Review – João Bosco & Vinícius – A Festa

Review – João Bosco & Vinícius – A Festa

De cara já dá pra dizer que se trata do DVD mais inusitado do ano. Gravado na sala da casa do Euler Coelho, empresário da dupla, em Sorocaba, e tentando transmitir justamente a sensação de uma festa em casa, o DVD “A Festa” traz uma dinâmica completamente diferente do que se costuma ver. Depois de lançarem o primeiro disco de estúdio da carreira e de sofrerem com a enorme quantidade de críticas recebidas justamente pela ousadia de trabalharem à margem do mercado naquela ocasião, João Bosco & Vinícius calaram a boca de uma pá de gente com o Grammy Latino conquistado justamente com o tal disco. Apesar de muita gente dizer que isso não julga lá muita coisa, não dá pra negar que a alma, pelo menos, foi lavada. Daí pra frente, o que for feito, por mais inusitado e esquisito que pareça, não pode ser considerado uma ideia tão má assim.

Ouvi comentários negativos sobre este DVD antes mesmo dele ser lançado. Algumas pessoas achavam até que gravar um DVD em casa demonstrava um certo medo de não conseguirem encher um recinto de shows (!!!). Convenhamos que esse pensamento é pra lá de forçado. Como se um artista consagrado fosse obrigado a sempre gravar DVDs com ares de mega espetáculos só pra provar que ainda conseguem arrastar gente.

O que eu vejo com esse disco, na verdade, é uma demonstração de personalidade por parte da dupla. Além da idéia inovadora no cenário, o DVD traz diversas músicas compostas pelos dois. Até então, eles nunca foram disso. Nunca ousaram se arriscar no campo da composição. Mudaram por influência de pessoas próximas. Na ocasião da gravação do DVD da dupla Kleo Dibah & Rafael, o João Bosco chegou a dizer que o Rafael era uma das pessoas que os estimularam a investir mais no lado “compositor”. Então, por conta da presença mais atuante no próprio disco através das composições e do fato de aparentemente não se importarem tanto assim com a possibilidade das críticas negativas por conta de ideias potencialmente “estapafúrdias”, é de se concluir que João Bosco & Vinícius estão muito mais maduros do que já costumavam ser, o que é extremamente louvável.

No que diz respeito à sonoridade, já voltando um pouco ao assunto do review anterior, referente à quantidade de trabalhos produzidos pelo Dudu Borges simultaneamente num curto período de tempo, percebe-se uma preocupação em deixar o disco com um aspecto mais cru, sem percussão e nem guitarra. Pra compensar a falta da percussão, principalmente nas músicas mais agitadas, que são maioria neste disco, quem tocou a bateria foi o Wlajones, que é um dos melhores bateristas/percussionistas do Brasil. Apenas na música mais swingada do disco, “Colo colo”, é que aparentemente há algum elemento de percussão, mas bem discreto, se é que meu ouvido anda escutando direito.

Ainda com relação a esse aumento da demonstração da personalidade da dupla, o disco traz duas músicas nas quais o João Bosco entra cantando na primeira voz, sendo uma romântica e uma dançante. Outra sacada sensacional foi a regravação de “Sem palavras” com um arranjo beeeeeem tradicional, remetendo aos arranjos dos anos 70, além da participação do genial Vicente Castilho tocando arpa no pout pourri de “Uma vez por mês” com “Avião das Nove”. Todos estes, elementos que demonstram uma dupla despreocupada com o que o mercado acha ou deixa de achar. Qual dupla da “nova geração” ousou até o momento meter uma arpa num disco? Ou gravar uma música mais clássica com um arranjo bem tradicional?

O sempre presente problema das liberações de músicas acabou tirando do disco uma das que tinham ficado mais bacanas: um mash up de “Chora me liga” com outra canção inédita e “I’m Yours”, que ainda trazia a participação do Léo Verão. Parece que o Jason M’raz, dono da “I’m Yours”, não quis liberar a regravação dela neste disco e o Léo Verão acabou pagando o pato e ficando de fora, rs.

Em questão de cenário, a preocupação foi de fato manter a casa com seu aspecto original. Tanto que quem assina a cenografia do disco é a própria esposa do Euler Coelho, hehehe, a Vanessa Guzzo. O trabalho duro ficou mais por conta do diretor do DVD, Junior Jacques, que conseguiu, junto com sua equipe, imagens excelentes apenas com os recursos que estavam disponíveis, sem todas aquelas firulas de iluminação e pirotecnia. Talvez a maior dificuldade tenha sido se embrenhar no meio do povo, amontoado em volta do “palco”. A ideia era que o pessoal ficasse mais espalhado, mas a chuva no dia não permitiu que isso acontecesse e o povo acabou ficando todo dentro da casa, o que acabou favorecendo a dinâmica, deixando o disco muito mais “quente” do que teria ficado se o povo ficasse espalhado.

Mérito da equipe responsável pela parte visual, também, foi o making off, que, ao invés de trazer todo aquele papo chatéééérrimo e repetitivo sobre a parte técnica do disco, se limitou a trazer imagens inusitadas dos dias anteriores à gravação, com as sempre hilárias sacadas do João Bosco.

Entre as participações do disco estão Xandy, representando o Aviões do Forró na música “Colo colo”, e Kleo Dibah & Rafael, na música “Essa Noite”. O Rafael também assina muitas músicas do disco. Por conta da exclusão de uma música, o DVD acabou ficando com apenas 14 faixas, o que para os padrões de hoje em dia representa muito pouco, já que a maioria dos DVDs saem com mais de 20 músicas. Mais uma “banana” para o que o mercado acha, o que eu acho incrível.

É até o momento um dos discos mais criativos do ano. Uma sacada sensacional no cenário e no tema do DVD, com um repertório e arranjos tão bons quanto. Tanto no que diz respeito ao repertório quanto à harmonia das músicas, este disco está bem menos “pop” e bem mais sertanejo do que o anterior. Essa era a reclamação principal de quem não tinha curtido aquele disco, o que não foi meu caso. O mais irônico é que João Bosco & Vinícius conseguiram agradar um pouco mais o mercado, pelo menos em comparação ao disco anterior, mesmo demonstrando em vários pontos deste novo DVD (que eu apontei durante o texto) que não se importam tanto assim com o que o mercado diz. Personalidade: artigo raro nos dias de hoje. E quando ela é usada com consciência, o resultado acaba sendo sempre positivo.

Nota: 9,5