REVIEW – César Menotti & Fabiano – Memórias Anos 80 e 90

Uma outra coisa marcante de 2014 foi a volta das regravações. César Menotti & Fabiano, Bruno & Marrone, Gusttavo Lima, Michel Teló, Leonardo e Eduardo Costa (num projeto em conjunto) lançaram este ano projetos que resgatam canções do passado. Um outro, de João Bosco & Vinícius, já está finalizado e deve sair logo após o carnaval. Esse movimento atual, aliás, lembra um pouco aquele que durou quase toda a década passada, de 2001 a 2007 ou 2008, com Bruno & Marrone dando o start e João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano, Jorge & Mateus e Victor & Leo consolidando a apresentação de novas versões de grandes canções, principalmente das décadas de 80 e 90, para um novo público que relutava em curtir estas mesmas canções em seus formatos originais. Era o tal sertanejo universitário.

Acontece que a intenção do movimento universitário era atrair um novo público dando uma nova cara aos grandes sucessos de décadas anteriores. Por isso essas músicas ganharam roupagens tão diferentes. O que se vê esse ano, entretanto, é uma vontade de mostrar estas mesmas músicas da forma mais próxima possível àquela com a qual foram lançadas, ou seja, de celebrar as músicas daquela época ao invés de modernizá-las. Tudo isso da forma mais didática possível.

E é justamente sobre o ponto de vista didático que este novo projeto da dupla César Menotti & Fabiano mostra sua relevância. Enquanto Michel Teló resolveu explicar a música sertaneja através de um documentário, por exemplo, César Menotti & Fabiano tiveram a grande sacada de resumir os anos 80 e 90 em canções chave do lado B de grandes artistas, inclusive daqueles que na maior parte do tempo têm sua importância diminuída ou simplesmente anulada, neste que é outro grande acerto deste disco.

Aliás, cabe aqui uma crítica: algumas canções, de tão regravadas, já deveriam ter “saído de linha”, não? Afinal, quem é que aguenta ouvir mais novas versões de “Ainda ontem chorei de saudade”, “Telefone Mudo”, “Saudade da Minha Terra”, “60 dias apaixonado”, “Pagode em Brasília” e diversas outras? Já deu, né? Pra mim é este o grande trunfo do projeto “Memórias Anos 80 e 90”: explicar essa fase de ouro da música sertaneja com canções que nunca ou quase nunca haviam sido regravadas, preservando inclusive os arranjos e harmonias originais.

É claro que o disco relembra Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, João Paulo & Daniel e Chrystian & Ralf, tantas vezes já relembrados e homenageados nos últimos 15 anos. Mas ao invés das mesmas batidíssimas canções, o disco traz o lado ainda praticamente inexplorado do repertório desses caras. “Cara ou Coroa” e a fantástica “Outra vez por amor”, de Zezé di Camargo & Luciano; “Talismã”, “Você ainda vai voltar” e “Diz pra mim”, de Leandro & Leonardo; “Nuvem de Lágrimas”, “Brincar de ser Feliz” e “No Rancho Fundo”, de Chitãozinho & Xororó; “Hoje eu sei” e “Preciso te encontrar”, de João Paulo & Daniel (esta última gravada originalmente por Rick & Renner); “Ausência”,”Esperando você chegar” e “Chora Peito”, de Chrystian & Ralf. Não me lembro de versões significativas destas músicas sendo lançadas desde 2000 por outros grandes artistas. Só em 2014 foi que “Ausência” ganhou uma versão de respeito, com Bruno & Marrone.

Mas como já dito acima, a diferença é que este disco também relembra e homenageia outros grandes cantores e duplas que muitas vezes são simplesmente ignorados, em músicas também pouquíssimas vezes regravadas, como Roberta Miranda (“São tantas Coisas”), Duduca e Dalvan (“Meus Pedaços”), Chico Rey & Paraná (“Leão Domado”, “Tranque a porta e me beija” e “De carona com a saudade”), Irmãs Galvão (“Meus Pedacinhos”), Felipe & Falcão (“Deixa eu te amar por favor”), Juliano César (“Faz ela feliz”), e, principalmente, Matogrosso & Mathias, que tiveram 5 de suas músicas regravadas neste projeto (“Memórias”, “Espinhos da Vida”, “Pedaço de Minha Vida”, “De igual pra igual” e “Amanhã”). Aliás, é a canção “Memórias” que abre e, de certa forma, dá título ao disco duplo.

Alguns dos medalhões dos anos 80 (e 70) também foram devidamente homenageados, como Milionário & José Rico (“Sonhei com Você”), Trio Parada Dura (“Me mata de uma vez”) e João Mineiro & Marciano, no que talvez tenha sido um dos poucos delizes do disco, já que César Menotti & Fabiano optaram por regravar as duas músicas mais clichês dos dois (“Seu amor ainda é tudo” e “Ainda ontem chorei de saudade”), no que destoou um pouco da grande sacada que foi o repertório. Além disso, por ser um disco de homenagens a grandes artistas e músicas das décadas de 80 e 90, algumas pessoas devem ter sentido falta de canções dos repertórios de Cezar & Paulinho, Alan & Aladin, Gian & Giovani, entre outros, que foram deixados de fora sei lá por quais motivos.

A escolha por um produtor bastante ligado a essa época, Gabriel Jacob, e a opção por preservar as versões originais dos arranjos ao invés de criar novos ressalta ainda mais o caráter didático deste disco. É como se a dupla dissesse: “Quer aprender sobre o sertanejo dos anos 80 e 90? Tá aqui o que você tem que ouvir”. Pra deixar a coisa ainda mais escancarada, talvez ficasse mais interessante preservar até as nuances daquela época, como a guitarra dobrada e os tons estratosféricos em algumas músicas ou trechos delas. “Cara ou coroa”, por exemplo, ganhou um arranjo com uma única guitarra e foi cantada numa região vocal mais confortável, sem nenhuma subida de tom. Na original, aém do tom alto, ele sobe mais duas vezes até o final quase gritado, coisa que o Zezé dominava na época.

Parece ter ficado claro, aliás, que a dupla não tentou em nenhum momento superar as versões originais, e sim apenas homenageá-las. É um disco de celebração (com 28 faixas, que reúnem 35 músicas) e não de auto-afirmação, e provavelmente um dos mais completos resumos da importância dos anos 80 e 90 para o gênero sertanejo já feitos. Sem dúvida foi um dos mais didáticos. Se um dia a música sertaneja virar curso de graduação, sem dúvida este disco vai ser um dos “livros” adotados pelos professores.

Ah, tem uma coisa que não dá pra deixar de comentar. Naquela que foi uma das principais ideias relacionadas a este disco, a dupla disse que lançaria uma versão dele em LP, numa edição limitada a 400 exemplares. Mas até a presente data, não vi nenhum exemplar nas lojas e nem à venda na Internet e nenhuma pessoa que tenha o disco nessa versão, que seria de fato a homenagem definitiva à época tema do projeto. Não sei se a dupla desistiu de lançar o disco em formato LP, mas que teria sido uma sacada e tanto, ah isso teria.

Em tempo: a dupla gravou há poucas semanas um DVD deste projeto, que deve ser lançado em breve.

Nota: 9,0