REVIEW: Henrique & Diego – Tempo Certo – Ao Vivo em Campo Grande

REVIEW: Henrique & Diego – Tempo Certo – Ao Vivo em Campo Grande

Essa é uma das ocasiões em que o título mais teve a ver com o resultado obtido com um projeto. Henrique & Diego saíram de um tempo de relativo ostracismo, desencadeado por uma troca tumultuada de escritório anos atrás, para emplacar o grande hit de 2015, em um DVD de grandes proporções que também marca a volta por cima do escritório da dupla. Artistas e escritório, aparentemente desacreditados pelo mercado, mostraram que definitivamente nunca se deve chutar cachorro morto.

Parecem palavras pesadas estas que utilizei para tentar explicar um pouco da situação em que Henrique & Diego e a Dut’s se encontravam. Mas a verdade é que não há termos mais precisos. Depois da tumultuada saída da FS, Henrique & Diego só deram sinais de retomar de fato o ritmo depois que gravaram o DVD de 2013, que emplacou boas músicas como “Festa Boa”. Mesmo assim, por conta de uma parceria de longa data com a Audiomix, a Dut’s ainda não havia se voltado 100% à dupla. Ainda detinha uma participação na carreira do Gusttavo Lima e, talvez por isso, ainda não havia dado prioridade em definitivo a Henrique & Diego, o que veio a acontecer apenas quando a parceria entre os dois escritórios terminou.

Sem Gusttavo Lima e sem Maria Cecília & Rodolfo, que saíram anos antes, a carreira de Henrique & Diego pôde enfim ser gerida com foco total. O tamanho deste DVD da dupla, aliás, é talvez a maior evidência de que, agora sim, era tudo ou nada para a Dut’s. Gravado no Parque das Nações Indígenas, tradicional cenário de alguns dos mais importantes DVDs dos últimos anos, e que tem a tradição de sempre estourar o artista que grava ali, o DVD reuniu dezenas de milhares de pessoas e uma estrutura que provavelmente foi a maior utilizada até então pela Terra Produções. E em outra grande demonstração de que o foco agora era total, a produção musical do DVD foi entregue ao Dudu Borges, cujo trabalho exige uma altíssima dedicação posterior do escritório, para que o investimento e as ideias aplicadas se justifiquem.

Ao trabalharem com total independência e contando pela primeira vez apenas com si próprios, Henrique & Diego e a Dut’s entregaram um DVD que está entre os lançamentos mais grandiosos do ano. E o resultado não poderia ser mais favorável. A música “Suíte 14” foi a mais tocada do primeiro semestre e é sem dúvida o grande hit sertanejo do ano.

Esta música, aliás, reflete um acerto nas escolhas ousadas feitas para o projeto. Ao invés das tradicionais participações clichês de sempre, o disco ousou ao trazer o funkeiro Mc Guimê e o grupo Turma do Pagode. Entre os sertanejos, Cesar Menotti & Fabiano, Bruninho & Davi e Thiago & Donizetti, em sua formação anterior.

A participação do Guimê, em teoria, não traria um diferencial assim tão grande, já que juntar uma dupla sertaneja com um funkeiro não é mais nem de longe uma ideia original. Acontece que a pegada hip hop do Guimê, que o leva muito mais para o rap do que propriamente para o funk, trouxe sem dúvida esse diferencial e a música ficou acabou ficando de fato inusitada. Juntando a isso, claro, o arranjo bem diferente e incomum para uma vaneira, que faz com que a veia “hip hop” não se restrinja apenas ao trecho cantado pelo Guimê.

Mesmo trazendo algumas músicas bem “sertanejas”, como “Flor do Goiás” e “Esqueci você”, o repertório do disco valoriza, claro, a linha mais agitada e picante da dupla, com bons momentos como “Senha do celular”, “Malícia Pura”, “Emburradinha” e “Replay”. O repertório, aliás, é reflexo da confiança da dupla e da Dut’s no trabalho do experiente Maurício Mello, que assina boa parte das músicas do disco, inclusive “Suíte 14”, e assumiu função de direção no projeto, não se restringindo meramente à escolha do repertório.

A vontade de fazer o projeto dar certo, principalmente para dar um “cala a boca” nos que porventura desacreditaram, publicamente ou pelas costas, acabou sendo um motivador fortíssimo. A Dut’s, principalmente, precisava provar que ainda tinha (e como tinha) força no mercado sertanejo. E Henrique & Diego precisavam superar o tabu das duplas acusadas de “perderem o timing”. Pois se o timing havia sido perdido, não resta mais dúvidas que ele foi reencontrado, provavelmente enrolado debaixo do edredom da Suíte 14. E o tal “tempo certo” do título não poderia ter se mostrado mais pertinente. Tudo acontece mesmo quando tem que acontecer.