chamar a atenção de jovens e adolescentes para um tipo de esporte que já foi infinitamente mais popular  no Brasil (até a morte de Airton Senna, no fatídico dia 1º de maio de 1994), o automobilismo. Atrair  a atenção da garotada, plantar  uma sementinha a ser colhida, quem sabe em um futuro próximo e de quebra elevar a audiência. Sim, a expectativa da organização do evento com relação a Luan Santana era grande. Não fosse isso, qualquer outro nome da música nacional seria convidado; grana e prestígio para isso a São Paulo Indy 300 tinha de sobra.

Porém, existe algo com o qual nem os organizadores do evento, e nem o próprio Luan contavam: o preconceito. Disseminado entre a classe mais “abastada” da sociedade, foi preciso apenas que o rapaz subisse ao palco para que as vaias  se propagassem. Isso mesmo, Luan nem tinha começado a cantar quando foi hostilizado. Depois disso, esquecer a letra, desafinar ou talvez exagerar na interpretação não seria um absurdo, e foi o que aconteceu. Mas o que vem a ser esse preconceito, apregoado pela revista Veja, reafirmado por Nelson (quem?) Mota, Lulu Santos, Lobão e mais uma série de sôfregos sobreviventes  das esquecidas décadas de 1970 e 1980? Que ira é essa alimentada pela “elite” e “classe média” contra os sertanejos em geral?

Obviamente a música sertaneja vem ganhando espaço e “tirando” de outros artistas o brilho de outrora. E não é de hoje que tem gente que perde o sono com o crescimento dos sertanejos. O universo da música é uma máquina de fazer dinheiro e empresários e artistas sabem disso. Músicas em trilhas de novelas, aparições em programas de tv, shows hiper-lotados e uma supremacia absoluta. Tudo isso faz com que os “intelectuais” sofram com essa invasão e partam para o ataque.

No caso dos eventos esportivos em especial, era um terreno ainda pouco explorado pela turma do chapéu, mas o sucesso depende do público presente. De um lado, um evento criado e organizado para deleite das classes A e B, com ingressos que no dia do evento não saiam por menos de R$ 380. De outro, um evento popular, feito para a massa, com forte apelo emocional e que mexe com a paixão do brasileiro. Como imaginar um resultado positivo para Luan Santana em uma situação como essa? Somente se o público da Formula Indy fosse um pouco mais civilizado e respeitoso (o que ficou comprovado não ser). Aplausos para o público do jogo entre Santos e Corinthians, que mesmo não gostando ou não conhecendo Hugo & Tiago, se comportou de maneira digna, demonstrando civilidade quando os intérpretes subiram ao palanque para apresentar o hino.

Por mais que estejamos no século 21, as barreiras ainda permanecem, acredite. Comparar a música sertaneja dos anos 1990 com a derrocada política da mesma época, como fez o jornalista da Rede Globo, é no mínimo incoerente (acaso o bom momento político atual do país se deve ao sucesso do novo sertanejo?). Enquanto existirem “Nelsons Motas”, “Chicos Césares”, “Lulus Santos” e outros velhos resmungões, saudosos de seus tempos de glória, suplantados pelas novas gerações, as vaias continuarão em eventos voltados para a “elite”.

Acaso esse tipo de pessoa é realmente nacionalista, que respeita o Hino Nacional e sua execução, a ponto de se importar com quem o está cantando ou são apenas intolerantes com gêneros extremamente popularescos? O mais certo é que a cada dia que passa, novos ou experientes artistas sertanejos ocuparão mais e mais espaços deixados pelas falecidas Bossa Nova e MPB. Para quem não gosta é desesperador, para quem convive com o gênero, Luan Santana, Hugo & Tiago, Paula Fernandes ou qualquer outro sertanejo, desafinando ou não, são parte dessa tomada do poder, e contra isso, não há vaia que possa conter. A Copa está aí, e então, como vai ser?