REVIEW – João Bosco & Vinícius – Indescritível

Parece que faz muito tempo desde o último disco de João Bosco & Vinícius. E faz mesmo. Este é o primeiro da dupla desde o DVD “A Festa”, gravado na casa do Euler Coelho, empresário da dupla e compositor de alguns dos maiores sucessos, incluindo “Chora me Liga”. E mais marcante ainda é o fato deste ser, em anos, o primeiro disco que a dupla lança fora da parceria com o produtor Dudu Borges, responsável por todos os projetos lançados por eles desde o disco “Curtição”, considerado por muitos o disco que definiu a sonoridade da nova música sertaneja.

Na verdade, a suspensão dessa parceria demonstra o atual momento da dupla João Bosco & Vinícius, que já se desenhava no DVD “A Festa”, conforme eu mesmo escrevi por aqui em um review. Eles já não tem mais o que provar a ninguém. Atingiram o que poderiam ter atingido e isso é um consenso. “Chora me Liga” foi a música mais tocada no Brasil por dois anos seguidos. Virou sucesso internacional, inclusive. João Bosco & Vinícius foram pioneiros no sertanejo universitário e, com o disco “Curtição”, também foram pioneiros no novo sertanejo. De certa forma, eles têm uma alta dose de responsabilidade sobre tudo o que é feito na música sertaneja hoje em dia. E se não há mais o que provar, em teoria não faz mais tanto sentido manter uma parceria que, convenhamos, é bem cara.

Sendo assim, as portas acabaram se abrindo para o produtor Ed Junior, do Atmosphera Studio, que co-produziu o disco junto com a dupla E, de forma inteligente, ele não transformou a sonoridade dos dois. Pelo contrário. Respeitou a identidade de João Bosco & Vinícius, com arranjos e harmonias que trazem muito do que a dupla ajudou a consagrar com o passar dos anos, priorizando violões e acordeons. A dose de modernidade ficou muito mais por conta do repertório, que saiu um pouco do pop para dar mais espaço a novas influências, mais sertanejas, em músicas como “Um lugarzinho na sua cama”, “Eu vou morrer de amor”, entre outras, só pra citar alguns exemplos. Uma diferença mais sutil, entretanto, pode ser percebida na masterização, feita pelo André Motta, mais preocupada com preservar a hamornia de uma forma mais limpa, sem o tradicional “peso” que costuma vir nos trabalhos assinados pelo Cláudio Abuchaim, que fez os discos anteriores.

A parte chata, porém, é a tal da ambiência, do vozerio do público, colocado para que o disco pudesse ser divulgado como “ao vivo” mesmo sem ser. Essa tática acabou perdendo um pouco da força com o passar dos anos. Antes, há alguns poucos anos atrás, era inconcebível que um disco fosse feito sem o vozerio do público. Mas atualmente eu sinto que há uma tendência em retomar os discos essencialmente de estúdio. João Bosco & Vinícius, inclusive, já tinham feito isso no disco que levava o nome da dupla e que, não à tôa, acabou ganhando um Grammy Latino. Foi uma ousadia na época, criticada por muitos, mas que acabou se transformando em um grande “chupa” depois que se consagrou com esse prêmio. O fato é que essa coisa do vozerio acabou ficando clichê.

Talvez pensando nisso, uma tiragem mais recente deste disco trouxe 4 faixas a mais: 3 músicas deste mesmo disco em versões sem público (a versão que a dupla vem trabalhando de “Indescritível”, inclusive, é esta) e uma inédita, também sem público, chamada “Maquiagem Borrada”, muito boa por sinal. Sem dúvida está entre as melhores do disco, que traz outras canções muito boas, como “84 tempos”, “Sorte é ter você”, “Vai me ver sorrindo”, “Um lugarzinho na sua cama” e “Girassol”. A dupla também resgatou uma canção do começo da carreira, “Insegurança”, que ganhou nova roupagem. “Mudar pra quê”, dos Nonatos”, que virou carne de vaca depois de ter sido regravada por uma infinidade de artistas desde o ano passado, acabou no entanto ficando sem função dentro do disco.

Um bom repertório, com bons arranjos, em um disco que mantém a dupla João Bosco & Vinícius na sua já confortável posição no mercado, sem nada a provar a ninguém, e sabendo que não precisa mais ficar tentando superar algo que todo mundo sabe que é muito difícil de ser superado. O que acabou, enfim, ajudando a evidenciar o trabalho de mais um bom produtor, Edy Junior, que na “rabeira” desse disco acabou assumindo também a produção do novo de Kleo Dibah & Rafael e deve, a partir de agora, ter ainda mais destaque em âmbito nacional.

Nota: 8,5