REVIEW – Fernando & Sorocaba – Homens e Anjos

REVIEW – Fernando & Sorocaba – Homens e Anjos

Bem, chegou a hora de começar a colocar em dia os reviews do Blognejo. Pelas minhas contas, acho que estou uns 25 reviews atrasado, hehe. Destes, cerca de 15 até agora são para o Megareview. Mas daqui até o fim do ano ainda há tempo. E como já estamos quase na metade de setembro, ao invés de escrever dois megareviews como eu havia planejado, vou escrever apenas um no final do ano, assim como fiz em 2012. Daqui até lá, vou escrevendo os reviews regulares, recomeçando nossa saga pelo review de hoje.

O mercado ficou em polvorosa quando Fernando & Sorocaba anunciaram que produziriam um disco com o Dudu Borges, o produtor mais badalado da nova geração. De fato as reações foram as mais variadas, tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Uma parcela dos fãs e admiradores do trabalho da dupla receava pela mudança na linha musical característica deles. Os profissionais de música ficaram receosos quanto à possibilidade da produção do Dudu Borges acabar deixando o som da dupla muito parecido com os seus demais trabalhos. Os otimistas, entretanto, acreditavam que essa poderia ser uma das parcerias mais interessantes dos últimos anos na música sertaneja.

Esse atraso nos reviews do Blognejo acabou vindo bastante a calhar. É que a análise deste projeto em específico pedia um período de observação de alguns meses. Foi importante observar a reação do mercado a esse disco. Confesso que à época do anúncio da parceria entre a dupla Fernando & Sorocaba e o produtor Dudu Borges não esbocei nenhuma opinião, até mesmo porque não sabia ainda o que esperar. Como admirador e defensor das produções do Dudu, fiquei na verdade orgulhoso com a parceria. Posso dizer, portanto, que eu me encaixei num primeiro momento entre os otimistas. Acreditei que o toque do Dudu Borges pudesse devolver a Fernando & Sorocaba um pouco da identidade deixada de lado principalmente no último disco, como já até expressei na época no respectivo review.

Entendam. Como eu já havia dito no review do disco “Acústico na Ópera de Arame”, algumas das características da sonoridade da dupla que a faziam uma das mais originais do mercado foram praticamente abandonadas. As vaneiras com solos de violão comuns no repertório dos caras agora costumam vir com sanfona. A rabeca e a guitarra steel foram relegadas a papéis coadjuvantes, sendo que antes eram praticamente protagonistas. Enfim, pequenos detalhes que acabaram tirando da dupla a originalidade que lhes era peculiar.

Não que a qualidade da produção nos trabalhos da dupla tenha diminuído. É que desde que o Fernando passou a ser o principal responsável por essa parte, ele acabou valorizando elementos com os quais tem mais intimidade, como a guitarra e o teclado/piano. Por mais que a qualidade dos trabalhos tenha se mantido num nível alto, é fato que os elementos que davam originalidade ao som de Fernando & Sorocaba foram ficando de lado. Então, quando o Dudu Borges foi anunciado como co-produtor do disco, havia uma certa esperança de que ele ajudasse a resgatar esses elementos, além de somar as suas características de produção com as do Fernando, que a cada dia vem se mostrando mais e mais competente como produtor musical (vide o novo disco da dupla Chitãozinho & Xororó).

Depois de ouvir o disco pronto, a constatação é de que o resultado final acabou não trazendo praticamente nenhuma inovação na sonoridade da dupla. Sem decepções, claro, mas também sem surpresas. A dupla manteve a sempre alta qualidade dos arranjos e das harmonias, mas acabou repetindo os mesmos erros que haviam sido cometidos no último disco acústico. De novo, os elementos originais da dupla foram deixados de lado. O novo disco não tem uma notinha sequer na rabeca. E a guitarra steel só tem destaque na música “O que cê vai fazer”, que por acaso foi a música de trabalho até dia desses. A gaita, que também costumava marcar bastante os discos da dupla, só ganhou espaço na música “Praia Brava”.

Mesmo com o Dudu Borges na co-produção, o disco ficou muito próximo ao anterior da dupla, mesmo aquele tendo sido acústico e este de estúdio. A marca do Dudu Borges, na verdade, só é perceptível na pegada da bateria de algumas das vaneiras e em algumas das músicas mais românticas, principalmente em “Vingança” e “Homens e Anjos”. No mais, o disco ficou a cara do Fernando, principalmente nas guitarras. E como eu disse, os deslizes que a meu ver marcaram o disco anterior ainda estão presentes neste. Tá certo que se o disco é da dupla Fernando & Sorocaba nada mais natural que ficar a cara do Fernando. Mas então em quê se justificou toda aquela expetativa no anúncio da parceria se a intenção era que o Dudu Borges aparecesse apenas como um nome na ficha técnica? Foi só pra causar rebuliço, como de fato causou?

Sobre os deslizes que eu mencionei, o primeiro se dá na escolha do repertório. A dupla tem oscilado descaradamente entre o sensacional e o descartável. Na verdade nem precisou sair esse disco novo pra já se notar isso. Nos dois singles lançados depois do DVD e antes do disco novo, “As mina pira” e “Livre”, já se percebia um abismo gigantesco em termos de qualidade e de identidade. Enquanto “Livre” é a cara da dupla, um exemplo perfeito de como é possível sair um pouco das características originais de antes sem perder a alta qualidade, tanto de letra quanto de harmonia, “As mina pira” foi um golpe na sempre celebrada originalidade da dupla. Pôxa, 385 duplas e cantores gravaram músicas com essa mesma frase como tema.

Esta música é, aliás, um exemplo de uma fórmula sempre utilizada por eles e que eu já critiquei antes por aqui: a de aproveitar excessivamente expressões do cotidiano nas músicas. No disco “Homens e Anjos”, além de “As mina pira” como faixa bônus, ainda temos “Imagina na copa”, “Veneno”, “Mô” e “Caras e Bocas”, que direta ou indiretamente fazem uso desta mesma tática. Tá, deu muito certo com “A casa caiu” há alguns anos, mas isso não significa necessariamente que é uma fórmula infalível. Outra fórmula, a da homenagem a algum ponto turístico (“Madrid”, “Férias em Salvador”, “Everest”…) é reutilizada em “Praia Brava”.

Esse lado da dupla, o que busca a fórmula fácil que deu certo em uma ou outra música em anos anteriores e que acaba deslizando em momentos descartáveis como “As mina pira”, bate de frente com o outro lado da dupla, que se enxerga na posição que eles de fato ocupam. É inegável que Fernando & Sorocaba são uma das principais duplas da atualidade, com uma das principais arrecadações no show que é um dos mais elogiados se não o mais elogiado do Brasil. E quando eles se enxergam do tamanho que eles de fato são, temos canções como “Livre”, “O que cê vai fazer”, “Deixa falar”, “Homens e Anjos”, que traz um arranjo incrível de guitarra, e a sensacional “Vingança”.

Há quem diga que há hoje uma preocupação excessiva da dupla com o escritório e com a parte administrativa em detrimento de uma preocupação com si mesma enquanto artistas, atitude essa que, segundo muitos, precisa ser revista. Essa preocupação aquém da necessária faz com que a dupla se enxergue como concorrente de artistas que na verdade estão muuuuuito longe deles. Lá pra trás mesmo. No disco “Bola de Cristal” era visível o quanto Fernando & Sorocaba enxergavam a si próprios como artistas do primeiro time, coisa que eles próprios não parecem enxergar atualmente. A capa do disco novo, aliás, é prova do tamanho da originalidade dos caras. Sem dúvida uma das mais incríveis e criativas de todos os tempos. Talvez o que esteja faltando é justamente que a dupla volte a se enxergar dessa forma: incrível, criativa e original.

Nota: 8,0