REVIEW – Gusttavo Lima – Ao Vivo em São Paulo

REVIEW – Gusttavo Lima – Ao Vivo em São Paulo

Curtindo a vida adoidado. É mais ou menos assim que o Gusttavo Lima tem aproveitado cada dia de sua nova vida de astro da música, com belos carros, belas mulheres, sucesso no Brasil e no exterior. Quem pode culpá-lo?. Eu, se fosse solteiro, se tivesse a mesma idade que ele e curtisse uma farra, provavelmente estaria fazendo a mesma coisa. Este é o Gusttavo Lima pós “Tche tche re re tche tche”. E sua nova postura extra-palco parece acompanhar uma mudança considerável em cima dele. O artista que havia ali antes do sucesso dessa música parece ter modificado um pouco suas prioridades. Não falo isso como uma crítica. Pelo contrário. O jovem cantor que quase não gravou a música que mudaria sua vida porque não se identificava com a proposta dela parece ter entendido, depois do sucesso que ela fez, que não faz mal aproveitar as benesses das quais se pode usufruir quando se opta por seguir uma postura profissional mais comercial. E é isso o que está representado no novo DVD, o “Ao Vivo em São Paulo”.

A primeira prova disso, evidente neste novo disco, é o quanto ele está mais à vontade no palco. Nos dois primeiros DVDs, o que se via era um rapaz franzino, preocupado quase que o tempo todo com o receptor do monitor de ouvido colocado na calça, e que tinha certa dificuldade em interagir com o público. No novo disco, entretanto, a postura de palco é outra. Interage muito bem com o público, com o balé, interpreta as músicas com uma segurança muito mais visível, mesmo o repertório sendo quase 100% inédito. Como o palco foi montado com passarelas para aproximar mais o artista do público (uma no meio, com direito a uma esteira, e mais uma de cada lado), talvez houve certa indecisão apenas quanto aos momentos mais indicados para realizar essa aproximação e por quais passarelas.

O repertório do disco foi concebido em parte para aproveitar a onda do “tche tche re re tche tche”. Além da própria música “Balada”, do Cássio Sampaio, que abre o disco, o DVD traz pelo menos outras quatro músicas que seguem uma linha bem parecida com ela, ou seja, o sertanejo de balada: “Gatinha Assanhada”, “Beber Água de Bar”, “As mina pira na balada” e “Fazer bebê”, essa inclusive com o Neymar dançando e cantando (ou pelo menos tentando, hehe), numa clara mas não intencional referência ao atual momento da música sertaneja. A música “Gatinha Assanhada” ganhou inclusive uma versão remix e um videoclipe gravado em Ibiza, que foi incluído nos extras do DVD.

A intenção clara deste novo disco é mostrar o Gusttavo Lima como um artista de grandes proporções, afinal foi essa a impressão deixada com o sucesso da “Balada”. Pegaram a maior casa de shows da maior cidade do Brasil, num show com balé e uma banda com tudo o que tem direito, de metais a cordas, que aliás foram usados quase que o tempo todo. O balé, formado por 10 garotas, aparecia apenas em algumas canções agitadas do repertório. Ainda bem. Se ele fosse usado em canções românticas, provavelmente ficaria “anos 90” demais. Não sou muito fã dos balés em shows sertanejos. Acho muito piegas. Mas reconheço que, apesar da coreografia, o balé foi um acréscimo bem interessante ao vídeo, principalmente no final da canção “Gatinha Assanhada”, com uma sincronia perfeita entre filmagem, iluminação e posição final do balé em cima do palco.

É claro, entretanto, que o Gusttavo Lima mais “comercial” não substituiu totalmente o Gusttavo Lima mais sensível de outros tempos e nem o Gusttavo Lima preocupado em se mostrar um bom músico. Na verdade, o que se observa é uma divisão interessante do show em momentos bem definidos de cada um deles. Tem o Gusttavo do “sertanejo de balada” que eu citei mais acima, o Gusttavo músico, que quer mostrar que toca bem vários instrumentos e o Gusttavo sensível, que valoriza muito o romantismo e a interpretação.

No DVD, ele toca 5 instrumentos em 5 momentos diferentes do show. Piano durante a música “Fora do comum”, violão (quase sem acompanhamento) durante a música “Menina”, guitarra durante “Meu medo”, viola caipira durante um pout pourri de clássicos (apesar de fazer quase que apenas a base desta vez, diferentemente dos outros DVDs) e, vejam só, bateria durante a música “Meu coração só pensa”. Na verdade, ele se preocupa muito em mostrar esse lado músico. Tanto que já disse que tem a intenção de gravar todos os instrumentos no seu próximo disco.

Sobre o lado sensível, além das 3 músicas seguidas tocadas no piano, uma por ele e duas pelo Eduardo Pepato, o disco trás vários momentos que valorizam o romantismo e a interpretação, como nas canções “Frases tão doídas”, “Meu medo”, Amor de um poeta” e as belíssimas “A promessa” e “Pense um pouco”. Sem contar o encerramento, com a canção gospel “DNA de Adorador”. Talvez o lado que tenha faltado neste disco tenha sido o lado compositor. Das 25 músicas do disco, apenas 3 ou 4 músicas são de autoria dele, bem diferente do primeiro disco, por exemplo, que trazia músicas suas em quase 100% do repertório.

A impressão que se tem é que, apesar de estar aproveitando e muito bem o lado comercial, o Gusttavo Lima quer mostrar-se o tempo todo um artista completo, que toca vários instrumentos e procura ser um bom intérprete. Nesse ponto, creio que não há necessidade de preocupação, afinal isso todo mundo sabe que ele é. Apesar de que junto à parcela mais exigente do público sertanejo, para não dizer chata ou inconveniente, o sucesso de músicas como “Balada Boa” ou “Gatinha Assanhada” joga por terra todos os elementos positivos do artista. Ora, fui rechaçado nos comentários do review que escrevi sobre o disco da dupla Munhoz & Mariano por gente que sequer assistiu ao DVD só porque os caras cantam “Camaro Amarelo”. É assim que a cabeça de uma parcela do público costuma funcionar. Se o artista entrar na pilha, aí sim é que a coisa desanda.

Se a intenção é mostrar o Gusttavo Lima como um artista de grandes proporções, creio que tanto a parte visual quanto o áudio do DVD conseguem cumprir bem seus respectivos papéis. Na direção visual, de forma muito sensata, a equipe do Anselmo Troncoso finalmente saiu do Full HD e passou para as câmeras de cinema, que dão um aspecto muito mais grandioso ao vídeo e mostram o show como um grande espetáculo de fato. Sem contar o cenário, que valoriza muito a utilização dos movings e demais elementos de iluminação e distribui os LEDs de uma forma fora do convencional, dando um aspecto mais artístico ao palco. Destaque também para a projeção mapeada em cima do piano durante as músicas em que ele é utilizado.

Na parte da produção musical, arranjos, mixagem e masterização, os responsáveis foram Ivan Miyazato e Eduardo Pepato. O Ivan é reconhecidamente um dos melhores técnicos de áudio do Brasil. O som que essa dupla consegue tirar, então, quando acumulam as funções de produtores, arranjadores e técnicos de mixagem e masterização (O Pepato mais nos arranjos e produção e o Ivan mais na técnica), é sempre ótimo. Todos os trabalhos que eles têm feito a partir desse mesmo esquema de trabalho conseguiram trazer um som bastante diferenciado. Neste disco, ao invés de valorizarem demais as cordas, o que provavelmente deixaria o DVD com um aspecto pouco comercial, tais instrumentos foram mixados de forma a apenas dar uma base ao restante da harmonia. Os metais, entretanto, tem uma presença bem mais marcante, principalmente nas canções agitadas. A master destacou bastante o público, como também é de praxe nos trabalhos da dupla, o que vai de encontro à intenção de deixar um disco o mais comercial possível.

Só pela iniciativa de buscar uma nova sonoridade para seu trabalho, fugindo um pouco do tradicionalismo e previsibilidade dos seus dois primeiros DVDs, Gusttavo Lima já demonstra um aumento considerável na sua maturidade musical. Ao saber dosar, então, o disco com momentos bem definidos para cada um de seus lados artísticos (o comercial, o romântico e o músico), mesmo com a falta do lado compositor, ele se mostra ainda mais consciente. É claro que não vou entrar em temas relacionados à sua vida pessoal e aos constantes boatos sobre sua pessoa que aparecem ou na mídia ou nos bastidores do mundo sertanejo. Para este texto, o que interessa é o seu lado musical. E levando apenas isso em conta, o disco não deixa nada a desejar. Supera com folga tanto o primeiro quanto o segundo disco. Consolida Gusttavo Lima como artista de grandes proporções e fornece todas as condições necessárias para a continuidade do trabalho e manutenção do sucesso conquistado com a música “Balada”.

Nota: 9,0