REVIEW – Henrique & Juliano – Ao Vivo em Brasília

REVIEW – Henrique & Juliano – Ao Vivo em Brasília

Confesso que a demora em escrever sobre esse disco foi proposital. Na verdade, coincidiu com minha demora em escrever os outros reviews, claro, mas eu resolvi deixar este mais para o final do ano, já que há uma pressão enorme da maior parte do público para que este DVD tenha a nota máxima no review e, além disso, seja apontado como o melhor do ano na nossa lista anual de melhores discos. Aliás, o maior trunfo deste trabalho da dupla Henrique & Juliano é, sem dúvida, ter conseguido acertar assim, de forma tão precisa, o gosto do público e, por isso, ter conquistado defensores tão fervorosos de forma tão rápida.

Não é exagero nenhum chamar de fenômeno um artista ou dupla que consegue realizar tal feito. É que, com a música sertaneja cada vez mais em alta nos últimos anos e com uma quantidade cada vez maior de boas (e ruins, claro) opções, cada vez menos artistas conseguem, como o mercado costuma dizer, “abrir um disco”. No linguajar dos bastidores, “abrir um disco” é emplacar todas as músicas, é fazer com que o disco seja colocado em uma festa ou um churrasco e seja cantado por todos os presentes da primeira à última faixa, é realizar um show com as músicas gravadas naquele projeto e ver o público cantando tudo em uníssono, a plenos pulmões. São cada vez mais escassos os artistas que conseguem isso. Os poucos que conseguem, portanto, podem sim ser chamados de fenômenos. Levando isso em conta, é óbvio que Henrique & Juliano são um fenômeno.

Na verdade, eles já haviam pavimentado o caminho para o atual momento da carreira deles com o DVD anterior. Do disco gravado em Palmas e que trazia “Não tô valendo nada” como principal destaque, a dupla emplacou pelo menos 5 ou 6 músicas (“Não tô valendo nada”, “Mistura Louca” e “Recaídas”, principalmente), umas com maior intensidade e outras com menor. Mesmo assim, já é por si só um feito e tanto pra uma dupla praticamente estreante, já que os trabalhos anteriores (gravados antes da assinatura do contrato com a Workshow) não haviam tido muito destaque.

Por conta daquele DVD, a expectativa em torno deles se intensificou. Antes mesmo deste novo projeto, eles já começaram a ser tratados como dupla carro-chefe do escritório (o que, segundo rumores, foi motivo determinante para a saída da dupla João Neto & Frederico). E munidos de intenso poder de fogo e do interesse cada vez mais acentuado dos profissionais da música sertaneja, aproveitando ainda a grande consciência profissional da própria dupla (quem assistiu àquela entrevista que eles concederam ao Blognejo no ano passado sabe do que eu tô falando), eles acabaram entregando o DVD com a maior quantidade de acertos dos últimos anos.

Entendam, um disco não pode ser considerado um acerto apenas porque é muito bom. Às vezes um bom disco emplaca apenas uma música, ou nenhuma, dependendo do caso, e acaba não gerando qualquer efeito na carreira do artista. Estamos falando aqui de resultados. Este “Ao Vivo em Brasília” acertou em repertório, em local de gravação, em direção de vídeo, em interação com o público e em diversos outros fatores. A consequência foi um salto enorme no valor do cachê da dupla, depois que ela caiu nas graças do público e dos contratantes.

O que o sucesso desse disco deixa bem claro, também, é uma verdade que já deveria ter sido declarada absoluta há anos: o povo gosta do que é simples. Este DVD não traz virtuosismo na parte musical. A produção do Eduardo Pepato incluiu arranjos e harmonias simples. Acontece que é justamente por serem simples que eles conversam tão facilmente com o público. Mas é claro que isso não aconteceria se não fosse a alta qualidade das letras das músicas gravadas neste projeto, que catapultou as carreiras de compositores como Marília Mendonça, a bola da vez na música sertaneja, Juliano Tchula e outros. As duas principais músicas do projeto, as fantásticas “Até Você Voltar” e “Cuida bem dela”, levam a assinatura dos dois, a última em parceria com a Maraísa e com o Daniel Rangel.

O disco ainda traz outras músicas incríveis, como a excelente “Mudando de Assunto”, “Faz tempo”, “Calafrio”, “Quem ama sempre entende” e diversas outras. Mas é em “Gordinho Saliente”, assim como em “Eu sou gordinho”, do DVD anterior, que reside mais um dos fatores determinantes para o sucesso da dupla, a meu ver. Não, não estou dizendo que é por causa da música em si, mas pelo que ela representa. Convenhamos que nem o Henrique e nem o Juliano são gordinhos, mas quando eles gravam músicas brincando com isso, eles têm a ousadia de zoar os próprios defeitos e de se mostrarem como pessoas comuns, fazendo com que o público sinta como se fosse um amigo ali no palco cantando e como se fazer sucesso fosse possível para qualquer pessoa e não apenas para quem segue o estereótipo do artista intocável e perfeito. Por isso o público acaba abraçando a dupla com tanta facilidade, afinal de contas é muito mais fácil torcer por quem aparenta ser “gente como a gente”.

A escolha pelo anel interno do Estádio Nacional (segundo a FIFA), ou Mané Garrincha (segundo a Globo), também se mostrou um acerto incrível. A própria arquitetura do estádio, com pilastras gigantescas e paredes espelhadas, interagiu com a iluminação, provocando um efeito incrível no vídeo. O Fernando “Catatau” Trevisan soube trabalhar o conteúdo visual do projeto junto com a arquitetura do estádio de forma muito bem pensada.

Há ainda outro aspecto sobre o qual é importante falar. A dupla atingiu o público de forma tão intensa que tornou-se praxe a comparação com Jorge & Mateus, algo que eu não poderia deixar de comentar aqui. De fato, é óbvio que o Jorge é uma grande influência para o Henrique, tanto no timbre vocal quanto nos trejeitos. Mas convenhamos que o Jorge é influência para metade dos cantores sertanejos da atualidade, né? Colocar isso como um defeito é, portanto, bobagem, pelo menos do meu ponto de vista. Já escrevi aqui uma vez que cada década do sertanejo tem um cantor para servir de influência para os demais. Zezé nos anos 90, Bruno nos anos 2000 e Jorge nesta década. E não há mal nenhum nisso. Pelo contrário.

Mas é claro que a carreira da dupla Henrique & Juliano se assemelha à da dupla Jorge & Mateus em muitos aspectos. O apelo junto ao público sem a necessária repercussão na grande mídia (quase não vemos Henrique & Juliano na TV), a facilidade em emplacar diversas músicas em um único projeto (Jorge & Mateus são mestres nisso e Henrique & Juliano estão seguindo pelo mesmo caminho, já que conseguiram tal feito em dois discos seguidos), a tal proximidade e semelhança com o público da qual falei há alguns parágrafos, entre outros elementos que realmente são comuns às duas duplas. Alguns dizem até que Henrique & Juliano são o Jorge & Mateus da época do Pinnochio.

Acontece que tudo na vida e principalmente na música é evolução. Assim como aconteceu com Jorge & Mateus, é provável que em algum momento a dupla Henrique & Juliano sinta a necessidade de mudar, afinal o público não passa o resto da vida gostando da mesma coisa. É preciso evoluir para acompanhar o público. Jorge & Mateus evoluíram e a carreira deles foi junto, não ficou estagnada. O resultado todo mundo já conhece. E, sem dúvida alguma, Henrique & Juliano seguem um caminho que tem levado a resultados tão satisfatórios quanto os atingidos por Jorge & Mateus ao longo da carreira. A comparação é até saudável, mas ainda é cedo demais para defender essa semelhança com tanto empenho. Aliás, esse tipo de comparação só corrobora o sucesso que eles vêm fazendo, afinal ela é comum justamente quando o artista ou dupla está muito em alta.

De 2013 pra cá, o foco comercial do blog acabou fazendo com que os reviews fossem perdendo um pouco do espaço e eu acabasse escrevendo sobre os discos meses depois do lançamento, perdendo aquela coisa da previsão antecipada sobre o que poderia ou não dar certo em determinado projeto. No caso deste DVD da dupla Henrique & Juliano, então, a coisa é ainda mais complicada, afinal como apontar defeitos em um disco que deu tão certo? Os resultados falam por si.

Se eu tivesse escrito este review antes do disco explodir, eu provavelmente diria que o repertório tem mais músicas do que o necessário. Eu talvez diria também que a forma com que o Henrique segura o microfone prejudicou um pouco a mixagem da sua voz, que em algumas faixas parece mais fechada e em outras mais aberta. Mas depois da dupla ser catapultada ao Top 3 de maiores artistas sertanejos da atualidade, alguns desses “defeitos” realmente faz alguma diferença? Seria fácil dar uma nota 9 por conta desses “probleminhas”, mas ninguém, eu repito, NINGUÉM deu tão certo em 2014 quanto Henrique & Juliano. O ano foi deles e 2015 pelo jeito tem tudo pra ser também. E já que eu resolvi escrever sobre os discos tanto tempo após o lançamento, creio que eu deva levar em conta não apenas os aspectos técnicos, mas também as reações que ele causa. E quanto a isso, bem, creio que basta ir a um show da dupla pra entender.

Nota: 10