REVIEW: Jorge & Mateus – Os Anjos Cantam

REVIEW: Jorge & Mateus – Os Anjos Cantam

É engraçado notar que a dupla com a carreira mais perfeita e sólida dos últimos 10 anos, e que ainda não experimentou o fracasso ou a derrota, ainda reluta em assumir os “deveres” naturalmente incumbidos ao artista que chega ao topo. No caso deles, a relutância, vista quase que o tempo todo nas redes sociais entre os fãs que insistem na tese de que “o ‘Jorge & Mateus’ de antigamente era melhor”, diz respeito principalmente ao fato deles parecerem, em alguns momentos, não se importarem com a relevância musical que atingiram e, atendendo a esta parcela do público que mencionei, preferirem ficar ali, navegando por águas tranquilas e fazendo algo que as pessoas já esperam que eles façam, o que por sinal já é muito.

Por que comecei esse review com esse raciocínio? Ora, depois de todos esses meses que o disco “Os Anjos Cantam” foi lançado, é seguro dizer que, pela primeira vez, Jorge & Mateus foram questionados. E com esse primeiro episódio de questionamento, eles já decidiram voltar a um formato mais tradicional. Mesmo tendo sido elogiadíssimo e aplaudidíssimo na semana do seu lançamento, os meses que se seguiram ao debut do “Os Anjos Cantam” foram de observações constantes, de um excesso de “mas”, até que o “mas” virasse crítica. O disco teria ficado “romântico demais”, diziam alguns, ou “pop demais”, diziam outros. Ao ponto da dupla encerrar a parceria com o produtor Dudu Borges, depois de 4 trabalhos muito bem sucedidos, e produzir na sequência não um, mas dois DVDs, um de inéditas e um com seus grandes sucessos, estes sim mais parecidos com os tais “Jorge & Mateus de antigamente”. Isso sem falar da música “Pergunta Boba”, gravada com o Maestro Pinocchio, produtor dos primeiros discos da dupla, e que remete justamente a estes trabalhos.

Na prática, o disco não causou nenhum “estrago”, se é que havia algum receio quanto a isso. A dupla segue a número 1 do mercado sertanejo, comemorando em 2015 10 anos de sucesso. Por que, então, tanto mimimi com relação ao “Os Anjos Cantam”? Quais são as características desse disco, afinal, que podem ser apontadas como questionáveis, se é que são?

Voltando a bater na tecla da relevância musical, parece haver no público de Jorge & Mateus uma possessividade que os impede de abraçar a condição de criadores de tendências, natural a quem permanece no topo por tanto tempo. Uma frase muito interessante que li nas redes sociais na época do lançamento do disco diz que “Jorge & Mateus são a ‘Fashion Week’ do sertanejo”. O que eles lançam será copiado nas temporadas seguintes, até que um novo disco seja lançado pela dupla e novas tendências sejam criadas. E isso é verdade.

Jorge & Mateus chegaram a um patamar que, pensando na história recente da música brasileira, creio ter sido atingido apenas por artistas como Ivete Sangalo e Jota Quest, só pra citar dois exemplos. Artistas que superaram a barreira do gênero do qual se originaram e se entenderam como referência musical. Se o sertanejo é considerado hoje o novo pop brasileiro, boa parte (uns 80% pelo menos) dessa responsabilidade se deve a Jorge & Mateus. Mas, ainda nestes dois exemplos específicos, é possível perceber dois caminhos distintos traçados a partir de então. Ivete Sangalo ficou cult e se tornou referência, mas ainda se atreve a gravar uns axés meia-boca ou músicas chiclete que a mantém conectada ao seu público original. Já o Jota Quest abraçou o cult por completo e acabou perdendo espaço, justamente porque optou por não manter as características que mais lembravam aquela fase mais simplória da banda.

Talvez o maior receio de Jorge & Mateus seja justamente o de ficarem excessivamente cults e perderem alguns dos elementos essenciais de sua musicalidade. E o disco “Os Anjos Cantam” é o mais ousado da carreira da dupla justamente por trazer escolhas até então nunca empregadas em outros trabalhos. Em primeiro lugar, o romantismo mais escancarado. Em segundo, uma interpretação ainda mais natural do Jorge. E em terceiro, elementos ainda mais inusitados e inesperados nos arranjos do que nos outros discos. Então, a grosso modo, é o disco que realmente mais ousa na tentativa de afastar um pouco a dupla de suas características originais.

É de fato um trabalho predominantemente pop/romântico. Não que os dois trabalhos de inéditas anteriores não tenham sido. Mas este vai um pouco mais além. São apenas 4 vaneiras, fora a “Nocaute”, que seria uma vaneira estilizada. E das 4, uma já havia sido lançada há mais de um ano (“Logo Eu”). Então, seriam essencialmente três vaneiras inéditas apenas. Se lembrarmos que a bandeira da vaneira foi sempre uma das mais defendidas pela dupla desde o começo, este pode até ser considerado um número pequeno. E se o disco traz mais algum elemento de “agitado”, é provavelmente apenas no reggae “Idas e Voltas”, que nem é tão agitado assim.

E sobre o argumento de que o disco teria ficado excessivamente pop, de certa forma também não deixa de ser verdade. O disco deixou um pouco de lado os elementos mais sertanejos, apesar deles ainda serem encontrados em algumas das faixas, como no arranjo de “Não tem Comparação”. E a essência ainda é no sertanejo mais tradicional em faixas como “Calma”, “Maneira Errada”, “Se disser bye bye” e “A hora, o dia e o lugar”, que é a faixa do disco que mais preserva algumas das características originais da dupla, principalmente o arranjo pop tocado na sanfona, que eles eternizaram em “Seu Astral”. Mas, nas demais faixas, a predominância é de elementos mais ligados ao pop, como a guitarra do Mateus e os ritmos das músicas do repertório.

Se tem uma coisa que costuma confundir o público é a diferenciação entre os conceitos de “bom” e de “comercial”. Ora, desde quando um disco ser “excessivamente romântico” ou ser “excessivamente pop” faz dele um disco ruim? Desde quando estes são critérios de qualidade? Tudo bem que isso o torne menos comercial, mas ser menos comercial é sinônimo de ser ruim? O público costuma fazer essa confusão com frequência. O desafio do artista é saber dosar o que é crítica positiva do que é bobagem sem sentido, como essa. O fato de “Os anjos cantam” ser menos comercial que os discos anteriores da dupla talvez tenha sido a principal causa desse estranhamento que o disco teve junto ao público com o passar do tempo, o que remete ao que eu disse lá em cima: na dificuldade do público da dupla em aceitar que eles chegaram à tal fase de escolha entre o ser ou não ser cult.

A meu ver, o principal elemento questionável do disco não é nem seu romantismo ou sua veia pop: é a interpretação do Jorge em algumas das canções. Houve uma clara opção por deixar a voz do Jorge a mais natural possível neste trabalho. Em algumas faixas, como em “Idas e Voltas”, por sinal genial, essa escolha se mostrou incrivelmente acertada. Ao cantar de forma mais arrastada, o Jorge acabou interpretando essa canção perfeitamente, tal qual a letra e os arranjos pediam. Já em “Se disser bye bye”, nem tanto. Para ouvidos mais atenciosos, a interpretação ficou aquém do potencial do próprio Jorge. Talvez fosse o caso de gravar novamente em um dia no qual a voz estivesse mais descansada, o que não aconteceu. E isso aconteceu num menor grau em algumas outras músicas, apesar de em outras, como “Coisas de quem ama” e “Como não me apaixonar”, ele ter interpretado como nunca. Ou seja, no que diz respeito à condição vocal do Jorge, este acabou sendo um disco “8 ou 80”. Em algumas músicas, um canhão. Em outras, aquém do que todo mundo já está acostumado a ouvir na voz dele.

A escolha inusitada nos arranjos é um dos grandes acertos do disco. Provavelmente impulsionados pelo grande sucesso do hit “Logo eu”, que traz uma gaita dobrada no arranjo inicial, até então inédita em uma vaneira, a dupla seguiu inserindo novidades, como a cítara no arranjo de “Os anjos cantam”. As frases soladas de baixo no final de “Idas e Voltas” são espetaculares. E a orquestra no fim de “Coisas de quem ama”, dando à música um final grandioso e remetendo à belíssima “Aí Já Era”, nem se fala. E olha que esta (a orquestra) foi uma das escolhas que mais vi sendo questionadas sob o ponto de vista comercial. Ou seja, pelos motivos errados. E mesmo tendo rompido com o produtor Dudu Borges, as escolhas ousadas nos arranjos permanecem, como é possível observar no arranjo de “Sosseguei”, atual de trabalho da dupla, gravado já em parceria com o produtor Neto Schaefer.

Fato é que o disco não é nem de longe ruim como algumas pessoas andaram pregando. O repertório traz algumas das mais belas letras já gravadas pela dupla, arranjos de muito bom gosto, entre outras inúmeras qualidades. O Jorge estava particularmente inspirado quando escreveu “Coisas de quem ama” e “Idas e Voltas”, a primeira em parceria com o Dudu Borges e com o Matheus Aleixo. Isso sem falar das demais músicas do disco. Ouvindo faixa a faixa, o que temos é um disco de alto nível e de muito bom gosto. Se é que cabe mesmo algum questionamento quanto ao disco, creio só ser possível quando se observa o contexto geral, usando os tais argumentos dos quais falei lá em cima, que eu julgo, repito, não serem critérios confiáveis para se definir se um disco é bom ou ruim.

A verdade é que o sucesso deste disco esteve muito mais ligado às fofocas de bastidores do que aos seus próprios elementos. O rompimento com o produtor Dudu Borges passa a impressão que o desenvolvimento do disco foi complicado. Daí a facilidade em se apontar defeitos em um trabalho que, convenhamos, tem poucos. É um disco à altura de Jorge & Mateus e que provavelmente deverá ser entendido como tal daqui a alguns anos. Sem dúvida uma tentativa ousada de dar à dupla o status cult que lhe é cabível depois de 10 anos de predominância no gênero. Enquanto alguns artistas e duplas tentam subir a esse patamar bem antes da hora e dão com os burros n’água, Jorge & Mateus, que já estão lá, ainda relutam em aceitar essa condição. Pelo menos essa é a impressão que passaram ao tirarem o pé da ousadia depois dos questionamentos ouvidos e lidos sobre este disco.

É claro que, a julgar pelos exemplos que dei (Ivete Sangalo e Jota Quest), o equilíbrio é mesmo necessário, principalmente para evitar o distanciamento da parcela mais fiel do público. Jorge & Mateus só não podem, no entanto, deixar que essa preocupação tire deles o caráter de “estilistas” do nosso gênero, de criadores de tendências. Afinal, não é fácil chegar a esse nível e perder essa característica tão única por mero receio de ver seu reinado cair é uma grande bobagem. Ora, estamos falando de Jorge & Mateus, de 10 anos do mais absoluto sucesso e de um cachê há anos estratosférico. Ainda que o reinado caia um dia, o que é natural na música, uma história como essa não se apaga nunca. Já está marcada para a eternidade nos anais da música sertaneja.