REVIEW – Chitãozinho & Xororó – Do tamanho do nosso amor

Chitãozinho & Xororó chegaram a um momento da carreira no qual não há mais nada o que provar. São 40 anos de história, gravando com quase todo mundo, ou pelo menos com quem realmente valia a pena gravar, sem falar da enxurrada de hits gravados durante toda a carreira. Por um lado, a dupla continua se mostrando, dentre os veteranos, a mais capaz de se adaptar às tendências e à modernidade aplicada à música sertaneja de tempos em tempos. Por outro lado, no entanto, já começam a sofrer do mesmo vício de artistas como Roberto Carlos, Fábio Júnior e outros: continuar resgatando o mesmo repertório projeto após projeto.

O novo DVD da dupla, “Do tamanho do nosso amor”, traz Chitãozinho & Xororó numa roupagem atualíssima, com arranjos contemporâneos aplicados a músicas consagradas da carreira e a algumas inéditas de compositores com grande importância atualmente dentro do segmento sertanejo. O mérito, em primeiro lugar, é do Fernando Zorzanello, da dupla Fernando & Sorocaba, que produziu este disco e rejuvenesceu, mais uma vez, a dupla Chitãozinho & Xororó.

A capacidade de adaptação e o respeito ao que é novo sempre foram grandes características da dupla. Desde o começo da carreira, eles sempre foram responsáveis pelas mudanças que a música sertaneja ia acumulando. De uns 15 anos pra cá, entretanto, passaram a acompanhar um pouco mais de longe as mutações do gênero, mas mesmo assim sempre tiveram a mente aberta. Enquanto todos criticavam o sertanejo universitário, por exemplo, eles gravaram um DVD com as próprias músicas em roupagens universitárias e com as participações de grandes ídolos dessa geração.

Este novo DVD é mais uma demonstração dessa preocupação deles em se mostrarem abertos a novas experiências. Enquanto o comum é ver artistas veteranos reclamando até cansarem de artistas da nova geração e de como se faz música sertaneja atualmente, Chitãozinho & Xororó seguem respeitando as conquistas dos novos e se posicionando de forma inteligente como grandes paizões dos artistas do gênero, cargo que lhes cabe totalmente. Mas são paizões do tipo que ao invés de distribuírem chineladas, botam todo mundo debaixo das asas e continuam ensinando a forma certa de se trabalhar o gênero. Sem broncas, só exemplos.

Só pra se ter uma ideia, o processo de divulgação deste disco incluiu realizar shows no decorrer deste ano de 2013 em quase todas as unidades da Wood’s, uma casa que sem dúvida é um símbolo da música sertaneja moderna. O DVD, aliás, foi gravado na unidade paulistana da Wood’s. Se o público sertanejo contemporâneo ainda relutava em se aproximar de Chitãozinho & Xororó, eles trataram de ir atrás desse público. Uma sacada e tanto. E nada de mega produção. Apenas um show na boate, com cenário simples mas com arranjos novos e modernos. E pra ser ainda mais moderninho, disponibilizaram o disco na íntegra no Youtube, exceto por algumas músicas e pelos depoimentos, que ficaram relegados apenas ao DVD. A capa do disco, aliás, dá uma ideia dessa preocupação com a contemporaneidade do projeto.

Apesar da sacada moderna e da qualidade dos arranjos, o disco esbarra, como eu disse no começo, na repetição do repertório. Vejam bem, se estivéssemos falando de um único disco que celebrasse a carreira da dupla nos últimos anos, até que seria mais compreensível. Mas este é o QUARTO disco seguido que a dupla lança com esse formato. Quatro DVD’s seguidos, todos celebrando as grandes canções de Chitãozinho & Xororó, cada um em um contexto diferente: com artistas da nova geração, com artistas sertanejos veteranos, com uma orquestra filarmônica e agora com as características do mercado atual. Não houve um respiro inédito entre estes discos.

É claro que eles já não tem mais o que provar e não precisam lançar mais nada novo se não quiserem. Mas convenhamos que é sempre bom, né? E quando um veterano com status de ícone acerta na veia uma canção inédita, todo mundo celebra, não é verdade? Foi assim com Roberto Carlos e o ultra hit “Esse cara sou eu”. Por que não poderia ser com Chitãozinho & Xororó também?

E olha que este DVD tem canções inéditas incríveis, como “E aí, tempo”, do Caco Nogueira, e “Do tamanho do nosso amor”, do Sorocaba, que traz ainda a participação dele e do Fernando. É óbvio que as canções da dupla são fantásticas. Inclusive, as que entraram neste projeto foram selecionadas justamente por já terem uma cara mais moderna. Não foram incluídos hits a lá “Fio de Cabelo”. Mesmo assim, acho que caberiam muito mais canções inéditas no disco. Nem que fosse necessário tirar do repertório músicas como “Vida Marvada”, que apesar da letra bacana é uma música deveras superestimada pela dupla, convenhamos.

No fim das contas, temos um disco incrível, agradável de se ouvir (exceto pelo volume exagerado nas vozes do público), mas que, no intuito de inserir a dupla num contexto moderno, acabou tropeçando no principal ponto, que era o ineditismo. A sacada é genial, claro, mas pode ser muito melhor aproveitada se a dupla realizá-la em cima de um repertório completamente inédito. E é isso o que eu gostaria de ver num próximo projeto.

Nota: 9,5