REVIEW – Bruno & Marrone – Agora Ao Vivo

REVIEW – Bruno & Marrone – Agora Ao Vivo

Que o Bruno é provavelmente o maior intérprete do Brasil, isso todo mundo sabe. Alguns relutam em admitir isso, alegando que ele comete certos exageros. Mas independente dos exageros, que eu encaro na verdade como elementos que ajudaram a definir a sua identidade vocal,  o fato é que a sua qualidade vocal é incomparável. Seja quando ele brinca com o “drive” que virou sua marca registrada ou mesmo quando a música pede uma interpretação mais contida.

O mais recente trabalho da dupla, “Agora Ao Vivo”, é provavelmente o que destaca isso de forma mais definitiva, já que não se trata apenas do Bruno cantando o que todo mundo espera que ele cante, mas interpretando canções consagradas dos mais variados gêneros e artistas, o que nos dá enfim um parâmetro para comparação e rende até uma certa polêmica.

Passeando por grandes clássicos da música verdadeiramente popular brasileira dos últimos 20 ou 30 anos (sim, clássicos, para o horror e desespero dos críticos), é definitivamente o Bruno quem brilha neste disco. O repertório foi criteriosamente selecionado para que a interpretação dele fosse o grande destaque. O disco traz apenas 6 canções inéditas em um repertório de 23 canções. Tirando “Dormi na Praça”, que já é do repertório da dupla, Bruno & Marrone cantaram 16 músicas de outros artistas no DVD. Seriam 17, mas aí entrou a tal polêmica mencionada no primeiro parágrafo.

Mesmo com canções liberadas para o disco por Djavan, Lulu Santos, Kiko Zambianchi e outros nomes que não tão costumeiramente flertam com o gênero sertanejo, o disco acabou ficando sem uma de suas principais canções. “É o amor”, da dupla Zezé di Camargo & Luciano, não foi liberada para o DVD, mesmo tendo sido gravada naquela que seria uma incrível homenagem. Os motivos ainda são incertos, mas provavelmente entra naquele tal parâmetro comparativo. Afinal, nem todo mundo arrisca ver o Bruno superando a interpretação original de alguma canção. Há os que não ligam pra isso (Chrystian & Ralf, por exemplo, liberaram “Ausência”), mas pelo jeito há quem não prefira arriscar uma posterior comparação. Ainda mais se pensarmos que com “Passou da Conta” isso já tinha acontecido, mas em pólos invertidos. Até aumentar o tom no final da sua versão o Zezé aumentou na época, mas enfim…

O disco pende um pouco para o brega em músicas como “Garçon”, do Reginaldo Rossi, “A casa ao lado”, já gravada pelo Pablo, e “Vou te amarrar na minha cama”, das Marcianas, escolhida como de trabalho deste disco talvez para aproveitar a vibe meio parecida com a do “Vidro Fumê”, a mais tocada de 2013. Mas sem dúvida, o disco foi todo montado com base nas mais tradicionais canções de boteco e de concursos de música de todos os tempos, como “Oceano”, “Primeiros Erros”, “Apenas mais uma de amor”, “Força Estranha”, entre outras. Esta última, então, nem se fala. Uma das mais cantadas em festivais de música desde o advento dos festivais de música. Talvez perca só para “Porto Solidão”, do Jessé, ou para “I will always love you”, da Whitney Houston.

Mas mesmo sendo um disco de regravações, o produtor e arranjador Dudu Borges não se limitou a repetir os arranjos originais, já que essa não parecia ser mesmo a proposta do disco. Se a ideia era trazer uma nova interpretação, nada mais justo que introduzir novos arranjos ou até novas harmonias, mais sertanejas. “Oceano”, por exemplo, virou uma guarânia incrível. E “Força Estranha” ganhou uma roupagem muito mais exótica do que aquela já tradicional. “Deixa Acontecer”, do Revelação, virou uma vaneira com viola e tudo. “Você me vira a cabeça”, da Alcione, deixou de ser um pagode pra ganhar uma roupagem mais “Bruno & Marrone” com a base numa pegada meio “Vida Vazia”.

O cenário do DVD remete ao “Acústico 2” em diversos aspectos. Não que seja igual, mas de cara já bate a lembrança. Se bem que pra uma dupla que provavelmente bateu o recorde de DVDs gravados no Brasil (se eu não me engano este já é o sétimo), um sempre vai acabar lembrando o outro em algum aspecto.

Uma coisa que ficou meio mal explicada foi a escolha do nome do disco. Se o DVD é basicamente de regravações, porque batizá-lo com o nome de uma das canções inéditas do disco e não com um nome que remetesse ao conteúdo do projeto? A não ser que o “Agora” do título do DVD tenha mais a ver com o fato de as versões das músicas terem sido atualizadas para uma pegada mais moderna. Se essa foi a intenção, talvez fosse necessário deixar isso um pouco mais claro.

Além de versões incríveis para canções como “Ausência” (Chrystian & Ralf), “Frente a Frente” (Matogrosso & Mathias), “Apenas mais uma de amor” (Lulu Santos), “Oceano” (Djavan), “Quando a chuva passar” (Ivete Sangalo) e “Primeiros Erros” (Capital Inicial), o disco traz algumas inéditas de cair o queixo, principalmente “Tiro e Queda” e “Agora”, que foi a que mais exigiu da interpretação do Bruno.

Com o Marrone um pouco mais quieto que em outros projetos e sem nenhuma participação especial, a grande estrela deste DVD acabou sendo mesmo o Bruno e sua voz, absoluta como sempre. Se a ideia era mostrar que ele pode cantar qualquer coisa, desde Chiclete com Banana até Djavan, passando por Pablo do Arrocha e Papas da Língua, creio que a intenção foi atingida. E se com mais esse disco Bruno & Marrone fizeram tudo o que se podia fazer em termos de regravação, talvez tenha enfim chegado a hora do tal projeto de boleros que vem sendo prometido há tempos. Aguardemos.

Nota: 9,5