REVIEW – Cezar & Paulinho – Alma Sertaneja

REVIEW – Cezar & Paulinho – Alma Sertaneja

Juro que não consigo explicar o processo de esquecimento gradativo da música raiz. Nos anos 90, quando se falava em discos de regravações ou de inclusão de uma ou duas releituras de clássicos da música sertaneja, geralmente se referiam aos clássicos caipiras. Com o passar do tempo, no entanto, artistas sertanejos e fãs da modinha que se tornou a música sertaneja passaram a achar que “clássicas” são apenas as músicas dos anos 80 e 90, além dos chavões que todo mundo conhece e acaba achando que são as únicas músicas de raiz que existem, como “Telefone Mudo”, “Pagode em Brasília”, “Saudade da Minha Terra” e similares. A música caipira de verdade simplesmente foi sendo deixada de lado na hora de montagem de repertórios.

Poucas são as duplas que quando resgatam música de raiz no repertório de um disco buscam realmente os clássicos caipiras, valorizando a viola e tal. Daniel em 3 projetos de raiz. Chitãozinho & Xororó em um CD e um DVD. João Carreiro & Capataz recentemente no Lado A Lado B, mas a maioria das músicas era inédita. “Marcão, e o Double Face do Zezé?”. Ora, apesar de excelente, não era um repertório caipira, mas de modão. Cezar & Paulinho são das poucas duplas que se preocupam em manter a tradição da música caipira. Já haviam gravado um disco anos atrás com um repertório essencialmente caipira, além das músicas que eram incluídas em um ou outro repertório dos discos.

Mas entendam: quando eu digo “manter a tradição da música caipira”, não me refiro apenas a escolher e juntar em um disco um punhado de músicas que todo mundo está cansado de conhecer. Trata-se de montar um repertório que realmente faça alguma diferença, com músicas que quase nunca são regravadas e que, portanto, pouca gente conhece, e que justamente por isso precisam ser resgatadas e mostradas novamente ao grande público.

O DVD “Alma Sertaneja” da dupla Cezar & Paulinho consegue valorizar ainda mais o resgate da música caipira com um repertório que foge dos chavões, dos clichês, e traz de volta canções incríveis que por incrível que pareça alguns artistas e fãs da música sertaneja contemporânea sequer ouviram falar. Os dois únicos chavões do disco são “Saudade da Minha Terra” e “Franguinho na Panela”, que só foram incluídas no repertório porque foram gravadas com a participação dos cantores originais. Belmonte & Amaraí e Craveiro & Cravinho, respectivamente.

O projeto foi dividido em duas partes. A primeira com arranjos tradicionais, fiéis aos originais, e participação do Belmonte & Amaraí, da Inezita Barroso e do Sérgio Reis. A segunda com arranjos de cordas e participação de Craveiro & Cravinho, Ed & Fábio e Chitãozinho & Xororó. A segunda parte, aliás, recebeu mais atenção. As duplas Craveiro & Cravinho e Ed & Fábio participam de umas cinco músicas seguidas, hehe. Além da já conhecida “Geração de Cantador”, composição do Cezar que conta justamente a história das três gerações de cantadores da família, as 3 duplas cantam juntas a hilária e excelente moda de viola inédita “Ser feio não é defeito”.

Fora Craveiro & Cravinho e Ed & Fábio, a dupla Chitãozinho & Xororó foi a única que participou do disco com mais de uma canção. Cantaram “Terra Tombada” e “Você é tudo o que pedi pra Deus”, esta do repertório dos próprios Cezar & Paulinho, composição da Roberta Miranda que foi gravada também com o arranjo original. Aliás, esta pareceu ser uma das principais preocupações do projeto, além da escolha cuidadosa das músicas: preservar os arranjos originais.

Afora a óbvia e inegável qualidade vocal da dupla Cezar & Paulinho, o disco tem outros pontos altamente positivos, como o cenário simplório mas muito bem concebido, imitando a entrada de uma fazenda, com os cantores sentados em tocos de madeira e tudo mais. Durante quase toda a primeira parte do disco, inclusive, houve a participação de um tocador de viola de cocho, instrumento sertanejo raríssimo. Aliás, cada um dos artistas participantes ganhou uma viola de cocho de presente em agradecimento à participação.

Mas, ressalto, o principal elemento do disco é o incrível repertório, com canções que quase nunca são lembradas por outros artistas durante a montagem de um repertório de regravações. Entre as pérolas resgatadas pela dupla Cezar & Paulinho, estão “Os três boiadeiros”, “Sementinha”, “Pai João”, “Chico Mulato”, “Couro de Boi”, “Disco Voador”, “Vaca Estrela e Boi Fubá” e “Cheiro de Relva”. E o que é mais incrível: todas as músicas do disco devidamente apresentadas junto com o nome de seus compositores. Absurdo pensar que hoje em dia há quem insira canções em DVDs e não coloque os nomes dos compositores nem no encarte e nem nos créditos ou na ficha técnica.

Cezar & Paulinho são dos poucos artistas legitimamente sertanejos. Apesar de seguirem uma linha mais extrovertida, com canções engraçadas, gravadas com um palavrãozinho aqui e outro ali, ainda fazem questão sempre de se mostrarem como dupla caipira que valoriza de fato a tradição sertaneja. Um dos duetos mais incríveis e inimitáveis do sertanejo e que merece o nosso respeito. Ainda mais quando brinda os fãs de música sertaneja de verdade como eu com uma maravilha dessas, como é de fato este disco.

Nota: 10