REVIEW: João Bosco & Vinícius e seus ídolos – Estrada de Chão

REVIEW: João Bosco & Vinícius e seus ídolos – Estrada de Chão

3 anos. Esse foi o tempo que esse disco demorou para ser entregue. Carecia de tudo isso? Se levarmos em conta apenas o ponto de vista administrativo, talvez não. Mas considerando que a dupla nunca colocou esse disco como uma aposta comercial, o tempo que ele levou pra ser feito até que faz todo o sentido. Em uma bela frase proferida durante uma entrevista, a dupla disse que “não se coloca prazo na realização de um sonho”.

E pelo jeito é assim mesmo que a dupla João Bosco & Vinícius encara este projeto: como a realização de um sonho. Afinal, estamos falando de uma dupla desacreditada, assim como todas da sua geração, pelos mesmos veteranos que agora aceitam gravar duetos com eles em um disco. Mais do que simplesmente um disco de releituras, o “Estrada de Chão” é um ponto final em uma relação controversa: a dos veteranos com os novatos que os idolatram. E levando em conta que João Bosco & Vinícius são considerados precursores da nova música sertaneja, outrora chamada “universitária”, ninguém melhor para protagonizar esse momento.

“Ora, Marcão, mas Chitãozinho & Xororó já haviam dividido os vocais em um disco com duplas da fase universitária”. Sim, mas eram veteranos convidando novatos e não o contrário. Eles podem até ter aberto o caminho para o fim das desconfianças das gerações anteriores com a geração atual, mas creio que este disco representa mais neste aspecto, se pararmos pra analisar bem.

Falando em releituras, sabemos que elas costumam ir e vir com uma certa frequência na música sertaneja. O próprio sertanejo universitário começou como uma fase de releituras de grandes sucessos com potencial de renovação, a fim de atingir um público jovem. De tempos em tempos os artistas sertanejos tendem a querer gravar discos com o intuito de resgatar canções, seja para homenageá-las ou para repaginá-las. E os últimos dois anos parecem fazer parte desse ciclo. Do ano passado pra cá, além de João Bosco & Vinícius, diversos outros artistas também lançaram discos de regravações, entre eles Gusttavo Lima, César Menotti & Fabiano, Michel Teló, João Neto & Frederico, Leonardo e Eduardo Costa, Bruno & Marrone, e outros. E entre todos estes discos de releituras, pelo menos entre os de 2015, este talvez se sobressaia um pouco mais na ousadia e na reverência.

O primeiro grande acerto do “Estrada de Chão” é o repertório. Ao invés dos chavões e da mesmice comum à grande maioria dos discos de regravações, João Bosco & Vinícius trouxeram neste CD canções do lado B, isto é, pouco conhecidas no repertório dos artistas que participaram do projeto. A única dupla que não cantou uma música do próprio repertório foi Bruno & Marrone, que interpretou “Vida pelo avesso”, sucesso de Durval & Davi. De resto, temos João Bosco & Vinícius cantando com seus convidados algumas das melhores canções já gravadas por estes e que pouca gente, exceto os fãs mais ardorosos do gênero sertanejo, como eu, se lembrava.

A única escolha óbvia foi “Liguei pra dizer que te amo”, a mais conhecida de Alan & Aladin, que também participaram do disco. Ademais, temos o resgate de canções incríveis como “Será que eu sou”, composição de Moacyr Franco gravada por Chitãozinho & Xororó, “Ponto de Chegada”, com Matogrosso & Mathias, “Trem Bão”, com Rionegro & Solimões, e “Me leva pra casa”, com Zezé di Camargo & Luciano.

Outro ponto positivo deste projeto é o bom gosto nos arranjos. Alguns homenageiam as versões originais, mas a grande maioria das músicas traz arranjos inéditos. Mas nada que fira as suas versões originais. E o disco traz todas as canções num formato acústico que também foge do convencional. Por ser um disco voltado exclusivamente à audição, a harmonia é agradável, sem exageros geralmente usados para fazer um disco tocar nas baladas. Quase não há bateria, por exemplo. A percussão faz as vezes da parte rítmica na maioria das músicas.

E no terceiro dos grandes pontos positivos do disco, estão as participações especiais. Ao convidar nomes como Cézar & Paulinho, Chico Rey & Paraná, Felipe & Falcão e Alan & Alladin, por exemplo, João Bosco & Vinícius corrigem uma injustiça há anos cometida por artistas mais jovens, que é a de não reconhecer a importância de determinados nomes para o segmento sertanejo, que nem sempre costumam figurar nesse tipo de projeto. É claro que temos ali nomes de peso como Zezé & Luciano, Leonardo, Bruno & Marrone, Roberta Miranda, Chitãozinho & Xororó, etc, mas é mais do que óbvio que a grande e rica história da música sertaneja não se restringe apenas aos nomes considerados mais “importantes”.

A falta de alguns nomes neste disco, aliás, não soa como negativa. Afinal, estamos falando de um disco de 16 faixas (sendo 15 regulares e uma bônus, “Amiga Linda”, que não é propriamente parte do projeto “Estrada de Chão”) com nada menos que 13 participações especiais. Então simplesmente não cabia mais ninguém. A dupla inclusive já se justificou em entrevista para o Blognejo sobre a falta deste ou daquele nome. Mas, ainda que não tenha rolado esta ou aquela participação, ainda dá pra sentir no disco um pouco de alguns artistas que ficaram de fora. Chrystian & Ralf, por exemplo, cuja recusa em participar de projetos alheios é notória, tiveram duas canções de seu repertório gravadas neste disco (“Tempo ao Tempo” e “Esperando você chegar”, ambas da Roberta Miranda, que participou do disco cantando a segunda). Durval & Davi também não participaram, mas sua canção de maior sucesso faz parte do repertório. E, se cabe mais uma justificativa, José Rico morreu antes que sua participação pudesse ser gravada.

Na verdade, isso abre um precedente incrível para um projeto futuro, talvez numa segunda edição do disco, o que geralmente acontece com todo grande projeto de regravações. Ainda tem espaço suficiente para convidar nomes como Gilberto & Gilmar, Daniel, Almir Sater, Dalvan, Rick Sollo, Di Paullo & Paulino, Trio do Brasil, Giovani, etc. Bem, isso se nos atermos aos últimos 30 anos. Porque se ampliarmos o tempo, ainda dá pra incluir um punhado de gente muito boa.

O fato deste disco ter sido feito por 4 produtores faz mais alusão, creio eu, ao tempo que ele demorou para ser lançado do que a uma possível intenção da dupla de querer um certo equilíbrio nos arranjos. Mesmo assim, isso acabou acontecendo. Trazer o César Augusto como produtor em três canções do disco, inclusive, acaba também sendo uma grande homenagem a ele pela sua importância histórica. Fora ele, Dudu Borges assina sete músicas, Ed Junior 5 músicas e o Euler Coelho, empresário da dupla e compositor de alguns de seus maiores sucessos, incluindo “Chora me Liga”, uma das músicas. Mas o resultado final é bem homogêneo em sonoridade, o que raramente acontece quando temos vários produtores em um único disco, apesar de ser fácil notar um pouco mais de ousadia em algumas músicas e um pouco menos em outras.

Não que o que eu vou dizer agora tenha a ver com o resultado final do disco, que é obviamente positivo, mas é engraçado como ele representa bem o modo como as gerações mais recentes vêem a história da música sertaneja. Há 20 anos, quando se falava em disco de regravações, geralmente o repertório era de canções caipiras, como no lendário “Clássicos Sertanejos”, lançado por Chitãozinho & Xororó na segunda metade dos anos 90, ou no projeto “Meu Reino Encantado”, do Daniel. Hoje não. No repertório deste disco, por exemplo, apenas duas canções podem ser apontadas como “caipiras”. As demais são todas de uma safra relativamente nova, mas vista como clássica pelas novas gerações. Não à tôa, o nome do disco remete a uma das canções caipiras do disco, que também serviu de tema para todo o material gráfico que o acompanha. Enfim, isso evidencia o quanto o cancioneiro caipira de fato tem perdido cada vez mais espaço na música sertaneja contemporânea. Basta ver o repertório da quase totalidade dos discos de regravações lançados nos últimos anos. Mas isto é apenas uma observação que considerei oportuna e que pode vir a ser melhor desenvolvida em um outro texto aqui do blog, futuramente. Afinal, não é função deste projeto levantar essa bandeira, que, a meu ver, tem um escopo muito mais abrangente.

O disco remete principalmente ao começo da carreira da dupla João Bosco & Vinícius, quando eles cantavam estas músicas nos bares do Mato Grosso do Sul. É, portanto, também uma homenagem à própria história. E juntando a isso a reverência a alguns grandes clássicos que mereciam ser resgatados e a artistas que mereciam ser reconhecidos, temos um disco que faz jus (e como faz!!!) ao grande legado que ele homenageia.