Queda brusca (e suspeitíssima) na arrecadação do ECAD em fevereiro irrita compositores, que organizam ato em protesto.

Já não é de hoje que o ECAD vem sendo criticado por diversos setores da sociedade quanto à forma de arrecadação e distribuição dos direitos autorais. Diversos projetos de lei já foram votados com o intuito de modificar a forma de trabalho do órgão e de inserir o governo, seja como fiscalizador ou como principal arrecadador. Estas mudanças, entretanto, sempre esbarraram na vontade dos próprios compositores. Alguns deles aprovam, outros não, principalmente por medo de que uma mudança prejudique a distribuição e a entrada do governo transforme o sistema de direitos autorais em algo muito mais suspeito do que já é. Afinal, dá mesmo pra confiar no governo, qualquer que seja o partido no poder?

Mas a distribuição dos direitos autorais no mês de fevereiro de 2014 parece ter mudado a posição dos compositores e provocado uma união de forças jamais vista. Os valores distribuídos aos autores caíram em média de 70 a 80%, o que mesmo para um mês considerado fraco como fevereiro (cuja arrecadação provém apenas das festas e shows) é algo inconcebível.

A reação deles foi praticamente imediata. Desde que os valores foram liberados, os compositores vêm se organizando nas redes sociais, postando mensagens e hashtags e convocando outros colegas da mesma classe de trabalho a participarem da mesma discussão. O que afinal de contas houve com o dinheiro? Como é possível uma queda tão acentuada e inesperada na arrecadação? Teria o Brasil praticamente parado de ouvir música? Teriam os artistas parado de fazer shows? Teriam os contratantes decidido parar de uma vez por todas a pagar as taxas relativas aos direitos autorais em suas festas?

A queda fica ainda mais suspeita quando se observa a lista com as maiores arrecadações no mês. Segundo rumores, entre os nomes listados como sendo os dos maiores arrecadadores do mês, constam pessoas que aparentemente não tem qualquer ligação com o mundo da música ou que, mesmo a tendo, não fazem parte sequer do circuito de música comercial, compondo apenas para trilhas de cinema, o que acentua ainda mais a hipótese de que tratam-se de laranjas.

O ECAD já foi investigado em 2011 por um caso parecido, quando o motorista Milton Coitinho, que nunca compôs uma canção na vida, viu seu nome aparecer na lista como recebedor de quase 200 mil reais em valores relativos a direitos autorais.

Esquemas de corrupção dentro do ECAD não são nem nunca foram novidades, mas até então isso não tinha refletido nos compositores de forma tão gritante. Talvez por isso não tenha havido até hoje nenhum tipo de movimentação mais intensa por parte deles, afinal de contas para quê mexer no que já está bom, né? Mas a arrecadação em fevereiro mudou essa postura.

Os compositores têm se organizado desde que os valores foram liberados, postado mensagens de repúdio e exigido explicações do ECAD nas redes sociais. Diversos compositores do segmento sertanejo se organizaram em grupos de discussão no Whatsapp para montar uma ação coordenada, que deve ocorrer hoje ao meio-dia, no horário de Brasília. Artistas e compositores participantes do ato postarão uma foto de braços cruzados no Instagram, exigindo explicações do órgão e insinuando uma possível suspensão nas atividades da classe.

O ECAD ainda não se posicionou oficialmente a respeito dos questionamentos dos compositores. Uma nota deve ser emitida ainda hoje. O mais estranho é que essa queda brusca e altamente suspeita de arrecadação aconteceu justamente no momento em que as mudanças no sistema de arrecadação através de lei foram aprovadas. Acontece que mesmo com a lei em vigor o órgão que vai fiscalizar o ECAD ainda não começou a funcionar, ou seja, é como se a parte podre de dentro do ECAD estivesse chupinhando e sugando o que pode antes das mudanças ocorrerem de fato e da fonte secar de uma vez por todas.

Se você é compositor ou artista e deseja participar do ato, basta postar uma foto sua nas redes sociais às 12:00 hs, no horário de Brasília, de braços cruzados com a hashtag #ecadeuqueroexplicações.