REVIEW – Chitãozinho & Xororó 40 anos – Entre Amigos

REVIEW – Chitãozinho & Xororó 40 anos – Entre Amigos

Não, eu não vou fazer deste texto um louvor à velha guarda da música sertaneja e nem uma oportunidade para humilhar a nova geração, apesar de eu ter absoluta certeza de que os comentários deste texto serão basicamente isso. O problema é que apesar de eu ser absolutamente contra essa bobagem de ficar jogando 400 pedras nos artistas da nova geração da música sertaneja, não dá pra escrever sobre o DVD “Entre Amigos” sem falar do DVD “Nova Geração”, afinal os dois fazem parte do projeto comemorativo dos 40 anos da maior dupla sertaneja de todos os tempos. Mas não esperem impropérios, xingamentos e humilhações da minha parte para com os novos artistas. Isso eu deixo para aqueles que com certeza já estão com os dedinhos coçando para escreverem coisas do gênero ali nos comentários.

O DVD “Entre Amigos” é o segundo dos 3 DVDs previstos para a comemoração dos 40 anos da dupla Chitãozinho & Xororó. O primeiro reuniu apenas artistas da nova geração da música sertaneja, apesar da sentida ausência de artistas como Paula Fernandes e da inexplicável presença de Guilherme & Santiago naquele ao invés deste. O terceiro, previsto para o segundo semestre de 2011, trará aparentemente apenas artistas que não fazem parte do segmento sertanejo. No segundo DVD, “Entre Amigos”, como o próprio nome diz, temos apenas a presença de artistas mais “próximos” da dupla Chitãozinho & Xororó. Basicamente os da velha guarda, claro.

Se no DVD “Nova Geração” houve uma clara preocupação em enaltecer o caráter comercial do disco, neste aparentemente não houve essa pressão. Ao invés da aparente imposição apenas de canções que poderiam ser trabalhadas junto ao público de forma mais competitiva, o DVD “Entre Amigos” ficou obviamente mais próximo ao já consagrado estilo da dupla, não interessando se é isso o que o atual público da música sertaneja procura.

Não dizendo que aquele disco ficou ruim, até porque ficou ótimo, mas é praticamente óbvio que Chitãozinho & Xororó estão bem mais à vontade neste do que naquele. Ao invés do estranho distanciamento mantido nas canções daquele disco, na qual eles separaram apenas um ou dois versos para encaixarem suas vozes, neste Chitãozinho & Xororó se preocuparam bem mais com a métrica, realizando aqui sim uma série de bons duetos, bem lineares, com trechos das músicas cantados pelas participações e trechos completos pela dupla principal, ao invés dos dois ou 3 versinhos do disco anterior.

Outra diferença com relação ao disco anterior é a pouca preocupação com o quão comercial o disco ficaria. Como eu disse linhas acima, no DVD “Nova Geração” o repertório foi escolhido de forma mais linear, aparentemente priorizando canções que ficariam melhores quando produzidas de uma forma mais comercial. Não houve, por exemplo, nenhuma música de raiz naquele disco. A mais “retrô” foi “Coração Quebrado”, com os estranhos no ninho Guilherme & Santiago. No mais, apenas canções que poderiam facilmente ser trabalhadas pelas duplas que as gravaram ou até mesmo pelos patrões Chitãozinho & Xororó.

No DVD “Entre Amigos”, a escolha do repertório foi mais variada. O DVD traz músicas aparentemente mais “comerciais”, como “Somos Assim”, gravada por Bruno & Marrone, e “Foge de Mim”, com Gian & Giovani. Também músicas de raiz, como “Obras de Poeta”, com Cézar & Paulinho, e “No Rancho Fundo”, com Daniel. Além de músicas mais puxadas para o country, como “Deixei de ser cowboy por ela”, com Rionegro & Solimões, modões, como “60 Dias Apaixonado”, com Milionário & José Rico, e músicas que valorizam a interpretação, como “Se Deus me ouvisse”, com o Edson, e “A Minha Vida”, com César Menotti & Fabiano.

A pouca preocupação com o caráter comercial do disco parece estar presente inclusive na escolha das harmonias. Ao invés da simplicidade de uma quantidade menor de instrumentos, dessa vez trabalharam até com arranjos de cordas, que aliás não foram devidamente valorizados na mixagem. Só numa música ou noutra é que se percebe de verdade a presença dos violinos e demais instrumentos da orquestra.

Na parte visual, o DVD “Entre Amigos” se mostrou inferior ao “Nova Geração”. A decoração com cores mais escuras destoou um pouco da profusão de cores e da valorização da iluminação, que foram bem marcantes no DVD anterior. No cenário do “Nova Geração” os detalhes foram mais bem cuidados. No “Entre Amigos” nem tanto. Ora, até tapetes foram utilizados no palco. Tapetes!!! Não criticando quem utiliza tapetes em cenários de DVDs, mas isso pra mim denota uma certa preguiça na decoração. “Ah, joga um tapete aí e tá bom“. Hoje em dia, até o chão dos palcos nos DVDs devem ter detalhes mais bem pensados. Afinal é um DVD e não um show de estrada como qualquer outro, onde um tapete resolve todos os problemas de marcação do espaço.

Sem querer levantar a polêmica do “quem foi melhor”, os convidados deste disco realmente são “macacos velhos”. A qualidade vocal e de interpretação é fantástica. Ora, eu fui na gravação e pouquíssimas vezes algum deles teve que repetir alguma canção. Quase todos subiram ao palco, mandaram muito bem e foram embora. Nada daquela cosia de “ih, errei, volta”. A falta mais sentida e comentada talvez tenha sido a da dupla Chrystian & Ralf, mas o papo que rola é que houve o convite, mas que os próprios declinaram.

A título de homenagem, trata-se de um trabalho excepcional, claro. Mas o fato é que é um trabalho voltado apenas à parcela do público que possui uma história maior com a música sertaneja e uma preocupação menor com o que está no topo das paradas. Para quem quer realmente deitar no sofá de casa e apreciar a música sertaneja e não para quem quer botar no som do carro ou na festa pra galera cantar junto. Não que isso seja ruim, cada vertente tem as suas vantagens e as suas qualidades, mas talvez seria interessante se as duas vertentes fosse um pouco mais próximas. Assim talvez a galera mais voltada à apreciação da música, que é o público alvo do DVD “Entre Amigos”, pudesse ser menos extremista e parasse de enxergar a nova geração da música sertaneja como uma praga a ser combatida.

Nota: 8,5

Estou pensando em deixar de dar notas aos discos a partir do próximo Review. É que tem gente que simplesmente não lê nada do que foi postado e se preocupa apenas com a nota aplicada. O que mais interessa aqui é o texto, e muita gente simplesmente nem lê. Tirando a nota, quem sabe a pessoa não lê o que foi postado, né?