REVIEW: Bruninho & Davi – Depois das 3

REVIEW: Bruninho & Davi – Depois das 3

Estabilidade. Esta talvez seja a melhor palavra para definir o momento da carreira da dupla Bruninho & Davi. Com uma estratégia que sempre foi baseada em trabalhar passo a passo, sem exageros financeiros ou megalomania, a dupla construiu desde o começo uma carreira sólida, com um cachê médio e uma agenda respeitáveis. Com a base consolidada, a dupla agora parece ter enxergado a necessidade de uma evolução em termos de visibilidade. O novo disco, “Depois das 3”, aliado a todo o trabalho que tem sido feito em torno da dupla, parece ter o claro objetivo de tornaá-la enfim relevante em um cenário musical mais amplo e não apenas dentro do circuito sertanejo.

A primeira grande conclusão após a audição deste novo disco é que Bruninho & Davi completaram de vez a migração para uma sonoridade totalmente pop. O que quero dizer aqui é que Bruninho & Davi fazem com este disco o teste final da sua identidade musical. É provavelmente o disco mais pop já feito dentro do segmento sertanejo. E por ser algo inédito, pode ser que enfim a dupla tenha achado a sua sonoridade definitiva. Uma aposta ousada e ambiciosa.

Pelo amor de Deus, não me venham com o mesmo velho, batido e idiota argumento de que “isso não é sertanejo”. Sejam inteligentes. Todas as influências inseridas no sertanejo em seus 100 anos de história fizeram o segmento chegar aonde ele chegou hoje e não apenas sobreviver, mas ser o gênero musical dominante na cultura brasileira. Se formos falar sobre o que é e o que não é sertanejo, a conversa deveria parar nos anos 60 ou 70. Aposto que as guitarras de Léo Canhoto & Robertinho e os trompetes de rancheira de Milionário & José Rico também sofreram o mesmo tipo de preconceito.

É bom deixar claro que os elementos sertanejos da sonoridade de Bruninho & Davi ainda estão ali, presentes e marcantes. Mas, sem dúvida, a aposta na sonoridade pop desta vez foi a mais escancarada possível. Na maioria das faixas, nada é o que parece. A vaneira “Ela sabe ser sexy” não é vaneira. A romântica “Amores que nunca se vão” não é romântica. E é essa a grande sacada. Sem falar que, ao inserir elementos como os metais, o disco aproxima a sonoridade da dupla à de bandas como Paralamas do Sucesso ou Skank. Tudo isso com a sanfona e a bateria campograndense lá marcando presença. É a mistura definitiva entre o sertanejo e o pop.

Toda ousadia se deve muito à figura do produtor Dudu Borges, que tem em Bruninho & Davi a sua representação mais fiel na música. Ele é praticamente um dos idealizadores do projeto e atualmente o homem à frente tanto da parte musical quanto da administrativa, junto com o sócio Wendell Vieira, da Nuxx. Por isso este CD é sem dúvida o que mais exprime essa sua identidade. Quem reclamava que o Dudu era muito pop, agora então vai entortar a língua de tanto falar.

Por conta dessa aposta ousada, este promete ser um disco do tipo que cria um abismo entre as opiniões. Com a mais absoluta certeza, os conservadores vão odiar, atacar, reclamar, o que já é de praxe em se tratando de Bruninho & Davi desde que eles apareceram pelados na capa do primeiro disco. Mas para quem tem mente aberta e entende que o sertanejo é o gênero que mais aceita novas influências, trata-se de um disco inovador. Todas as músicas foram produzidas com uma enorme riqueza de detalhes e o mais absoluto cuidado de não soar como deveriam se o disco fosse produzido de forma previsível. E todas as faixas são ótimas. “Beija-flor me beija” e “Depois das 3” sem dúvida saem na frente, mas são seguidas de muito perto pelas demais músicas do disco, que tem apenas 10 faixas. É difícil até explicar os detalhes de cada faixa, dada a quantidade de detalhes impressos em cada canção, muitos deles nunca antes usados tão abertamente em discos sertanejos.

Se é consenso que o sertanejo é o novo pop, este disco faz com que Bruninho & Davi sejam os primeiros artistas do gênero a assumir isso abertamente. E a estratégia de marketing em torno deles caminha junto com essa mistura. Recentemente, a dupla passou a contar também com os serviços da K2L, responsável por apresentar ao Brasil a cantora Anitta e, portanto, especialista justamente em explorar o segmento pop. Com relação a Bruninho & Davi, o que se nota é uma intenção de, pela primeira vez, fazer uma dupla sertaneja circular pela cena musical pop e jovem sem que o gênero deles seja abertamente definido. Bruninho, por exemplo, se apaixonou há algum tempo pelo surf e até mudou para o Rio de Janeiro para poder curtir a nova paixão. A dupla também começa a aparecer em programas que não costumavam dar esse tipo de abertura aos sertanejos.

Um dos grandes trunfos de Bruninho & Davi foi nunca ter se deixado levar pela dúvida e pelas pedras jogadas por quem não aceita a novidade. Desde sempre, batalharam para serem o inédito, o novo, o diferente. No começo, com uma veia mais voltada para o humor, e aos poucos indo para o pop, até chegarem ao nível máximo com esse disco. Ao explorar justamente essa coisa de “sertanejos que não se parecem sertanejos”, a estratégia parece ser, de fato, promissora. Mais uma ótima e inteligente forma de atrair cada vez mais público para o nosso segmento, seja ele sertanejo ou pop. Para mim, agora é tudo uma coisa só e isso é lindo. Por mais que muita gente ache que não é.