REVIEW: Jorge & Mateus – Como Sempre Feito Nunca

REVIEW: Jorge & Mateus – Como Sempre Feito Nunca

Dando início à nossa série de reviews de fim de ano. Mais uma vez, não consegui postá-los no decorrer do ano, ainda mais neste em que diversifiquei minhas áreas de atividade e expandi a marca Blognejo para outras vertentes além deste humilde blog. E, pensando bem, fica até mais coerente escrever sobre os álbuns mais relevantes apenas no fim do ano, já que assim é possível ver e ouvir praticamente todos e falar a respeito já imaginando a lista de melhores discos, que sempre trazemos na última postagem. Até o momento, dois discos já foram resenhados aqui: “Diamante Bruto”, da dupla Jads & Jadson, e “Os Menotti no Som”, de César Menotti & Fabiano. Dando continuidade, falaremos hoje do disco “Como Sempre Feito Nunca”, da dupla Jorge & Mateus.


Ainda não consigo entender muito bem a reação do público ao disco “Os anjos cantam”, lançado pela dupla Jorge & Mateus em 2015. Muitos se referem àquele projeto como um erro, o primeiro em uma década de carreira. Discordo. Não por minha admiração já conhecida e nunca negada pelo trabalho do produtor Dudu Borges, mas por um fato bem simples: o tal “erro” não trouxe nenhum decréscimo ao prestígio da dupla Jorge & Mateus. Sua credibilidade continuou intacta. Ninguém é capaz de afirmar que eles erraram em repertório, porque não erraram, já que todas as músicas são ouvidas sem que se pule a faixa e cada uma delas tem um nível de sofisticação muito elevado. Talvez os “problemas” do disco tenham sido justamente esses: as escolhas ousadas (deixar a voz do Jorge a mais natural possível, praticamente sem edição durante a mixagem, e levar o disco um pouco mais para o lado romântico, para citar dois exemplos) e o excesso de sofisticação.

É importante fazer essa introdução justamente para entender o que levou a dupla ao disco “Como Sempre Feito Nunca”. Por maiores que sejam Jorge & Mateus (a maior dupla do mercado sertanejo nos últimos 10 anos), seu público parece não apoiar muito bem a busca por um som mais sofisticado. Uma considerável parcela dos seus fãs, por exemplo, passou todo o período da parceria com o produtor Dudu Borges clamando pela volta do Maestro Pinocchio ao projeto, ainda que os mesmos fãs reconheçam que os discos “Aí Já Era” e “A Hora é Agora – Ao Vivo em Jurerê” são, de fato, os melhores projetos da carreira da dupla.

Mesmo assim, e já que Jorge & Mateus atingiram aquele patamar sonhado do qual não é mais possível cair e no qual o sucesso de seus discos consegue sustentar a dupla pelo resto da carreira (como é o caso de Chitãozinho & Xororó e Zezé di Camargo & Luciano, por exemplo), é compreensível a tentativa de se elevar ainda mais o nível sonoro, já que o sucesso consolidado dá a eles a chance de experimentar. Um dos melhores exemplos disso é o cantor Luan Santana, que experimenta mais e mais a cada disco, a despeito do que o mercado julgue querer. Jorge & Mateus, por sua vez, gravaram um DVD no Royal Albert Hall, em Londres, usando cordas e tudo mais. Depois, passaram quase 3 anos sem lançar nada, o que parece absurdo para qualquer artista. Ainda assim o timing não fora perdido, afinal ele nem existe mais no caso da dupla. E por fim, o disco “Os anjos cantam”, que segue a mesma estratégia da ousadia e experimentação. Mas desta vez, talvez por conta do aumento da “concorrência” e das crescentes mudanças do mercado, o apoio do público passou a soar reticente.

O disco “Como Sempre Feito Nunca” é a quebra da busca pela sofisticação e o começo de um outro tipo de busca: a do equilíbrio. Eles não podiam regredir em sonoridade, mas também não podiam continuar focando tanto em virarem “cults”. Pelo menos parece ter sido essa a interpretação. A dupla parece ter entendido o receio do público quanto ao disco anterior como um chamado de volta às origens, mas ainda assim sem perder os elementos que foram agregados à sua sonoridade nos últimos anos. Buscaram um novo nome para a produção, alguém que já entendesse o som que a dupla construiu e pudesse mantê-lo, mas que também pudesse ajudar a resgatar algumas das características que essa parcela dos fãs, agora mais ruidosa e insistente, a ponto de não poder mais ser ignorada, queria ver de volta.

Nas mãos do produtor Neto Schaefer – que encarou o maior de todos os testes ao assumir a produção musical da maior dupla do Brasil tendo no curriculum grandes discos, mas apenas alguns de expressão nacional (o maior acerto até então tinha sido, provavelmente, o megahit “Mozão”, grande sucesso do Lucas Lucco) -, a dupla conseguiu trazer de volta alguns elementos dos quais os fãs mais sentiam falta, bem como manter algumas das principais características de sua sonoridade atual. O Neto já havia gravado violão em vários discos recentes da dupla, o que faz dele um produtor já totalmente consciente da sonoridade dos caras.

De outros tempos, por exemplo, a dupla resgatou o gosto pela regravação de algum grande sucesso dos anos 90 (“Amor não é paixão”, de Chrystian & Ralf), a presença um pouco mais marcante do violão de aço, com direito a faixas totalmente acústicas, e o cuidado na escolha de músicas um pouco mais comerciais. Dos tempos atuais, a dupla seguiu mantendo a linguagem totalmente pop rock, com a guitarra do Mateus mais presente do que nunca, até mesmo em vaneiras (“Ou some ou soma” é o melhor exemplo dessa mistura), e o respeito pela individualidade de cada um deles, o Jorge com sua interpretação mesclada com a interação sempre exemplar com o público e o Mateus com sua imersão sonora. Pela primeira vez, eles cantam sozinhos em um disco da dupla, cada um uma faixa, o que reitera esse respeito que eles têm pelo papel um do outro.

Mas se por um lado essas decisões agradam ao público reclamão, por outro elas inibem a dupla de continuar apostando em certas características que, por mim, não podiam ser jamais deixadas de lado. O disco não tem, por exemplo, nenhum momento grandioso de romantismo, que era praticamente o clímax dos 3 últimos discos de inéditas da dupla, com as músicas “Aí Já Era”, “Duas Metades” e “Coisas de quem ama”, cada uma em um disco. Faltou um pouco mais, também, do Jorge compositor. Ele assinou alguns dos mais marcantes sucessos da dupla, mas desta vez assina apenas duas faixas, sendo uma com parceiros. E a viola caipira, também presente em preciosos momentos dos últimos discos, simplesmente não deu as caras desta vez.

A busca pelo equilíbrio entre o comercial e o sofisticado também atingiu as letras das músicas do DVD. Em comparação com os discos anteriores, é notável como as letras do “Como Sempre Feito Nunca” são menos extravagantes, com uma linguagem de mais fácil compreensão. Até mesmo “Antônimos”, a música mais elogiada do disco e justamente a que traz a letra mais rebuscada, é, no fim das contas, simples.

O Pacheco, compositor desta música, é aliás um dos grandes responsáveis pela linguagem deste disco, já que ele assina nada menos que 5 músicas do projeto (e 5 das melhores do disco, diga-se de passagem). O repertório do DVD, aliás, segue a regra geral quando se fala de Jorge & Mateus, que sempre foram elogiadíssimos em suas escolhas de músicas. Além de “Antônimos” e “Sosseguei” (ambas do Pacheco), o disco têm canções fantásticas, como “Louca de Saudade” (grande momento acústico do disco), “Pra sempre com você” (um hit), “Te Amo com Voz Rouca” (a minha preferida), “Ou Some ou Soma” e “Paredes”, as duas melhores vaneiras do DVD. Sem falar, claro, da mais alternativa do projeto, “Cenário Ideal”, de linguagem totalmente bucólica e feita durante o período de ensaios para o DVD na chácara do Marquinhos, justamente para celebrar aquele momento, o que dá a ela um valor ainda mais simbólico.

Mas mesmo com a dupla pisando no freio do excesso de ousadia, o disco ainda traz momentos bastante alternativos, como nos arranjos das músicas “Sosseguei” e “Ou some ou soma”, por exemplo. A abertura, com o Mateus tocando o arranjo da música “Vai voando” em um controlador MPC (corrijam-me sobre o nome, se eu estiver errado), é outro momento bastante ousado. A presença sonora do Mateus neste DVD é, por falar nisso, um dos maiores acertos do disco. Com mais liberdade para tocar sua guitarra da forma que ele achou mais interessante, o Mateus pareceu à vontade de um jeito que há tempos não se via. E a sua influência pop foi o que deixou a identidade deste DVD ainda mais marcante.

Essa manutenção da originalidade da dupla, que sempre foi sua principal característica, é o lado mais louvável dessa busca pelo equilíbrio entre o sofisticado e o comercial, marca deste DVD. Em nenhum momento do disco eles seguiram a onda do mercado. “Sosseguei”, por exemplo, é uma bachata, mas ainda assim uma bachata com todas as características da dupla Jorge & Mateus e alheia a todas as outras bachatas que dominam o rádio atualmente. E o disco inteiro anda na contramão do que 80% dos artistas andam praticando nos últimos tempos. Não à toa, é um dos discos com a mais forte identidade no ano. Se, em outros tempos, todo mundo corria para copiar o que Jorge & Mateus estavam fazendo, desta vez eles conseguiram fazer um disco que não sofreu com clones posteriores e conseguiu manter, mesmo após quase um ano de seu lançamento, sua originalidade intacta. E em tempos onde todo mundo quer fazer apenas o que está dando certo, esse é melhor dos elogios possíveis. Soa como se o mercado entendesse de uma vez por todas que não adianta ficar tentando copiar Jorge & Mateus, mesmo o disco sendo mais um grande acerto.

Se a dupla tentou, com este DVD, sanar os ânimos de um público saudoso de um Jorge & Mateus menos rebuscado, a tática funcionou. E se havia neles alguma preocupação com as mudanças do mercado e o aumento da “concorrência”, estimulada talvez pelo excesso de comentários nos bastidores nos últimos tempos (desnecessários, é bom ressaltar), eles deixaram que essa preocupação fosse demonstrada apenas no formato de divulgação, jamais no som da dupla. “Sosseguei”, por exemplo, foi trabalhada nas rádios de uma maneira que há anos nenhuma música da dupla havia sido. Talvez esse trabalho intenso de rádio tenha sido a forma encontrada por eles para conversar de maneira mais direta com seu público, o que de certa forma condiz perfeitamente com o que, pra mim, é o melhor resumo deste DVD: Jorge & Mateus da forma mais direta possível, mas ainda assim Jorge & Mateus, o que é sempre incrível.