REVIEW: Lucas Lucco – Adivinha

REVIEW: Lucas Lucco – Adivinha

Lucas Lucco alcançou mais rápido que se esperava um status multimídia. O artista que migra para uma mídia diferente da que lhe alçou à fama geralmente faz isso quando as possibilidades na sua área de atuação original já foram praticamente exauridas. Em outras palavras, quando a carreira está estagnada. Já no caso do Lucas, ele optou em levar uma vida dupla mesmo com sua carreira na música em alta. Desde sua participação na Dança dos Famosos, ele vem equilibrando a carreira de cantor com a de figura televisiva, primeiro no Faustão e agora como ator na Malhação.

Nesse meio tempo, encontrou uma brecha para lançar seu mais novo disco, “Adivinha”, que já traz alguns frutos do seu crescimento na mídia, como a participação do Nego do Borel, seu colega em Malhação, o clipe de “Vai vendo”, com várias personalidades da TV, entre outros elementos. É um disco, também, que resgata uma vibe mais festeira, presente nos seus primeiros trabalhos e deixada um pouco de lado ao longo do tempo, principalmente no seu DVD, que foi também seu último trabalho e tinha uma musicalidade muito mais voltada para o romantismo.

Enquanto ele busca a glamourização da sua marca através da TV, na música ele busca resgatar um pouco das suas origens com o disco “Adivinha”. Puxado pelo sucesso de “Vai vendo”, que foi mais longe do que as músicas que ele trabalhou no DVD, Lucas Lucco retoma um pouco do lado “Pac Man”, “Nem te conto”, “Princesinha” e “Plano B” do começo da carreira. É que a necessidade e vontade de se mostrar um artista sério, impulsionada por “Só pra te fazer lembrar”, primeiro hit romântico da sua carreira, e que se consolidou com “Mozão”, uma das mais tocadas de 2014, acabou fazendo com que o lado mais divertido fosse pouco a pouco sendo menos explorado.

Seu produtor original, Willibaldo Neto, retoma a frente dos trabalhos, desta vez em parceria com o produtor Wteykson Silva, e consegue resgatar aquela atmosfera mais “safada” que trouxe Lucas Lucco à tona. O CD “Adivinha” traz isso no título e no repertório. Além de “Vai vendo”, que já vinha sendo trabalhada, o disco traz a maioria das faixas nessa linha mais divertida. A que mais retoma a linha do começo da carreira é a música título.

Mas desta vez, ao invés de uma pegada mais simplória como no disco “Nem te conto”, já se nota uma linha mais parecida com a do disco “Tá diferente”, com influências de hip hop americano, funk e outras vertentes inusitadas. A criatividade dos arranjos, com instrumentos e timbres pouco usados por outros artistas do segmento, também chama a atenção, principalmente em faixas como “Musa da Praia”, “Se produz”, “Explodiu partiu” e “Jatinho Particular”. Destaque para os metais usados no disco, que deram um toque de alto nível a muitas das canções do projeto.

O resgate do lado mais extrovertido do Lucas Lucco, entretanto, não tira o mérito das canções românticas. Aliás, elas continuam sendo o grande trunfo do cara. Além de “Quando Deus quer”, típica música para clipe e que já rendeu mais um na sua já enorme lista, o disco traz momentos memoráveis como “Luz Acesa”, “Batom Vermelho” (uma das melhores do disco, que começa romântica e vira vaneira), “Porteiro” (mais uma ideia incrível de letra do Bruno Caliman), “Luxo” e “Oxigênio de Mim”. A música “Luxo”, inclusive, é um dos momentos do disco que mais destaca a intenção do Lucas de mostrar uma maior qualidade vocal explorando os falsetes, presentes em diversas faixas do disco. Em várias faixas, também, ele explora tons mais altos do que ele costumava explorar.

Chama a atenção, também, a quantidade de participações. Além do Nego do Borel, o disco traz, de fora do sertanejo, o Dennis DJ e a All Star Brasil. Do sertanejo, traz nomes como Marcos & Belutti, Gusttavo Lima e a dupla Victor Hugo & Americano, de cuja carreira Lucas Lucco também é sócio. A música com eles, aliás, é a mais sertaneja do disco, com direito a viola e tudo. A música com Gusttavo Lima é um desafio bacana entre os dois, com um respondendo as provocações do outro no decorrer da canção. O nome não poderia ser outro: “Disputa”.

A experiência no mercado publicitário dá ao Lucas uma facilidade enorme pra lidar com o próprio marketing pessoal. Ninguém sabe conduzir e explorar a própria imagem como ele dentro da música sertaneja. A maior prova disso é a forma como ele consegue ter destaque, ao mesmo tempo, nas duas frentes: TV e música. Sem falar de seus clipes, claro, todos grandes sucessos de visualizações e repercussão. Ao resgatar um pouco da sua identidade musical original através do novo CD, ele dá um passo importante para manter seu público sempre próximo. Os prováveis desgarrados que talvez não se identificaram tato com o lado mais romântico do último disco devem ser todos resgatados agora. Creio que o grande desafio vai ser mesmo continuar consolidando a vida dupla que ele escolheu levar: ator e cantor.