REVIEW – Daniel – 30 Anos – O Musical

REVIEW – Daniel – 30 Anos – O Musical

Apesar deste disco estar sendo comercializado como um DVD comum, trata-se de uma peça de teatro. Simples assim. Não é um DVD que dá pra pôr pra tocar no carro ou num bar. É um DVD que deve ser assistido em casa, sentado no sofá ou na poltrona, tal qual uma peça de teatro. É bom ressaltar isso antes de começar a escrever o texto.

Eu detesto teatro. Acho de uma chatice incomensurável. Musicais mais ainda. Mais chato ainda porque tratam o teatro e os musicais como se fossem as mais absolutas expressões de cultura e as pessoas fossem obrigadas a gostar, sob pena de serem consideradas ignorantes. Basicamente o mesmo que não gostar de MPB ou de filmes em preto e branco. Por conta disso, não me agradava muito a ideia de assistir a este novo projeto do Daniel, que conta a história da sua vida em forma de musical, principalmente por esperar exatamente os elementos de teatro que costumam não me agradar. Fora o receio de que o espetáculo pendesse para o piegas ou para algo parecido com uma peça escolar.

Comecei a assistir, portanto, com o pé atrás, mas disposto a dar o braço a torcer. As 3 primeiras faixas do DVD trazem cenas da infância do Daniel, com o ator mirim Matheus Braga usando uma peruca para parecer com o Daniel criança e dois atores mais experientes – Daniella Biancalana e Marcos Tumura – vivendo os pais do cantor. Cronologicamente, essas três faixas contam a história da aproximação do Daniel com a música (ao som de “Romaria), a saída de Brotas (com “Poeira da Estrada” como trilha) e o aprendizado da segunda voz através do pai José Camillo, com “Saudade de Minha Terra” como tema. E foi nesta terceira faixa que baixei a guarda. Os atores Matheus Braga e Marcos Tumura fazendo um dueto na primeira estrofe de “Saudade da Minha Terra” é algo de encher os olhos e ouvidos.

Mas foi na faixa seguinte que eu, já com a guarda baixa, desabei de vez. Acontece que antes de ser um “não-admirador” de teatro, eu sou um fã de música sertaneja. E fã de João Paulo & Daniel. E como tal, simplesmente não deu pra impedir que minha garganta embargasse quando o ator Rafael Machado, que vive o João Paulo no espetáculo, entrou em cena pela primeira vez cantando em dueto com o ator Felippe Siqueira, que vive o Daniel mais jovem, a música “Solidão de Amigos”. Chorei. E admito isso sem nenhum receio.

Daí por diante, o espetáculo segue por mais 5 faixas celebrando a espetacular fase “João Paulo & Daniel” da carreira do Daniel, com a releitura de diversas canções que foram sucesso na voz da dupla. Começando com um ato em que a dupla questiona uma atendente de rádio pelo fato da mesma não tocar as músicas na programação, até chegar a “Te amo cada vez mais”, cuja letra e interpretação, pelo menos no musical, fazem referência direta ao fim da parceria, com a morte do João Paulo, em versos como “Eu não quero ver você partir e aquela porta se fechar” e “Não me deixe aqui, eu não posso aceitar o fim”, enquanto o ator Rafael Machado vai deixando a cena, caminhando lentamente para fora do palco.

O ato depois da morte do João Paulo também é bastante simbólico. Depois de cantar a música “Bridge Over Troubled Water” (“Ponte sobre águas turbulentas”, em tradução livre), do Paul Simon, Daniel é confrontado pela família e por outros personagens da peça quanto à dúvida em seguir ou não a carreira. A resposta vem na faixa seguinte, “Tocando em frente”.

A partir daí, Daniel passa a celebrar a fase seguinte da carreira, como cantor romântico, exaltando principalmente a importância que sua música teve na formação de diversos casais, momento em que ele divide a interpretação da música “Dia de domingo” com a Lissah Martins, ex-Rouge que se tornou atriz de musicais (ela foi destaque na peça Miss Saigon). Esse ato, composto de 3 faixas, se destaca também pelo que parece ser a representação do início do romance do Daniel com sua esposa Aline.

O ato se encerra com a fase em que o Daniel interpreta alguns de seus hits “agitados”, como “Fricote”, “Dengo” e “A jiripoca vai piar”. Depois disso, enquanto canta “Meu mundo e nada mais”, do Guilherme Arantes, Daniel se questiona sobre as mudanças na sua carreira e na personalidade, se era de fato aquilo que ele sonhava, num momento que parece até mais complicado para ele do que foi a morte do João Paulo.

A música seguinte (“Pra ser feliz”) mais uma vez traz a resposta à pergunta expressada na música anterior, em versos como “Às vezes é mais fácil reclamar da sorte do que na adversidade ser mais forte, querer subir sem batalhar…”. A partir daí, Daniel celebra alguns dos principais momentos de sua carreira, como a música “Esperança”, que foi abertura de novela, “Menino da Porteira” e “Disparada”, relembrando sua incursão no cinema. A música “Nos Bailes da Vida”, do Milton Nascimento e do Fernando Brant, pré-encerra o espetáculo com uma letra também altamente simbólica. “Tantinho”, do Carlinhos Brown e a mais recente música de trabalho do Daniel, serve como o encerramento do musical.

Um belíssimo espetáculo. Emocionante, acima de tudo. Talvez seja uma peça difícil de ser assistida por quem tem preguiça de pensar, já que boa parte das faixas é altamente simbólica, tanto na letra quanto na interpretação dos atores. É necessário prestar muita atenção e entender a mensagem passada em cada canção. O fato de boa parte das músicas sequer fazer parte do repertório do Daniel, aliás, serve justamente pra isso, pra passar a mensagem e contar a história de uma forma mais coerente. Mesmo assim, é uma história altamente digna, sem estereótipos e que, creio eu, não deixa a desejar se comparada a nenhum grande musical “biográfico” em cartaz nos palcos de teatro do Brasil. Sem contar a parte musical, com orquestra e com a sempre fantástica interpretação do Daniel.

A forma como o João Paulo foi tratado no espetáculo é também algo a se aplaudir de pé. Boa parte da peça é totalmente dedicada a ele. O próprio repertório do Daniel foi praticamente deixado de lado, se compararmos com a quantidade de músicas da fase “João Paulo & Daniel” incluídas. O mesmo espaço, entretanto, não foi concedido ao Hamilton Régis Policastro, talvez uma das figuras mais importantes da carreira do Daniel e que mereceu apenas uma ou duas cenas, bem estereotipadas por sinal, através de uma representação praticamente cômica do ator Max Oliveira e que nos créditos só mereceu a vaga alcunha de “empresário”.

A única pena de assistir a esse espetáculo é saber que muito dificilmente ele vai ganhar edições físicas, ainda que em cidades estratégicas. A não ser que o próprio Daniel banque o projeto e resolva levar o espetáculo aos teatros do Brasil, duvido que algum grande produtor de teatro tenha essa coragem, principalmente por se tratar de um cantor de origem popular e com o público pertencente às classes menos abastadas, o que pode espantar o habitual público de teatro, mais interessado em histórias de cantores que eles não precisam ter vergonha de admirar.

Nota: 10