Review – Kleo Dibah & Rafael – É dus mais bão

Review – Kleo Dibah & Rafael – É dus mais bão

Kleo Dibah & Rafael são queridinhos no meio sertanejo. Elogiados por 9 em cada 10 profissionais do segmento. A única ressalva com relação a eles que sempre surge nas conversas é a teórica semelhança da voz do Kleo com a do Vinícius (João Bosco & Vinícius). Fora esse pequeno detalhe, que eu por sinal acho irrelevante, são apenas elogios. Tanto pela qualidade vocal relacionada ao alcance e à interpretação, quanto pela afinação do dueto, qualidade do repertório, quase 100% autoral, e vários outros pontos positivos.

O disco anterior foi um dos mais elogiados da temporada passada. Apresentou a dupla de uma forma muito satisfatória e fez com que o mercado todo apostasse neles como uma das próximas explosões sertanejas. Acontece que o trabalho deles é gerenciado de uma forma aparentemente mais equilibrada. Eles obviamente não se deixaram levar pelo oba oba em que se transformou a música sertaneja. Ao invés do caminho normal da atualidade, que é sair de cara com um arrocha pornô e uma tonelada de grana gasta à tôa, eles parecem querer trabalhar de forma mais consciente.

E se no ano passado eram tidos como uma das 3 ou 4 duplas e cantores que aparentemente não se renderiam às necessidades impostas pelo atual mercado, este novo trabalho parece mostrar que eles são talvez os únicos “novatos” que permaneceram fiéis à sua fórmula inicial. Enquanto seus colegas outrora extremamente elogiados estão pouco a pouco se deixando levar pelo que o monstro de 7 cabeças chamado “público” parece querer ouvir, Kleo Dibah & Rafael mantém o mesmo estilo musical do disco anterior, com uma aumentadinha de leve na quantidade de canções agitadas, se compararmos este DVD com aquele disco, tudo isso sem partir para o lado apelativo.

Enquanto a regra da vez é tocar arrocha, seja onde, quando e como for, o DVD traz apenas uma música nessa pegada, “Ciuminho”, com uma linguagem bem mais simplória, sem apelar para termos chulos, ofensivos, ou onomatopeias sem sentido e batidas ou expressões trazidas do funk. Fora essa, as agitadas do disco são as ótimas “Vou te morder” e “Me Beija” (com João Bosco & Vinícius), além da música que dá título ao DVD, “É dus mais bão”.

Além disso, Kleo Dibah & Rafael podem seguramente figurar na lista de duplas e artistas que mais valorizam as influências. Mesmo o Rafael não sendo originalmente sertanejo, como ele próprio ressalta no making off do DVD, a dupla é uma das poucas que resolveu resgatar aquele hábito outrora comum de regravar algumas músicas mais clássicas. Além da releitura fantástica de “Um degrau na escada”, gravada originalmente pela dupla Chico Rey & Paraná, o DVD traz até um pout pourri de canções tocadas com viola, coisa que quase ninguém anda gravando hoje em dia.

Ressaltados esses pontos acerca das principais características da dupla, podemos agora falar um pouco mais do disco propriamente dito. O produtor Dudu Borges, na época da produção deste DVD, estava envolvido com vários outros projetos simultâneos, como os DVDs das duplas Jorge & Mateus, Bruno & Marrone, João Bosco & Vinícius, Luiz Henrique & Fernando e o CD da dupla Marcos & Belutti, estes dois últimos ainda não lançados. Todos eles foram realizados num intervalo inferior a 3 meses. Naturalmente, pairou a dúvida sobre como ele se viraria para deixar cada projeto com uma cara própria, sem que um parecesse meramente uma extensão do outro. Em breve, depois que os dois últimos forem lançados, pretendo escrever justamente sobre esse processo de produção. Hoje, vamos nos atentar apenas ao projeto Kleo Dibah & Rafael.

A principal diferença que se observa neste DVD com relação aos trabalhos citados é, de cara, a utilização de uma turma diferente de músicos. É claro que a base de qualquer DVD é quase toda gravada previamente em estúdio. Mas o grosso, o groovin, a pegada do DVD, isso só se consegue ao vivo. Além de um baixista e um baterista diferentes dos utilizados nos outros discos citados, a harmonia trouxe uma sonoridade que valorizava um pouco mais o nylon. Por isso a participação do Marcelo Modesto tocando principalmente o violão de nylon no DVD. Não que o nylon seja a estrela principal da harmonia. O aço ainda fica bem mais evidente que ele, mas mesmo assim já é um ponto importante. A guitarra do Rafael em algumas canções também é outro elemento a se destacar.

Outro aspecto importante é a utilização de poucos músicos e não de um batalhão. Além do Modesto, só o Rafael toca o violão, e mesmo assim em apenas algumas músicas. Como eu disse, boa parte das bases de qualquer DVD são previamente gravadas. Todos aqueles músicos em cima do palco dos DVDs só servem mesmo para dar um efeito bacana no vídeo, o que não é necessário neste DVD em específico. É que uma das maiores estrelas deste disco é o seu cenário. Visualmente, a banda é apenas coadjuvante.

Gravado numa fazenda de Presidente Olegário, o DVD traz um palco montado de forma a favorecer a paisagem natural da entrada, formada por várias árvores. A iluminação foi toda composta justamente para priorizar mais as árvores ao fundo, deixando o palco com um aspecto muito mais grandioso do que ele aparentava no dia da gravação. As cenas panorâmicas, que pegavam o público e o palco inteiro, eram todas filmadas com um ângulo um pouco mais acima do palco, para que as árvores e seu contraste com a iluminação se destacassem ainda mais. Sem falar nas lamparinas montadas atrás dos músicos. Todo esse cenário 100% orgânico, sem nenhuma plaquinha de LED, sem dúvida deu muito mais requinte ao disco. Além do clima no dia da gravação, mais ameno, o que acabou dando um ar quase que europeu ao público e ao cenário.

Há quem já esteja torcendo o nariz para o método de trabalho da dupla Kleo Dibah & Rafael. O fato de eles não se deixarem levar pelo fácil, pelo normal, pelo óbvio, e escolherem trabalhar a carreira de uma forma mais sensata, sem partir para o oba oba, parece não agradar alguns radialistas e contratantes, provavelmente já acostumados às atuais mordomias proporcionadas pelo mercado. No dia da gravação, por exemplo, não havia convidados de diversas partes do Brasil como de praxe. Eu só fui porque a cidade onde o DVD foi gravado fica a apenas 200 km da cidade onde moro, com estrada em boas condições. Peguei o carro e fui.

É arriscado. Trabalhar à margem do mercado pode ser 8 ou 80. Pode ser um enorme tiro no pé ou um acerto sem precedentes. Se levarmos em conta que o próprio trabalho deles já denota que a intenção é trabalhar uma carreira e não apenas o atual momento da música sertaneja, creio que esse método de trabalho é realmente o mais sensato. Afinal de contas, como seria possível botar uma “Se eu me entregar” para competir com as inúmeras “Tchu tcha tchas”, “tche tche re re” e suas “irmãs” num mercado como o de hoje? Não é o que o grande público quer ouvir no momento, claro. Mas quando o oba oba passar, e, como sempre aconteceu, vai passar, que tipo de projeto vai prosperar: o de carreira ou o que só se preocupou em aproveitar o momento?

Nota: 9,0