REVIEW: Kleo Dibah & Rafael – Só uma história

REVIEW: Kleo Dibah & Rafael – Só uma história

A música tem coisas que passam despercebidas aos olhos dos fãs e que só quem a vive diariamente é capaz de entender. Entre alguns exemplos, temos artistas que todo mundo costuma elogiar muito e questionar o motivo por ainda não estarem no topo, e carreiras que ficam estagnadas por um certo período de tempo por conta de problemas ou mudanças administrativas. Isso acontece o tempo todo na música sertaneja. E, em casos excepcionais, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo com um mesmo artista ou dupla.

É o caso de Kleo Dibah & Rafael. Depois de 3 anos sem nenhum disco oficial ser lançado (apenas um acústico do tipo “plug and play” circulou na Internet nesse período, fora alguns singles paralelos), a dupla finalmente lançou no começo deste ano um novo disco, intitulado “Só uma história”, que acabou pondo fim a um ciclo de mudanças e de incertezas que talvez tenham refletido no amadurecimento da dupla sob o ponto de vista administrativo e nas escolhas feitas para este projeto.

Neste intervalo de 3 anos, a dupla passou por mudanças intensas na esfera administrativa, com a saída de alguns dos sócios e uma quase separação causada justamente pela influência daqueles que deixaram o projeto, o que para o bem da boa música foi superado. É provável que a equipe envolvida no projeto tenha, na época, se deixado levar pela pressão da dupla ser apontada sempre como uma das próximas no topo do sucesso. E a pressa em corresponder a  aposta, aliada a outros problemas internos, fez crescer a insegurança no ambiente interno do projeto.

Musicalmente, não há nem nunca houve nada errado com a dupla. Pelo contrário. Depois de dois discos que entregavam uma forte e elogiadíssima identidade, não havia mais o que fazer a não ser esperar o momento da dupla acontecer numa escala maior. E depois de todas as mudanças dos últimos 3 anos, o que se vê no novo disco é uma busca por uma linguagem mais simples, mais próxima do grande público, mesmo que pra isso a dupla deixe um pouco de lado alguns dos elementos que a tornaram prestigiada. Canções de letras e interpretações fortes como “Se eu me entregar”, “Sinceramente”, entre outras, deram espaço a músicas mais comerciais, o que não significa que houve um decréscimo na qualidade.

O grande hit deste projeto, “Cicatrizes”, por exemplo, traz a dupla para a atual realidade das bachatas, com uma letra cujo refrão tem um potencial de aceitação mais rápida do que os antigos sucessos, seja por trazer a bebida como tema ou pela forma como ele é cantado, que facilita o acompanhamento do público. A participação do Gusttavo Lima, então, uma figura que fala diretamente com o grande público, só fez tornar a música ainda mais comercial. O resultado foi evidente no decorrer do ano. Acabou sendo uma das melhores músicas de 2015, equiparando-se ou talvez até superando o sucesso de “Se eu me entregar”.

Mesmo contendo canções que remontam ao lado mais sério, como “O cara e a menina”, “Só uma história”, “História de um livro”, “Mundo de Romance”, que fazem a linha “Se eu me entregar”, é nas canções mais agitadas que está a essência deste disco, evidenciando que a dupla buscou gravar um disco que a tornasse mais “vendável”, na falta de uma palavra melhor. “A Tia”, por exemplo, faz uma irreverente brincadeira com a história verídica do grupo de amigos que fazia farra na casa da tia de um deles. “Vai bater lá em casa” é uma vaneira mais agitadinha do que as que a dupla costuma lançar. “Uh la la” talvez seja a mais ousada do disco, com uma letra e melodia totalmente diferente do que a dupla costumava gravar. E a atual de trabalho, “Faz assim pra ela”, vai ainda mais além ao chamar o ouvinte a uma linguagem muito mais corporal do que musical.

A mudança de produtor (quem assina o novo disco é o Ed Junior) também é reflexo dessa mudança que vem acontecendo nos últimos 3 anos na dupla, que deixou de ter a mesma grande estrutura de outrora para priorizar o trabalho feito degrau por degrau, conforme o tamanho que eles têm perante o mercado, o que é uma decisão extremamente louvável. Aliás, quando um artista passa por problemas internos e os supera, o resultado é sempre uma revisão na forma de trabalho e uma tomada de decisões mais coerente dali em diante. Talvez o ganho possa até cair, claro, mas o gasto com certeza cairá mais ainda, o que tornará o projeto muito mais rentável no fim das contas. Uma reflexão necessária a muitos empresários e artistas, que acabam deixando um projeto no meio justamente por não terem a coragem necessária para esse tipo de mudança.

Mas mesmo com a dupla consciente de uma eventual necessidade de adaptação a uma linguagem mais comercial, ainda há a preocupação em não perder aquela identidade que a tornou respeitada no começo. O Rafael ainda assina a grande maioria das composições do disco, bem como é responsável por todos os arranjos. E ainda por cima fez questão de gravar violão em todo o projeto.

Ainda assim, talvez tenha faltado um pouco da linha “Se eu me entregar”, que no primeiro disco era dominante. Temos ali as boas vaneiras com temas românticos que já fazem parte da linguagem da dupla desde o começo (uma delas com o saudoso Cristiano Araújo, inclusive), mas houve uma diminuição na quantidade de músicas que exigem um pouco mais do ouvinte. Elas ainda estão lá, presentes, mas o que se observa é que a dupla procurou trabalhar uma linha mais comercial. E não deixa de ser importante a decisão da dupla de fugir de seu lugar comum e buscar se aproximar mais do público. É provável que agora a dupla possa trabalhar ainda com mais equilíbrio, Nem muito para o lado de “Se eu me entregar” e nem tanto para os lados de “Uh La La”, mas ali no meio, tal qual “Cicatrizes”, que melhor representa esse equilíbrio e cujo sucesso só comprova que esse é mesmo o caminho certo.