REVIEW DUPLO – Edson & Hudson – “Faço um circo pra você – Ao Vivo” / “Na Hora do Buteco”

REVIEW DUPLO – Edson & Hudson – “Faço um circo pra você – Ao Vivo” / “Na Hora do Buteco”

Mais um review duplo com textos sobre dois lançamentos de um único artista. Edson & Hudson também lançaram um DVD e um CD em 2013. DVD que, aliás, comemora o retorno da dupla, que ficou cerca de dois anos separada. Abaixo, uma análise dos dois projetos.

* DVD – FAÇO UM CIRCO PRA VOCÊ – AO VIVO

Depois de dois anos separados, enfim uma das melhores duplas da história da música sertaneja retorna. Este DVD, “Faço um circo pra você”, celebra esse retorno contando a história da dupla desde o seu começo, no circo. Apesar de não ser tão inédita assim (Gilberto & Gilmar já gravaram um DVD em cima da mesma ideia anos atrás), a sacada de usar um circo como cenário é muito bacana. No caso, o circo Stankowitch, em São Paulo.

Mas se na questão visual o DVD acerta em cheio, principalmente no simbolismo das escolhas feitas nessa parte, no quesito repertório o disco erra um pouco ao valorizar demais o período em que a dupla esteve separada, como se eles sentissem a necessidade de relançar algumas das músicas que gravaram nesse período ao invés de resgatarem antigos sucessos e contarem a história da dupla também no repertório e não apenas no cenário.

A sonoridade, ao contrário, continua valorizando os bons tempos da dupla, com a guitarra do Hudson sempre presente e um som country rock de qualidade, assim como nos anos anteriores à separação. E apesar do Hudson ter deixado parceiros musicais como o Brandoff para trás, a sua presença no repertório e na sonoridade neste DVD é bem mais marcante que a do Edson.

A maioria das músicas da época solo dos dois resgatadas neste DVD vieram dos discos do Hudson e não do Edson: “Aleluia”, “Dona do meu coração”, “Rosana”, “Eu te amo tanto”, “Amar ao próximo” (que ele gravou com o padre Antônio Maria durante a parceria com o Donizetti) e “Dói o peito”. A única da época solo do Edson foi “Uma canção pra você”. E curiosamente, das músicas lançadas logo após o retorno da dupla, a única que não foi inserida neste disco foi a que mais carregava a marca do retorno, pelo menos no título: “Deu Saudade”.

As poucas músicas da época da dupla foram as mais celebradas pelo público no decorrer do disco. O problema é que são apenas 5 faixas do disco, num total de 6 músicas. Talvez tivesse sido mais interessante consolidar o retorno com um repertório formado principalmente por canções antigas ou por músicas inéditas e não tanto por canções do período solo de cada um deles. Afinal, creio que a ideia seja esquecer aquele período, já que na sessão “discografia” do site da dupla, pelo menos, não consta nenhum dos projetos que eles lançaram enquanto estiveram sozinhos.

Fora esses detalhes, o DVD resgata o lado bom de Edson & Hudson, com um dos melhores duetos da música sertaneja, um dos melhores intérpretes que existem no Brasil (Edson), um dos melhores guitarristas (Hudson) e um som muito próprio, que até hoje ninguém conseguiu imitar. Talvez justamente por ninguém ter conseguido copiar o som da dupla até hoje é que as músicas antigas foram as mais celebradas. Não à tôa, uma delas acabou sendo escolhida como de trabalho do projeto.

O disco traz ainda bons momentos como o da participação da dupla Léo Canhoto & Robertinho em duas canções, uma delas em homenagem ao pai da dupla Edson & Hudson, o palhaço “Beijinho”, que atua durante a canção limpando a maquiagem de palhaço num camarim improvisado, com o neto Vitor chorando copiosamente ao fundo do palco.

Este DVD até celebra o retorno de forma bem digna, mas seria ainda mais impactante se resgatasse de fato o antigo repertório e mostrasse a dupla em sua velha forma. Algumas canções inéditas até ajudam nesse processo, como “Meu amor é 10”, que tem a cara da dupla, mas é no repertório antigo que residem os melhores momentos, principalmente em canções como “Só penso em você” e “Deixa eu te amar”.

Nota: 8,0

* CD – NA HORA DO BUTECO

O segundo disco lançado pela dupla esse ano dá continuidade, de forma mais compacta, a um formato iniciado há alguns anos com o projeto “Na moda do Brasil”, que acabou não tendo a continuação anunciada pela dupla algum tempo antes da separação. Digo “compacta” porque este disco não é um DVD como o “Na Moda do Brasil” e traz na sonoridade uma quantidade bem menor de instrumentos.

Mas a ideia é basicamente a mesma: resgatar grandes sucessos da música sertaneja. Mas uma outra diferença com relação àquele disco é bem evidente: naquele, optaram por um repertório formado principalmente por canções mais agitadas. Neste, pegaram as mais melancólicas e sofridas e deixaram ainda mais melancólicas e sofridas através dos arranjos.

Boa parte dos beats das músicas, inclusive, parece ter sido diminuído quando comparamos com as versões originais. Os arranjos, todos em violão, foram quase todos executados sem acompanhamento. Em boa parte das músicas, o restante dos instrumentos (no máximo mais um violão base, um baixo e alguns efeitos de percussão) só entrou depois do arranjo. Ao que parece, a intenção é mostrar um outro tipo de boteco.

Normalmente, quando vemos projetos com essa temática, como já fizeram artistas como Bruno & Marrone e diversos outros, a ideia é sempre mostrar botecos agitados, cheios de gente em ritmo de festa e por aí vai. O boteco de Edson & Hudson, entretanto, está mais para aqueles em que o cara bota a ficha na jukebox e escolhe o maior sucesso do João Mineiro & Marciano pra ouvir enquanto toma o décimo-oitavo copinho de aguardente lembrando da maldita que partiu seu coração. Vish, muito visual essa descrição, né? Mas é bem isso mesmo.

Até a escolha do repertório partiu justamente para esse lado mais melancólico, com músicas como “Confidências”, “Liguei pra dizer que te amo”, “Talismã”, “Fio de Cabelo”, “Solidão” e a mais sofrida da carreira do Amado Batista, “O fruto do nosso amor”. A dupla Léo Canhoto & Robertinho dá o ar da graça participando da canção “O último julgamento”, uma das poucas caipiras do disco, se é que podemos considerá-la dessa vertente.

Entre as inéditas do disco estão “Sofrer Felicidade”, “Dez Corações” e “Demorô, demorô”. Esta última, junto com a regravação de “Entre Tapas e Beijos”, são os únicos momentos descontraídos do disco.

A ideia de trazer à tôna um tipo de música de boteco mais sofrida, diferente da costumeiramente lembrada pelos sertanejos em projetos dessa natureza (até pela própria dupla no DVD “Na moda do Brasil”), é bem válida. Afinal de contas, não sei se há um público mais fiel à boa e velha música sertaneja do que os frequentadores desse tipo de bar. Desses que gostam de beber pra tentar esquecer e não apenas pra comemorar alguma coisa. Pra quem quer comemorar, qualquer música alegre serve. Agora pra tentar esquecer, quanto mais sofrida e melancólica a música, melhor. O problema é que ela só ajuda a lembrar, esquecer nunca. Quem já sofreu bebendo horrores enquanto ouvia esse tipo de música sabe disso.

Nota: 8,5