REVIEW: Henrique & Juliano – Novas Histórias

Fechar uma trilogia de DVDs com 3 acertos não é tarefa fácil. Mais ainda, subir um pouco o nível da produção e começar a apostar um pouco mais, ousar, mas sem perder, claro, a linha que vinha dando certo, é ainda mais difícil. A missão de Henrique & Juliano com o DVD “Novas Histórias” era das mais complexas, portanto. A dupla precisava mostrar um pouco mais de ousadia, mas ao mesmo tempo precisava seguir mantendo o alto nível de aceitação popular.

“Novas Histórias” é um DVD que busca cumprir todas essas metas. Primeiro, ele leva a dupla a um patamar ainda mais elevado em termos de estrutura. Depois de um primeiro DVD “em casa”, mais simplório, e um segundo DVD já bem maior e com ainda mais resultado, este eleva ainda mais o padrão ao colocar a dupla em um mega cenário à beira mar no Recife. Aparentemente, o intuito era mostrar a dupla em um formato ainda maior do que antes, numa estratégia que, agora, vem sendo aplicada em cada um dos demais artistas da Workshow: sempre DVD, começando pequeno e crescendo mais a cada trabalho. Curiosamente, nos casos de Zé Neto & Cristiano, Marília Mendonça e Maiara & Maraísa, os envolvidos já partiram para um estilo mais “megalomaníaco” logo no segundo DVD. No caso de Henrique & Juliano, demoraram 3 projetos. E se o “Ao Vivo em Brasília” já trazia um pouco dessa ideia, o “Novas Histórias” provou que dava pra ser ainda maior.

Mas, obviamente atendendo à preocupação de se manter uma mesma estrutura básica em termos de repertório, este DVD segue a fórmula do anterior. Conforme eu já havia mencionado no texto com a cobertura postado alguns dias após a gravação, a maioria dos sucessos do DVD “Ao Vivo em Brasília” tem uma correspondente no “Novas Histórias”. “Até você voltar” se reflete em “Como é que a gente fica”, “Cuida bem dela” em “Deixa ela saber”, “Não tô valendo nada” em “Nada Nada” e, em menor grau, “Mudando de Assunto” em “A Flor e o beija-flor”, apesar destas duas terem linhas melódicas diferentes. A diferença é a forma com que as músicas são executadas neste novo projeto.

E é nesta execução que residem as principais apostas e novidades do DVD em termos de sonoridade. Ao invés dos arranjos tradicionais, o produtor Eduardo Pepato procurou ousar um pouco mais no uso dos timbres, principalmente nos de teclado. Os timbres oitentistas acabaram se mostrando uma aposta válida, já que alguns dos arranjos mais marcantes do DVD, para o bem ou para o mal, são justamente os que trazem esse tipo de som, como “Nada Nada” e “Acredito de Mentira”. A expressão “para o bem ou para o mal” serve justamente pra destacar o caráter 8 ou 80 desses arranjos. Ou se ama ou se odeia logo de cara. Na ótima “Contar pra que”, o timbre do arranjo também remete a uma atmosfera oitentista, mas com uma carga pop mais pesada, o que dá ao arranjo um aspecto menos arriscado e “diferentão” do que o das músicas citadas.

Em outros bons momentos de ousadia nos arranjos do disco, temos o Juliano se arriscando na viola caipira na melhor música do DVD, “A Flor e o Beija-flor”, cantada com a diva Marília Mendonça, o violão dobro em “Quem vai lembrar” e a bela junção do piano com o violino em “Obrigado, Deus” e “Deixa ela saber”. O Juliano também assume a primeira voz em duas músicas. De certa forma, outro momento ousado do DVD, já que não costuma assumir esse papel. Logo na abertura do DVD, com a ótima “Na Hora da Raiva”, por exemplo, é ele quem entra cantando. E em “Ele quer ser eu” ele repete o feito.

A aposta em “A Flor e o Beija-flor” merece de fato efusivos aplausos. Uma guarânia com uma letra belíssima e ainda tocada na viola não é algo que costuma ser gravado com frequência e o fato dela ter se tornado a principal música do disco só corrobora a tese da imortalidade desse ritmo na música sertaneja. Enquanto houver música sertaneja, haverá a guarânia e quem adore ouví-la.

O delay entre o trabalho do DVD na web e o seu lançamento oficial nas lojas físicas também chama a atenção. Com músicas sendo liberadas desde outubro de 2015, o disco só ganhou as lojas no fim de março deste ano. Por isso, parece até que esse review está sendo postado no ano errado, mas na verdade não está. Isso só corrobora, aliás, a ousada estratégia da Workshow de trabalhar seus lançamentos de forma maciça na web antes do lançamento oficial. Não à toa, Henrique & Juliano conquistaram o posto de canal mais visto do Youtube no Brasil. Já são mais de 2 bilhões de visualizações. Tá bom ou quer mais?

É provável que esse DVD não tenha a mesma carga de sucesso que o anterior, o que provavelmente tenha sido a causa de comentários de algumas pessoas nos bastidores sobre um possível “erro” da dupla, que seria o primeiro se isso fosse verdade, o que não acredito que seja. Afinal, a dupla permaneceu exatamente no mesmo patamar de cachê, de relevância no mercado e de apelo junto ao público. E não há como negar que esse DVD conseguiu emplacar bons e sólidos hits. Não com a mesma força do “Ao Vivo em Brasília”, mas com força o suficiente para a dupla trabalhar no mesmo altíssimo nível durante todo o ano de 2016. Méritos da série de acertos na carreira, que alavancaram a dupla a um patamar do qual praticamente não dá mais pra cair.

Ainda assim, é provável que a dupla busque agora um ar de novidade mais marcante parta o próximo projeto, a ser gravado já no próximo mês, já que o “Novas Histórias” é, apesar do título e dos arranjos ligeiramente mais ousados, uma continuação praticamente direta do “Ao Vivo em Brasília” em termos de linguagem. Já que a dupla conquistou esse privilégio de não ter mais que se preocupar com perder espaço, o que só vem para pouquíssimos artistas ao longo da história, talvez seja a hora de aplicar mesmo um pouco mais de ousadia.