REVIEW – Humberto & Ronaldo – Canto, Bebo e Choro

Recentemente eu estive em Goiânia para acompanhar o show de lançamento do novo disco da dupla Humberto & Ronaldo. Acabei não escrevendo a respeito do evento, já que inevitavelmente eu acabaria falando sobre o disco, então resolvi deixar pra falar apenas no review. Cá estamos.

Ao resenhar este novo disco de Humberto & Ronaldo, é importante analisar o atual contexto em que a dupla se encontra. Todo mundo sabe que o escritório do qual a dupla faz parte, a Audiomix, tem passado por mudanças consideráveis. No ano passado, já havia ocorrido a saída da dupla Maria Cecília & Rodolfo. E este ano, o Gusttavo Lima, um dos meninos dos olhos da Audiomix, também resolveu mudar de ares. Paralelamente, há uma certa pressão do mercado com relação à forma com que o escritório vai continuar conduzindo as carreiras de artistas como Matheus & Kauan e Israel Novaes, que buscam a consolidação, já que aquela postura mais agressiva de outrora já não é tão mais bem vista. E pra deixar a coisa ainda mais complicada, ainda está sendo resolvida a entrada de alguns novos artistas e de um nome já fortíssimo no mercado, o do Cristiano Araújo.

Mesmo em meio a todas essas situações complicadas, há um consenso de que dois dos produtos do escritório, pelo menos, passam por uma fase tranquila e se encontram em situação completamente confortável: Jorge & Mateus, claro, e Humberto & Ronaldo, por já terem passado por toda aquela fase de investimento pesado e estarem agora apenas colhendo os frutos de tudo o que foi plantado nos últimos anos. Ao invés de trabalharem de forma superlativa, com megaestrutura, como boa parte dos colegas de escritório, Humberto & Ronaldo passaram a trabalhar dentro da realidade à qual eles próprios concluíram que pertencem, o que agrada ao contratante e funciona bem para o escritório.

Esse comportamento deu à dupla uma dose bem maior de autonomia. Tá certo que eles sempre tiveram o voto de confiança do escritório de forma mais evidente do que os colegas e sempre pareceram fazer as coisas como eles próprios achavam melhor, mas aparentemente isso tem sido mostrado de forma mais intensa. E dentro dessa autonomia, a dupla partiu neste novo disco para uma linha um pouco diferente do que era visto em discos anteriores.

Até o último DVD, parecia haver uma certa pressão em busca da nova “Só vou beber mais hoje”. No disco “Canto, Bebo e Choro”, entretanto, isso não é observado nem de longe. Na verdade, a dupla seguiu para uma linha que já parecia deixá-la mais à vontade: o sertanejo mais de essência, com músicas mais sofridas, numa pegada mais tradicional e romântica. Até as vaneiras são mais românticas que as de outras épocas.

Na verdade, essa nova cara da dupla tem tudo a ver com o atual momento da música sertaneja, onde a tal “sofrência” parece ser a bola da vez (em janeiro eu escrevo um texto mais completo sobre isso). E dentro dessa vibe, a dupla traz músicas de alto nível, como “Canto, Bebo e Choro”, “Saudade Miserenta”, “Tipo de Homem”, “Modão” e outras, todas evidenciando esse lado mais sofrido do sertanejo. Sem falar das românticas, principalmente “Jurei”, que traz o Ronaldo cantando em primeira voz no refrão, e da guarânia derramadíssima “Jogado em um bar”, bem no estilão tradicional.

Em “Alô, DJ”, uma sacada bem bacana, com uma harmonia estilo country que há muito não se via no gênero sertanejo, principalmente entre as duplas da nova geração. Apenas em duas músicas do disco é que se nota uma pegada mais “modinha”, não no sentido pejorativo: “Fui tomar cerveja”, com Bruninho & Davi, e “Fora do normal”. Mesmo assim, não foi algo tão escancarado como se viu em “Lagoa Azul”, por exemplo, presente no último disco.

O disco ainda traz também a participação do Wesley Safadão na música “Ah, tá sofrendo”, a única do disco que talvez remeta um pouco à influência nordestina que era tão mais evidente na dupla em outros discos e que desta vez também foi deixada de lado.

Como eu disse, é um disco aparentemente mais pessoal, e o mais sertanejo já lançado pela dupla. Com espaço consolidado dentro do escritório e já conscientes de que sucesso hoje em dia não significa necessariamente ter a música mais tocada ou o maior cachê possível, Humberto & Ronaldo parecem ter entrado numa fase em que vão enfim mostrar cada vez mais maturidade musical e profissional. Tá certo que faltaram nesse disco aquelas boas canções de levada mais pop, como “Romance”, “Deixa o tempo ver”, “Chega mais pra cá” e outras nessa mesma vibe. Mas o CD “Canto, bebo e choro” parece mesmo ter a intenção de experimentar uma vertente até então pouco explorada por eles. É provável que nos próximos discos vejamos ainda mais equilíbrio entre aquelas canções e as de hoje.

Nota: 9,0

Abaixo, algumas fotos do show de lançamento do CD da dupla na Villa Mix, no último dia 25/11.