REVIEW: Daniel – In Concert em Brotas

REVIEW: Daniel – In Concert em Brotas

Não consigo pensar em outra forma de escrever este review a não ser na condição de fã. É que, como fã, eu fico, ano após ano, mais e mais frustrado por esperar do Daniel algo que ele parece cada vez menos a fim de fazer. Cá estamos nós, em 2015, e o Daniel segue tentando assumir cada vez mais uma identidade de “Daniel cultural”, ou “Daniel Erudito”, aumentando a distância (já oceânica) entre o Daniel dos tempos do João Paulo de quem virei fã deste Daniel de hoje, mais preocupado em se mostrar um grande intérprete acima de qualquer rótulo ou gênero.

“Ora, mas não é isso que todo artista anseia”? Sim, claro que sim, e se tem alguém que tem condições pra isso é o Daniel. Mas é frustrante torcer para que o próximo trabalho dele seja algo numa linha mais tradicional, com releituras acústicas de alguns dos grandes sucessos da dupla João Paulo & Daniel e dos primeiros discos da sua fase solo, ou talvez um projeto em DVD da série “Meu Reino Encantado”, prometido há décadas, e quando chega a hora do lançamento, lá vem mais um disco com o Daniel interpretando grandes canções românticas da MPB. Lindo, maravilhoso, bem feito, mas ainda assim frustrante para um fã saudosista como eu. E olha que nem tem tanto tempo assim que ele vem focando nisso, mas é que acaba parecendo uma eternidade.

Digo isso porque tive o privilégio (que vocês terão quando sair o DVD) de assistir o Daniel interpretando ao vivo dois clássicos do começo da sua carreira com a produção do Maestro Pinocchio. Foi emocionante. Um dos melhores momentos do DVD “Meus amigos e minhas músicas”, que o Maestro gravou com várias participações. O que me levou à pergunta: por que cargas d’água o Daniel não faz isso em um disco inteiro? O que o puxa tanto para esse lado tão preocupado com o caráter cultural da sua carreira e tão pouco com o lado comercial, com o que os seus fãs mais saudosistas (e não são poucos) tem vontade de vê-lo fazendo?

Em seu novo DVD, “In Concert em Brotas”, ele chega provavelmente ao ápice desse lado “cult”. Falo isso mesmo levando em conta que seu último projeto havia sido um musical sobre os seus 30 anos de carreira. No novo disco, ele reúne uma grande orquestra no cinema que ele reformou em Brotas, sua cidade natal, e regrava algumas grandes canções brasileiras com participações que vão desde o Rick Sollo e seu pai José Camillo até Sérgio Reis, Renato Teixeira, Carlinhos Brown e até Roberto Leal, aquele mesmo do “Vira-vira”.

O repertório do disco passeia ligeiramente entre estes dois extremos do Daniel, mas o foco acaba sendo mesmo as canções “de fora”. De um lado, Daniel interpreta estas grandes canções que transcendem seus gêneros originais, como “Toda forma de amor”, “Apenas mais uma de amor”, “Amor I Love you”, “Primavera”, “Como Vai Você”, “Cheia de Charme”, “Será” (ela mesma, a do Legião Urbana), “Gitã”, entre outras. Do outro, relembra alguns grandes clássicos do cancioneiro caipira, como “Menino da porteira”, “Menino da Gaita”, “O último julgamento”, “Amizade Sincera”, “Romaria”. Em apenas quatro faixas do disco é que ele passeia pelo seu próprio repertório, finalmente relembrando “Não precisa perdão” e “Muda”, revivendo “Dá-me, Dá-me” e cantando 5 dos seus maiores sucessos em um medley, das quais apenas uma é do repertório de João Paulo & Daniel.

O disco é, em primeiro lugar, uma grande homenagem à sua cidade natal. Além da locação escolhida, o disco ainda tem o Hino Municipal de Brotas como faixa de abertura. Em segundo lugar, é mesmo uma demonstração da versatilidade do Daniel como intérprete. Mas, sem dúvida, os melhores momentos, pelo menos para o grupo de fãs saudosistas no qual me encaixo, são aqueles nos quais ele passeia pelo próprio repertório, principalmente quando canta “Não precisa perdão” com o Rick, repetindo uma parceria que já havia sido gravada no mais recente CD do Rick, no qual eles também relembraram em dueto não uma mas duas músicas compostas pelo Rick e gravadas por João Paulo & Daniel. E é muito triste o fato de que o disco tem apenas duas faixas assim.

O grande problema desse disco não é nenhum de seus aspectos musicais ou técnicos. É de fato lindo e de muito bom gosto e só corrobora a qualidade do Daniel como intérprete e o fato de que ele é, sem dúvida, um dos poucos cantores brasileiros que podem ser encarados além do próprio gênero que representam. O negócio é mesmo aquela frustração da qual falei no começo e em vários outros momentos deste texto. Não sei qual é o motivo que leva o Daniel a querer seguir por esse caminho enquanto há tanto o que ele pode fazer pelos fãs conquistados durante seus primeiros 20 anos de carreira. Sim, porque o que vemos nos últimos 10 anos é quase sempre a mesma caminhada rumo à mesma glamourização. Vemos tantos artistas da sua geração se reinventando dentro do próprio gênero e torcemos tanto para que ele faça o mesmo, mas isso nunca acontece. Ele já provou, de novo, que pode ser sofisticado, chique, cult. Mas às vezes tudo o que queremos é vê-lo num formato mais simples, mais sertanejo, mais tradicional. Quem sabe no próximo disco.