REVIEW DUPLO – Israel & Rodolffo – “Imprevisível” / “Acústico – Na Terra do Pequi”

REVIEW DUPLO – Israel & Rodolffo – “Imprevisível” / “Acústico – Na Terra do Pequi”

Este ano, fora os Mega Reviews, vou escrever dois reviews duplos com dois discos lançados por um único artista. O primeiro traz Israel & Rodolffo, que lançaram um DVD e um CD em 2013. Abaixo, seguem as análises sobre cada um destes dois projetos, que se complementam mais do que se imagina.

* DVD – IMPREVISÍVEL

Um disco cercado de expectativas. Até porque se tratava possivelmente da consolidação de um projeto de sucesso do ano de 2012, com o primeiro DVD da dupla amplamente elogiado e executado e que os colocou no topo das listas de apostas de quase todos os profissionais do gênero sertanejo.

A cartilha foi, inclusive, seguida da forma correta. Afinal, o correto era mesmo projetar a dupla de uma forma mais pomposa do que no primeiro DVD, para consolidar o crescimento. Ao invés de levar as participações tradicionais da galera de Goiânia, como foi feito no primeiro DVD e como normalmente é feito pelos artistas de lá no começo, a dupla levou participações de renome nacional – Tiaguinho, Leonardo, João Bosco & Vinícius – e do então colega de escritório Lucas Lucco.

Mas se no primeiro DVD a dupla teve na verdade a oportunidade de consagrar canções que já eram cantadas por eles na noite goiana há um bom tempo e talvez por isso já fossem conhecidas do público, neste segundo DVD existia o risco do repertório inédito. E nesse ponto entrou em ação mais uma vez aquele que é o grande algoz da maioria das gravações de DVD realizadas em Goiânia: o público.

A frieza e o descaso do público goiano com as gravações de DVD realizadas na cidade são uma coisa grotesca. Eu juro que não entendo como a galera continua insistindo em fazer DVDs por lá. Já passou da hora de tirar Goiânia um pouco da rota de gravações. O público já não dá mais a mínima bola para eventos dessa natureza. Até comparecem, compram ingressos, mas vão às gravações como se estivessem indo a um evento qualquer. O resultado a gente vê na tela: pessoas viradas de costas, pouca ou nenhuma interação e takes do público com iluminação bem reduzida para que essa pouca interação não fique tão evidente.

Eles ainda apostaram para este disco num repertório mais sério, com canções mais profundas como “Imprevisível”, “Hipnose”, “Quem vai chorar não sou eu”, “Coração”, “Amor da sua vida”, “Inconsciente”, “Eclipse” e outras. E entre as agitadas, resolveram ousar e gravar um reggae e dois pagodinhos, um deles com a participação do Tiaguinho, que foi a primeira música de trabalho deste projeto. Escolhas ousadas, mas que de certa forma até faziam sentido, já que a dupla havia estourado um ano antes com uma guarânia. Mais inusitado que isso, impossível.

Trocando em miúdos, este DVD acabou ficando deveras sério para um público muito acostumado com a bagaceira como o público goiano. Talvez por isso a interação do público no DVD tenha sido tão pouca, com o resultado podendo ser visto no vídeo, mesmo com um cenário correto e bonito. Para ouvir o áudio no carro, é ótimo. Um repertório bem escolhido, mesmo com uma aposta ousada em ritmos não muito bem assimilados pelo público sertanejo (pagode, reggae, bachata), mix e master de alta qualidade, entre outros aspectos positivos.

É um disco que até mostra a dupla de uma forma maior do que a que foi mostrada no primeiro DVD, mas que não atingiu o objetivo esperado por eles talvez por não ter tido a mesma energia daquele disco. Eles próprios falaram a respeito disso na entrevista que concederam ao Blognejo meses atrás. Tanto que a própria dupla rapidamente lançou um novo single e meses depois um novo disco, que mesmo sendo um projeto paralelo conseguiu tirar um pouco o foco do DVD e amenizar o impacto da demora no lançamento.

Nota: 8,0

* CD – NA TERRA DO PEQUI

No DVD a dupla ousou em ritmos pouco aproveitados na música sertaneja e chegou a resgatar ritmos que foram esquecidos pelos artistas da nova geração (bolero, bailão, etc.). De fato, isso ajudou a mostrar a dupla de uma forma ainda mais séria, ainda mais para quem talvez achasse que a “Marca Evidente” tinha sido apenas um golpe de sorte de uma dupla que tinha pouco a oferecer. Enfim, coisa de cético que acha que tudo o que é novo não presta.

Acontece que os mais crédulos já sabiam que Israel & Rodolffo não faziam parte do balaio da mesmice da música sertaneja atual. Ora, os dois cantam juntos desde moleques, com influência do sertanejo das antigas, e o Israel ainda toca viola caipira, fora outros elementos interessantes da musicalidade dos dois. Além disso tudo, o Juarez, pai do Rodolffo, compositor da “Marca Evidente” e um dos principais divulgadores da dupla, do tipo que pega o carro e sai Brasil afora fazendo o trabalho duro, tinha um extenso repertório de composições “rústicas” guardado e que, por questões meramente comerciais, não poderiam ser incluídas em discos de carreira. Mas não dava pra deixar essas músicas guardadas. E graças a Deus a dupla resolveu mostrá-las ao mundo.

O resultado, amplamente elogiado pelos amantes de música sertaneja, é o incrível disco “Na terra do Pequí”, que traz a dupla Israel & Rodolffo interpretando 26 canções inéditas com temática beeeem sertaneja, quase de corno, em formato acústico, com violão, baixo, sanfona e, quando muito, um cajon.

A ideia era fazer um projeto paralelo, que seria distribuído apenas entre amigos. Mas a demora no começo do trabalho de divulgação do DVD acabou fazendo que o timing daquele projeto fosse perdido e a incrível aceitação deste novo disco acabou transformando-o em projeto de trabalho. Atualmente, a dupla trabalha nas rádios a música “Não me aceito sem você”.

Este novo disco de fato mostra que a dupla não é como qualquer outra. Mesmo tendo no repertório canções que possam ser consideradas da “modinha”, já na “Marca Evidente” eles mostravam que a intenção era diferenciada. E o “Na terra do Pequí” escancara essa intenção de mostrar a dupla como realmente séria e acima de tudo ligada ao sertanejo de fato.

A produção do William Borjaz priorizou ainda arranjos à moda antiga, com a sanfona tocada de forma a relembrar os arranjos de outros tempos. Dá pra ouvir o barulho das teclas da baixaria da sanfona, só pra se ter uma idéia. Mais natural e original que isso, impossível.

É difícil elencar as melhores canções deste projeto, principalmente para um fã do sertanejo das antigas como eu. Mas se for para dizer quais eu considero melhor, provavelmente são “Não me aceito sem você”, “Telefone”, “Escravo da Saudade”, “Saudade devora”, “Casaco de cor azulada”, “Última Ficha”, “Episódio” e “Amor Voraz”, estas duas últimas as mais moderninhas do disco. Mas o disco todo é um prato cheio para quem ainda gosta de botar um disco para ouvir durante um churrasco.

O mais bacana a respeito deste projeto é que ele amenizou o impacto da demora no lançamento do DVD. Se o timing perdido começou a prejudicar a dupla em certos aspectos, um projeto paralelo ajudou a contornar a situação. E o melhor de tudo é que é um projeto paralelo incrível, que nos ajuda a lembrar que a música sertaneja ainda pode ser de fato SERTANEJA, por mais que muita gente tente levá-la para longe disso.

Nota: 10