REVIEW: César Menotti & Fabiano – Os Menotti no Som

REVIEW: César Menotti & Fabiano – Os Menotti no Som

Depois de 3 anos sem um disco de inéditas, César Menotti & Fabiano lançam seu mais novo trabalho, “Os Menotti no Som”. O disco é marcante não apenas pelo aguardado repertório de inéditas, mas também por ser o primeiro da dupla em parceria com o produtor Dudu Borges. A escolha dele para conduzir o projeto é, aliás, apenas mais um entre diversos fatores que demonstram o receio da dupla com a “fase” ou “vertente” do sertanejo que eles preferem representar. É que, ao mesmo tempo em que a dupla carrega para a eternidade o legado de precursores do sertanejo jovem/universitário em âmbito nacional, eles parecem tentar chamar sempre para si a responsabilidade de representarem também o lado mais tradicional do gênero.

O fato deles virem de dois projetos em sequência resgatando canções dos anos 80 e 90 e com arranjos 100% baseados nos originais é bem simbólico nessa questão. A dupla ficou conhecida nacionalmente justamente por subverter o formato de alguns grandes hits daquela época, tornando as músicas novamente comerciais e agradáveis aos ouvidos de um público que via o gênero até então como brega e ultrapassado. É claro que esse fenômeno já era observado regionalmente em alguns pontos do Brasil, mas Cesar Menotti & Fabiano foram os primeiros a mostrarem em âmbito nacional que a música sertaneja poderia ser atraente ao público jovem. Depois de conquistarem esse público, a dupla vem tentando, desde então, mostrar um certo equilíbrio entre o pop e o tradicional, entre o moderno e o clássico, talvez até para fazerem jus à tradição sertaneja na qual foram criados.

“Os Menotti no Som” é uma clara tentativa de resgatar o apelo junto a um público menos tradicional, o que é uma decisão lógica depois de dois discos de releituras em sequência. Por isso, o que mais se ouve ao longo deste novo projeto são canções com linguagem comum às paradas de sucesso dos dias de hoje. Vaneira e bachata, ritmos de 8 em cada 10 músicas sertanejas tocadas no rádio hoje em dia, são os dois predominantes nas músicas do projeto, praticamente nesta mesma proporção.

Mas mesmo que isso possa ser encarado como uma teórica falta de ousadia, a verdade é que o repertório é, na sua quase totalidade, de muito bom gosto, com apenas uma ou outra escolha controversa e eventualmente questionável pela parcela mais criteriosa do público. A nova de trabalho, “Cachorro de Rua” é, com certeza, uma das melhores do disco. Faz jus à interpretação da dupla e é uma das que mais tem a ver com a linha vocal sempre marcante do Fabiano. Ainda melhor que ela, “Brindando o Fracasso” traz a dupla duetando com a fenomenal Marília Mendonça numa disputa incrível de interpretação. Excelente escolha para essa parceria, aliás.

A música de abertura do disco, “Chandon”, demonstra bem essa intenção da dupla em reforçar a sua relevância junto ao público jovem, tanto pela linguagem da letra quanto pelo potencial em emplacar um bordão (“Põe os Menotti no Som”, frase do refrão que inclusive deu origem ao título do CD), e que vai com certeza dar uma excelente música de abertura do show da dupla.

Mas, sem dúvida alguma, a grande música do CD é mesmo “Colo de Algodão”, estrategicamente colocada como faixa de encerramento por ser a mais forte e inusitada do disco, ao mesmo tempo em que destoa completamente das outras faixas. É como se fizesse parte de um outro projeto, não por ser melhor, mas por ter características totalmente diferentes das demais faixas do CD. Romântica ao extremo e com uma linguagem incrivelmente pop, é uma música que precisa ser ouvida e, logicamente, trabalhada. Facilmente uma das melhores músicas de 2016 até o momento.

Sobre a tal preocupação da dupla com a busca por um equilíbrio entre o perfil mais voltado ao público jovem e o perfil mais tradicional, o disco tem alguns exemplos notáveis. “Gordinha” é uma música que fala sobre uma moça que é amada mesmo estando acima do peso. “Seu Patrão”, por sua vez, fala de um amor do chefe pela funcionária. Por mais que a intenção aplicada nestas músicas seja de uma linguagem mais moderna, o fato é que elas conversam muito mais facilmente com o público tradicional, que gosta dessa coisa de música com tema, bem mais que o público moderno, acostumado a canções mais genéricas e sem personagens pré-definidos. Tanto é que elas têm agradado mais justamente o perfil tradicional de público. Principalmente “Gordinha”, que já vinha sendo divulgada no boca a boca.

Sobre as escolhas eventualmente questionáveis do disco, creio ser possível citar duas canções que, numa primeira impressão, podem causar certo estranhamento no público da dupla. Em menor grau, “Love Love You” pode ser encarada de forma negativa por conta do arranjo retrô. E, num maior grau, “Caranguejo” pode sofrer rejeição pelo simples fato de ser uma regravação do cantor Latino, mesmo que a dupla a tenha melhorado significativamente. Sem falar que ela pode funcionar muito bem ao vivo.

Numa entrevista que eu gravei com a dupla mas que não foi ao ar por conta da perda dos arquivos, Cesar Menotti explicou muito bem o motivo da escolha do produtor Dudu Borges para este novo projeto: a necessidade de “ouvir” mais. Depois dos primeiros discos em parceria com o Maestro Pinocchio e tirando os dois recentes da série “Memórias Anos 80 e 90”, produzidos pelo Gabriel Jacob, a dupla sempre fez questão de tomar conta ela mesma dos próprios discos, mais especificamente o César Menotti. Talvez por isso, a dupla sentiu a necessidade de contar novamente com o direcionamento de um produtor de peso. A escolha pelo Dudu Borges vai ao encontro dessa intenção e, de quebra, mostra que a dupla tem grandes planos para este projeto, mesmo que ele tenha respeitado ao máximo a identidade musical da dupla.

Mesmo sendo o melhor disco da dupla desde o DVD “Voz do Coração”, este “Os Menotti no Som” passa a impressão de ser um grande pontapé inicial de um mega projeto futuro, isto é, a base para um grande DVD, talvez pelo curto repertório – 12 faixas, o que era normal na década de 80 mas para os padrões atuais parece pouco, mesmo que apenas 4 ou 5 faixas sejam trabalhadas. Ainda assim, o disco cumpre muito bem a missão de reposicionar a dupla dentro de um panorama comercial depois de dois anos dedicados ao belo projeto de resgate “Memórias Anos 80 e 90”, além de atender muito bem ao crescente interesse pela dupla que observamos no sempre forte trabalho de mídia que realizam.