REVIEW – Chitãozinho & Xororó – Tom do Sertão

Com o incrível delay de 5 meses, enfim estou postando o primeiro review de 2015. Sei que muita gente ainda tem essa como a sessão preferida do blog. E por mais que eu a tenha abandonado, ela ainda está viva. Eu sei que sempre prometo que vou me dedicar um pouco mais a ela e nunca cumpro, mas juro que não faço por mal. É uma junção de N fatores. E para dar o start nos reviews de 2015, vamos falar do disco “Tom do Sertão”, homenagem ao Tom Jobim que a dupla Chitãozinho & Xororó lançou no começo do ano.

Já venho há alguns anos batendo na tecla de que Chitãozinho & Xororó já esgotaram todas as possibilidades que haviam para eles dentro do gênero sertanejo. 40 anos de carreira muito bem conduzidos, dezenas de milhões de discos vendidos, o respeito de absolutamente TODA a classe sertaneja e o título de maior dupla sertaneja de todos os tempos. No segmento sertanejo, de fato não há mais nada a ser conquistado por eles. Talvez por isso, nota-se há alguns anos uma vontade da dupla de obter o reconhecimento além das barreiras do gênero.

Certa vez eles tentaram gravar um disco em homenagem ao Raul Seixas, cuja música “Tente outra vez” foi a responsável por devolver a eles a vontade de vencer na carreira. Segundo reportagens da época, a intenção acabou esbarrando no preconceito da filha DJ do Raul, que, segundo rumores, não permitiu alegando que o pai se reviraria no túmulo. Em outra ocasião, quando a dupla foi escolhida para cantar o tema dos 500 anos de Brasil, o rapper Gabriel O Pensador criticou a escolha também em tom jocoso. Numa matéria da coluna do Nelson Motta no Jornal da Globo sobre o gênero sertanejo, há certo tempo, o colunista aproveitou para destilar todo o ódio que sente pela nossa música e, justamente quando o texto da matéria destacava a palavra “mediocridade”, apareceu um trecho de um vídeo da dupla.

A frustração de ter que ler e ouvir desaforos deste tipo apenas por defenderem um gênero musical feito pelo e para a parcela mais simplória e humilde da população brasileira, desprezada por intelectuais fajutos como Nelson Motta, que confundem crítica com gosto musical, parece motivar a dupla a buscar o reconhecimento através de projetos que a mostrem como artistas além do sertanejo e que de certa forma transmitam o respeito que profissionais de outros segmentos têm pela dupla. O maior exemplo recente disso foi o projeto Sinfônico, que rendeu um DVD fantástico, que acabou ganhando o Grammy Latino de melhor álbum sertanejo. Ali, fora o maestro João Carlos Martins, nomes como Caetano Veloso, Djavan, Maria Gadú, Jair Rodrigues, entre outros, foram o exemplo que a dupla precisava de que fora do sertanejo não há apenas boçais preconceituosos. Sem falar de gravações já realizadas com Roberto Carlos, Ney Matogrosso, Roupa Nova, Fábio Jr, etc, etc, etc. Há sim muita gente que reconhece a importância histórica deles para a música brasileira fora do gênero sertanejo.

Mesmo assim, este novo projeto “Tom do Sertão” parece ainda ter um resquício dessa busca pelo reconhecimento da classe de intelectuais. Ora, Tom Jobim é o nome brasileiro mais forte na música mundial. Adorado pelos críticos. E tem gente fora do Brasil que acha que por aqui só existe samba e bossa nova. Uma homenagem desse tipo mostra, ainda que sutilmente, uma intenção de linkar a dupla a um aspecto mais amplo da música brasileira.

Um trabalho como esse teria tudo, aliás, para se tornar piegas. Ora, onde já se viu uma dupla sertaneja cantando bossa nova? Seria forçar uma barra gigantesca. Talvez com isso em mente, a dupla conduziu este disco a partir de uma ideia nem um pouco óbvia: explorar o lado sertanejo do Tom Jobim. Ora, mas ele tinha isso? Sim, e como tinha. Basta despir-se do preconceito e olhar atentamente para clássicos como “Correnteza”, “Águas de Março”, “Chega de Saudade” e “Eu sei que vou te amar”, que ou trazem uma alma bucólica ou falam de amor da mesma forma que algumas das maiores canções sertanejas de todos os tempos sempre fizeram.

É praticamente um tapa na cara desses tais intelectuais de araque. É como se a dupla Chitãozinho & Xororó esfregasse na cara deles que o seu grande ídolo maior também tinha um lado sertanejo. Lado esse que somente o preconceito faz com que não seja enxergado. O resultado é um disco o mais sertanejo possível com músicas que ninguém jamais imaginou que fossem sertanejas. Coisa que a tal filha do Raul Seixas deveria enxergar em músicas como “Sessão das 10”, “Medo da Chuva”, “Trem das 7” e “Capim Guiné”, canções com alma sertaneja que seu pai eternizou, só pra citar quatro grandes exemplos.

Chitãozinho & Xororó deram a essas e  a outras 10 músicas do Tom a cara sertaneja que lhes faltava para que elas pudessem ser enxergadas como canções do gênero. Afinal, se a letra já podia ser interpretada como sertaneja, talvez os arranjos originais é que as afastassem dessa vertente. O resultado são versões incríveis, valorizando instrumentos como viola caipira e acordeon. A versão de “Eu sei que vou te amar”, com a viola caipira solada ao melhor estilo das modas de viola tradicionais (como “O Rei do Gado” e “Ferreirinha”, por exemplo), é histórica. E “Correnteza” talvez tenha ganhado neste disco a sua versão definitiva, apesar de que eu falando isso soa meio suspeito.

A dupla também soube conduzir a produção de forma sábia ao evitar encarar sozinha, através de seu produtor Claudio Paladini, a missão de produzir um disco a partir de uma obra jamais enxergada como sertaneja, convidando para a co-produção profissionais muito mais ligados ao universo da música de Tom Jobim, como Edgard Poças. Ney Marques, que já trabalhou com a dupla em outros projetos de natureza musical mista (como o DVD Sinfônico), também assina a produção. Destaque também para as fotos da capa e da contracapa, que reproduzem fotos clássicas do Tom e de seu maior parceiro, Vinícius de Moraes.

Não sou profundo conhecedor da obra de Tom Jobim. Na verdade, conheço apenas os clássicos mais famosos, como os que citei. Então não vou dar uma de Nelson Motta e opinar sobre um gênero que não conheço. A opinião que posso dar aqui é a de um mero amante do sertanejo. E deste ponto de vista, reunir apenas canções que mostram o lado mais caipira de Tom Jobim talvez tenha sido o maior trunfo deste projeto. “Garota de Ipanema”, por exemplo, ficou sabiamente de fora mesmo sendo o maior clássico dele, afinal ela não tem absolutamente nada de caipira. Assim, não apenas o público não-sertanejo como também o sertanejo podem enxergar esse lado até então inédito da obra de Tom Jobim.

Nota: 10,0