REVIEW – Fred & Gustavo – Vai que eu quero ver

REVIEW – Fred & Gustavo – Vai que eu quero ver

Já fazia tempo desde o último disco da dupla Fred & Gustavo. Quase dois anos. O fato daquele DVD ter sido bastante elogiado tornou o trabalho seguinte da dupla um tanto recheado de expectativas. Mesmo porque nesse meio tempo a dupla passou por momentos conturbados relacionados à saída não muito amigável de um grande escritório e entrada em outro.

As mudanças no staff de Fred & Gustavo foram, na verdade, apenas na esfera do escritório. Musicalmente, o projeto ainda é encabeçado pelo Ivan Miyazato. Aliás, este disco é uma das poucas oportunidades recentes de conferir o trabalho do Ivan Miyazato, que decidiu produzir a partir de agora apenas os artistas dos quais ele é sócio. E a seleção e composição do repertório, assim como no disco anterior, ainda é da própria dupla em parceria com o Marco Aurélio. Das 12 músicas do disco, 10 levam a assinatura da dupla e 7 do Marco Aurélio. Os demais parceiros são os habituais da turma, como Thiago Machado, Élcio de Carvalho, Márcia Araújo e Johnny Rodrigues, este um grande parceiro de composições do Fred. A única música que não leva a assinatura de nenhum destes mencionados é “Quem não beija bebe”, composta por Dyeguinho Silva e Juliano Guitar.

A mudança mais evidente se deu na proposta do disco com relação ao trabalho anterior. Os discos anteriores da dupla (tanto aquele produzido pelo Dudu Borges quanto o DVD produzido pelo Ivan Miyazato e pelo Eduardo Pepato) elevaram Fred & Gustavo, juntamente com George Henrique & Rodrigo e Kleo Dibah & Rafael, ao status de líderes de uma vertente sertaneja paralela à praticada atualmente: a de artistas tidos de excepcional qualidade (em voz, letra, interpretação, etc) e com a capacidade de levar a música sertaneja para o futuro sem desviar para o caminho da modinha passageira.

No entanto, aparentemente entendeu-se na ocasião da decisão sobre a produção do novo disco que carregar uma bandeira como essas num momento em que o mercado andava tão voltado para o passageiro e dando tão pouco espaço ao sertanejo tradicional – aquele com letras e arranjos de maior qualidade e com maior possibilidade de permanecer no mercado depois que essa fase passar – podia não ser a melhor decisão. Talvez não fosse tão sensato dar as costas para o que o mercado pedia e teimar em fazer um disco sem nenhuma “modinha passageira”. Isso foi pensado quando decidiram como seria esse disco, há meses atrás, já que o mercado está começando a pender agora para o lado romântico do sertanejo, principalmente por exigência das rádios, que andam cansadas dos arrochas, principalmente os pornôs, e de músicas com temas “polêmicos”.

De consciência limpa, a dupla (leia-se “todos os envolvidos”) decidiu fazer um disco totalmente meio a meio. São 12 músicas: 6 tradicionais e 6 modinhas. Mas tudo isso feito da forma mais bem pensada possível. As seis músicas de modinha são divididas em arrochas e vaneiras, com o nome da dupla sendo repetido sempre no meio da letra, o que é quase um padrão atual de mercado, além das letras fáceis e cheias de expressões, digamos, “calientes” como “empina”, “mostra a barriguinha e põe o dedinho na boca” e ligadas à festa e à bebida. Enfim, músicas totalmente condizentes com a realidade de mercado na época do lançamento do disco.

Acontece que nem por isso as músicas ficaram ruins. A qualidade dos arranjos é sem dúvida superior a muita coisa que ouvimos hoje em dia. O destaque vai para os arranjos de “Quem não beija bebe”, “Ela tá dançando” e “Boca Loca”, que eu considero uma das mais comerciais do disco. Antes do disco ser lançado, ouvi boa parte dos envolvidos no projeto e todos eles frizaram bastante essa intenção de fazer metade do disco voltado para o mercado. Todas essas músicas mencionadas conseguem fazer muito bem as vezes desse lado mais comercial da dupla.

Mas querendo ou não é como se ouvíssemos dois discos bem diferentes. Este disco que eu mencionei acima é de uma dupla preocupada em se adequar ao mercado atual, em mostrar para os contratantes que são sim capazes de segurar um show pra cima e que agrada o público. O outro disco, o “lado B”, entretanto, foi feito justamente para agradar os mais conservadores e corresponder a tantas expectativas destes depositadas sobre a dupla.

Esse lado B não só corresponde como supera essas expectativas e traz o que de melhor a música sertaneja oferece. Aquela coisa: se é pra fazer só metade do disco desse jeito, que valha pelo disco inteiro. As seis músicas que cumprem esse papel de “lado sério do disco” são simplesmente clássicos instantâneos, tamanha a qualidade. Quando 4 delas foram postadas aqui no Blognejo, os inúmeros comentários foram unânimes nos elogios.

Entre estas seis, a mais sensacional, sem dúvidas, é “Pássaro Livre”, uma guarânia com arranjo na viola e uma harpa clássica maravilhosamente tocada durante boa parte da harmonia, além de uma letra e uma interpretação fantásticas. “Saber Amar” é uma 6 por 8 com tantas nuances na interpretação que provavelmente não ficaria tão bom nas vozes de artistas sem a mesma qualidade ou superiores a Fred & Gustavo. “Jejum de amor” praticamente inaugurou o ainda tímido movimento da bachata na música sertaneja e é a melhor lançada desde que os artistas sertanejos redescobriram esse ritmo latino. O clipe dela deve sair nos próximos dias.

“Vai que eu quero ver”, que dá nome ao disco, é a que mais traz influência dos anos 90 tanto no arranjo, com direito ao teclado clássico, quanto na interpretação, recheada de agudos. “Vê se não some” é a mais romântica do disco e “Coração quebrado” inova no timbre do teclado no arranjo, além de trazer uma mescla incrível da letra em português com pequenos trechos em espanhol.

A decisão de fazer metade do disco extremamente comercial e metade para agradar os conservadores é totalmente sensata. Assim a dupla continua defendendo a bandeira da boa e velha música sertaneja, mantendo o status de grandes nomes do gênero para o futuro, o que de fato são, mas não deixa de atender às exigências de um mercado cada vez mais paradoxal. O disco é tão bipolar que até a sequência das músicas mostra isso, seguindo a linha comercial-tradicional-comercial-tradicional, faixa a faixa, só mudando nas duas últimas, para terminar a sequência com uma comercial.

Mas talvez por isso, para demonstrar o paradoxo desse mercado, que clama por artistas com alto nível de qualidade mas continua abraçando aqueles que não a tem, o disco não podia deixar de trazer uma cutucadinha, ainda que leve. A música “Vira lata”, mesmo sem intenção, exerceu essa função, tanto no título quanto no peculiar verso “pra ser da nossa galera não precisa ter talento, preste atenção, essa é a onda do momento”. Sem querer, acabou sendo uma crítica ao atual momento do sertanejo e a melhor explicação para o fato deste disco representar dois lados assim tão opostos. Dói, mas alguém ousa discordar?

Nota: 9,0

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