REVIEW – Buteco do Gusttavo Lima

REVIEW – Buteco do Gusttavo Lima

Antes de começar a falar especificamente sobre este disco, é importante entender o momento em que ele se apresenta. Trata-se de um disco que traz o Gusttavo Lima em duas fases distintas. É um projeto que diz muito sobre o Gusttavo tanto em sua fase Audiomix quanto em sua fase pós-Audiomix. E talvez seja um dos raros casos em que o atraso em um lançamento pode ser considerado benéfico para o artista, já que agora, após toda a dor de cabeça comum a uma mudança de estrutura administrativa, dá pra começar enfim a usufruir dos benefícios que um projeto como esse, que o traz de volta às suas origens e o reconecta como nunca ao seu público mais fiel, pode trazer.

Gusttavo Lima é, antes de tudo, um artista do povo. Talvez ele seja, hoje, a representação mais exata do tipo de artista que fala mais abertamente com o grande público. É claro que ele consegue equilibrar-se muito bem entre as classes A, B, C, D e E. Mas é evidente que ele é mais querido pelos mais humildes, que o admiram pela sua trajetória que vai do início simples de quem passou fome e morou na roça até o sucesso com os Lamborghinis e helicópteros. Sem falar do seu estilo vocal, que é o preferido do público mais simples. E é com esse público que esse disco se relaciona.

O seu trabalho anterior, musicalmente falando, continua sendo o melhor de sua carreira. Ao dar de ombros para os anseios do mercado, o Gusttavo Lima lançou um disco que se destacava muito mais pela qualidade da produção e arranjos do que pelas músicas simples de outros tempos. Serviu para provar, caso ele quisesse isso, sua grande qualidade como artista. Mas, inevitavelmente, ficou tachado como “não-comercial”. Ao optar por retomar a mesma estrutura básica do começo da carreira em um disco que remete aos tempos de barzinho, Gusttavo Lima inteligentemente trata de manter perto de si o público que o consagrou.

Para este disco, Gusttavo resgatou boa parte dos elementos que o ajudaram a emplacar no começo da carreira. Maestro Pinocchio na produção, formato acústico simples, sem firulas, só que tudo desta vez com um repertório de regravações que remetem aos tempos do Gusttavo no buteco. Daí o nome do projeto, também destacado pelo cenário. Mas se lá no começo, mais precisamente no primeiro disco, as participações especiais eram as que a Audiomix disponibilizava, desta vez o Gusttavo teve a oportunidade de provar a sua força no cenário sertanejo com nomes como  Zezé di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone e Leonardo. E Jorge & Mateus, numa importante atitude de reconhecimento por parte do Gusttavo, jogando uma pá de cal em cima das histórias de brigas difundidas nos bastidores e restringindo o embate administrativo posterior ao campo empresarial, deixando o artístico de fora.

O grande acerto deste projeto está na sua simplicidade. É o Gusttavo na sua forma mais natural, quase como se estivesse em uma roda de viola ou tocando em casa, como nos vídeos que ele adora postar nas redes sociais. O repertório traz grandes canções da história da música sertaneja, alguns chavões, mas a grande maioria numa linha que valoriza o gosto do Gusttavo por canções de tons mais altos e/ou que valorizem mais o seu estilo vocal.

Apesar de ser seu projeto de despedida do antigo escritório, o atraso no lançamento ocorreu justamente por conta da sua saída. Mas, ou por sorte ou por um excelente timing, a data do lançamento coincidiu com um período em que projetos de resgate voltaram à tona. Principalmente projetos que pretendem se refletir em um formato de shows que valorize o “modão”, indo de encontro a um público até então carente desse tipo de evento. O caminho foi aberto brilhantemente pelo “Cabaré” e encontrou ainda mais respaldo com projetos como o “Lendas”, que estreia oficialmente em breve, e com este DVD do Gusttavo Lima.

Aliás, entre todos os projetos de releituras lançados nos últimos dois anos, é fácil notar que os que foram planejados como turnê foram os que trouxeram retorno financeiro mais evidente. Talvez o “Buteco do Gusttavo Lima” não tenha sido planejado como turnê na época do DVD, mas a partir do momento em que o projeto começou a se desenhar como tal o retorno ficou evidente. O show de estreia em Uberlândia teve ingressos esgotados. E a notícia é de que já é um dos shows mais pedidos do ano que vem. O “Cabaré” foi um dos maiores êxitos comerciais de 2015. O “Lendas” nem estreou e já tem mais de 80 datas negociadas. Tudo isso prova que estamos diante de um nicho ainda pouco explorado e que pelo jeito ainda vai render muito em 2016 e talvez nos anos seguintes.

Justamente por isso, esse é o projeto certo na hora certa na carreira do Gusttavo Lima. Depois de uma fase tumultuada no lado administrativo, tudo o que o Gusttavo precisava é de um projeto que trouxesse de volta tudo aquilo que o consagrou e mostrasse ao seu público que ele continua o mesmo, ainda que tenha evoluído absurdamente como artista. E o resultado, pelo jeito, tem sido tão positivo que ele até evitou gravar um novo CD ou DVD esse ano. Ora, nada mais natural, já que ainda dá pra explorar por muito tempo o atual projeto.

Com o controle da própria carreira em mãos e ao optar por não ousar no seu primeiro projeto “solo”, Gusttavo Lima conseguiu manter a confiança do mercado e provar que sua força vai, sim, muito além do escritório. Basta continuar falando diretamente ao seu público fiel, que gosta mesmo é de vê-lo desse jeito: simples e direto. E este projeto é exatamente isso: simples e direto, como tem que ser.