REVIEW – Gusttavo Lima – Do outro lado da moeda

REVIEW – Gusttavo Lima – Do outro lado da moeda

Sim. Esse é o melhor disco da carreira do Gusttavo Lima. E isso já parece ser uma unanimidade dentro do circuito sertanejo. Todo mundo tem enchido esse disco de elogios. Não vou deixar o suspense até o final desse texto pra deixar minha opinião. Eu concordo com o que tem sido falado a respeito desse projeto. É o melhor da carreira dele, mesmo. Resta fazer aqui no texto, portanto, algumas considerações a respeito do que levou esse disco a ser considerado como tal.

É sabido que, desde o começo da sua carreira, o próprio Gusttavo Lima sempre tentou se impor musicalmente. Em entrevista postada aqui no blog no começo deste ano, ele mesmo disse que fazia questão de desenvolver a maioria dos arranjos, mesmo não ficando com os créditos posteriores. Bom, essas são palavras dele, até porque não quero aqui levantar qualquer polêmica sobre a importância do trabalho deste ou daquele produtor. De forma alguma.

O que quero dizer é que o Gusttavo sempre tentou assumir para si as rédeas da parte musical da sua carreira e provavelmente se viu frustrado em projetos anteriores justamente por não poder exercer, de forma integral, a função de produtor musical, por conta do inevitável bloqueio que se formava diante da presença de um terceiro comandando o projeto. Este é o primeiro dos pontos a favor deste novo disco, “Do outro lado da moeda”. Aqui, ele pôde, enfim, cuidar mais dessa parte, junto com o Daniel Silveira, claro, que por ser membro e produtor da banda do Gusttavo está muito mais por dentro das preferências e da musicalidade dele do que estaria um produtor de fora. Primeiro ponto, portanto: uma maior autonomia e liderança sobre o próprio projeto.

O segundo ponto a favor deste disco no ranking de melhores da carreira do Gusttavo Lima é o momento específico da carreira dele no qual este disco foi produzido. Ele já vinha de 3 projetos de sucesso em sequência. E se no começo da carreira de um artista é necessário pensar de uma forma mais comercial, na medida em que a carreira vai se consolidando o artista passa a poder pensar um pouco mais de acordo com o próprio gosto musical ao invés de pensar no que explodiria na próxima temporada caso ele gravasse.

Se os últimos projetos do Gusttavo, principalmente os dois anteriores, eram marcados principalmente pelos hits chiclete (“Balada Boa”, “Gatinha Assanhada”, entre outros), este novo disco é extremamente voltado para o romantismo, ou seja, para algo mais sério e menos preocupado com o caráter comercial. Aqui, ao optar por um repertório menos óbvio e mais ousado, pelo menos em comparação com os discos anteriores, o Gusttavo coloca em cheque finalmente a força do próprio nome e não mais das músicas em si. É um teste definitivo.

E “Fui fiel”, de cara, já foi um acerto que surpreendeu. Por ser um arrocha nordestino em seu formato original, com sax, num tom bem alto e numa levada que em outros tempos seria tida como brega, sem necessariamente incluir as adaptações naturais que acabaram transformando o arrocha sertanejo em uma vertente totalmente diferente daquela na qual ela se baseou no começo, houve certa dúvida. Mas o sucesso da música nas rádios acabou ajudando a abafar de vez o formato, agora ultrapassado, que o arrocha ganhou quando se incorporou ao sertanejo. Virou moda, agora, gravar um arrocha mais voltado às suas raízes nordestinas.

A ótima aceitação da música “Fui fiel” e a incrível repercussão do disco como um todo no circuito sertanejo acabaram favorecendo a aposta do Gusttavo Lima na força do seu próprio nome. É claro que o disco tem lá seus momentos de “modinha”, com músicas como “Só tem eu”, “Tô solto na night”, ambas ótimas, e “Hoje tem”, que provavelmente funcionaria melhor num DVD do que num CD, por ter características mais próprias para o show. Mas não é um disco de hits esparsos. É um disco onde o repertório como um todo é forte, sem se encostar apenas em uma ou duas canções para se manter. Segundo ponto a favor, portanto: apostar na força do artista e não apenas na de uma ou duas músicas. E convenhamos que o Gusttavo Lima já tinha totais condições de fazer isso.

Se o segundo ponto que eu listei se relaciona à carreira do Gusttavo em específico, o terceiro por sua vez diz respeito ao momento da música sertaneja em geral. Depois de um ou dois anos onde o lado comercial falou bem mais alto e onde o sertanejo precisou se consolidar de uma vez por todas como música de festa, até pela falta de outras opções na música brasileira, exceto o funk, do segundo semestre de 2013 pra cá é óbvia a predileção do segmento por um lado musical mais sério, principalmente pelo lado romântico. E o “Do outro lado da moeda” é totalmente voltado ao romantismo, mesmo tendo algumas músicas mais agitadas como as que eu listei acima.

E o repertório romântico do disco não só condiz com a atual realidade do mercado sertanejo como também vai ao encontro das preferências do próprio Gusttavo Lima, que já cansou dizer que prefere essa linha. O acerto é ainda maior quando o repertório é bem selecionado. As canções românticas deste disco são todas incríveis, com destaque para as músicas “É ela que eu amo”, “Do outro lado da moeda”, “10 anos” e “A nossa preferida sertaneja”, que só entrou na versão digital do disco, vendida pelo Itunes, junto com outras três faixas, o que chega a ser um pecado, hehe. O disco físico tem 15 faixas e o digital, 19.

Sobre a música “Do outro lado da moeda”, inclusive, é importante uma análise mais aprofundada. O fato desta música ser também o título deste projeto não é por acaso, mesmo que indiretamente. Primeiro porque ela traz a participação da dupla Zezé di Camargo & Luciano, claramente a maior influência musical da carreira do Gusttavo Lime, desde sempre. E segundo porque a participação da dupla nesta música só consolida a influência do Zezé di Camargo na concepção deste projeto, algo que vem sendo reafirmado pelo próprio Gusttavo desde o começo das gravações. O Zezé fez a direção vocal do Gusttavo Lima neste disco, para quem ainda não sabe.

Este, aliás, é um dos poucos argumentos utilizados por algumas pessoas como contrário ao disco. “Tá muito Zezé di Camargo”, dizem. É que além da opção por tons mais altos na grande maioria das músicas, é bem perceptível a inclusão de trejeitos e elementos muito comuns ao estilo do Zezé di Camargo, como os finais de frases, as tercinhas, etc. Mas eu, particularmente, não vejo isso como um ponto negativo. Pelo contrário.

Vejam bem, a admiração pelo Zezé di Camargo sempre esteve estampada na testa e na voz do Gusttavo Lima. Mesmo que ele quisesse, duvido que conseguiria fugir das comparações entre o seu estilo de interpretação e o do ídolo. E mesmo antes deste disco novo, o Gusttavo já cantava de forma parecida com o Zezé. Ter, portanto, o próprio ídolo fazendo a sua direção vocal e carimbando essa influência é muito mais um privilégio e uma afirmação de apoio do que qualquer outra coisa. O Zezé pôs o Gusttavo Lima debaixo das suas asas e parece ter escolhido seu sucessor. Conseguem vislumbrar a importância disso?

Já dá pra dizer que o disco é mais um acerto da carreira do Gusttavo. A aprovação é evidente. “Ah, mas não é comercial”. Ora, mesmo não sendo tão comercial quanto os projetos anteriores, o disco tem tido uma repercussão muito positiva, o que comprova a força do nome Gusttavo Lima. Ficou provado que ele é capaz de se manter em alta mesmo sem um “thce tche re re tche tche” a tiracolo. A sensação deve ser muito boa. Mais ainda quando se consegue fazer isso cantando o que gosta.

Nota: 10