REVIEW – Lucas Lucco – Tá Diferente

Sim. Demorei. Muito. Mas antes tarde do que nunca. Enfim vou começar a escrever sobre os trabalhos lançados esse ano e retomar uma das sessões preferidas dos leitores do Blognejo. Por que eu demorei? Sinceramente eu não sei explicar. A desculpa mais plausível é a falta de tempo por conta da enorme procura dos anunciantes pela divulgação oferecida pelo blog. Os publieditoriais tomam muito tempo, de verdade. E juntando a isso as coberturas de eventos, as entrevistas e os lançamentos, quase não sobra tempo para outra coisa que não seja descansar. Mas cá estamos, de volta com os reviews. Para começar a série 2014 e seguindo a cronologia dos lançamentos, falaremos sobre o novo disco do Lucas Lucco. Em breve, teremos aqui os reviews dos novos discos do Gusttavo Lima, da dupla Marcos & Belutti e de diversos outros.

Como eu já disse no texto que escrevi sobre a gravação do seu primeiro DVD, o Lucas Lucco é o atual “fenômeno a ser estudado” no segmento sertanejo. Assim como aconteceu com diversos artistas que vieram antes, Lucas Lucco é quem atualmente mais vem enfrentando aquelas já batidas acusações de sempre: “não é sertanejo”, “tá acabando com o segmento”, etc, etc, etc. Isso aconteceu com cada um dos artistas de grande sucesso das últimas décadas, principalmente no que diz respeito à primeira frase citada. Alguns em menor grau e outros em maior.

No caso do Lucas Lucco, entretanto, essas acusações têm surtido um efeito interessante, pelo menos do meu ponto de vista: elas nos fazem entender que, aparentemente, quanto mais controverso e diferente o artista do ponto de vista musical, maiores as chances dele chegar a algum lugar. Se disserem que o cara “não é sertanejo”, então, aí o sucesso é quase 100% certo. Essa parece ser uma fórmula bem precisa, inclusive. #fikdik rs.

As pedradas já acompanhavam o Lucas na época da música “Pac Man”, provavelmente a sua mais controversa. Acontece que mesmo essa música não agradando a parcela mais conservadora do público, serviu muito bem para o objetivo a que se propunha: chamou a atenção do mercado e do público para aquele jovem artista. E mesmo tendo estreado numa fase “modinha” do gênero sertanejo, obtendo destaque com arrochas (“Sogrão eu nem te conto”, “Pac Man” e “Plano B”) e com um funknejo (“Princesinha”), a grande canção do Lucas Lucco antes deste novo disco acabou sendo uma belíssima música romântica de autoria própria, que acabou ganhando um videoclipe incrível, o que aumentou ainda mais o repertório de elogios da canção. “Só pra te fazer lembrar” é uma música e tanto e foi capaz de mostrar que havia, sim, algo a mais nele, por mais que algumas pessoas ainda relutassem (e relutem) em enxergar.

Antes de falar a respeito do novo disco em si, creio ser importante discorrer a respeito do que faz do Lucas Lucco um artista “diferente”. Principalmente no que diz respeito a dois pontos: a voz e a aparência. Enquanto muita gente vê problemas na voz e na dicção do Lucas e fala todo tipo de impropérios sobre a sua qualidade vocal, eu vejo muita personalidade. Convenhamos, o fato é que ele não imita ninguém quando canta, bem como, pelo que eu saiba, ninguém o imita. A identificação é imediata. Todo mundo sabe quando é o Lucas Lucco cantando. E o jeito meio “pop rock” de cantar, com uma impostação mais contida da voz, pode desagradar os mais tradicionais, mas agrada a molecada e cria uma identificação com a parcela mais volúvel do público (que em se tratando de jovens é a maioria). E é justamente esse público (o jovem) que o tornou fenômeno na Internet e que tem sido a sua principal base de fãs.

A aparência, falando da forma mais masculina possível, rs, é outro ponto no qual o Lucas Lucco se destaca demais. Além do cara ter a beleza, ele já foi modelo e sabe usar sua própria imagem a seu favor muitíssimo bem, como pouquíssimos artistas. Os clipes recém lançados por ele são uma prova disso. Ele próprio atua nos clipes, que se destacam principalmente pela preocupação com um bom roteiro e pela ótima qualidade de vídeo. Não basta ter a vantagem da boa aparência, é necessário saber usá-la. E se com a voz ele cria uma identificação com o público jovem, na aparência a identificação se dá com o público feminino. Dois coelhos com uma só cajadada (não, o certo não é “caixa d’água”).

Mas ainda que tenha conquistado credibilidade com a música “Só pra te fazer lembrar”, a verdade é que ele ainda era um artista que despertava certa desconfiança em algumas das pessoas que direta ou indiretamente estavam envolvidas com seu projeto (pelo menos segundo diversos boatos que corriam à boca pequena) e naquela parcela do público que ainda não havia aceitado o seu trabalho de forma definitiva. O novo disco acabou servindo, então, como uma oportunidade dele mostrar que é capaz, sim, de sanar essa desconfiança e se provar como um projeto sólido.

O disco “Tá diferente” evidencia essa necessidade do Lucas Lucco de conquistar o respeito do mercado de forma definitiva, mas equilibra isso com a utilização de influências ainda mais inusitadas do que as suas próprias características pessoais em boa parte das músicas, valorizando o que faz dele o tal artista “diferente” que eu mencionei mais acima. De certa forma, é um equilíbrio entre o tradicional e o ousado.

A própria banda do Lucas ficou responsável pelos arranjos da maioria absoluta das músicas (11 das 18 faixas), com o Wilibaldo Neto na direção musical. Isso talvez já denote uma vontade do próprio Lucas de provar-se competente para quem eventualmente ainda duvidava disso, o que já é um dos aspectos da busca pelo respeito definitivo do mercado que eu mencionei.

Outro aspecto dessa busca é a presença de muitas músicas na linha da “Só pra te fazer lembrar”, românticas, profundas, ou as duas coisas, como “Coisa e tal”, “Saudade idiota”, “Mozão”, “Só nós dois” e “Pensando em Você”, esta última uma regravação. A música “Mozão”, inclusive, seguiu a mesma fórmula de divulgação da “Só pra te fazer lembrar”, com um videoclipe de peso que já acumula mais de 20 milhões de views e uma repercussão altamente positiva, principalmente pelo cunho social.

Musicalmente falando, estas 11 das 18 faixas do disco que a própria banda do Lucas arranjou acabaram soando mais tradicionais. A ousadia na sonoridade, indo de encontro ao que eu disse a respeito do Lucas enquanto artista “diferente”, ficou mais evidente nas demais faixas, 4 delas produzidas pelo Dudu Borges (“Toda toda”, “Amor à queima-roupa”, “Rainha” e “Coisa e tal”) e 3 pelo Neto Schaefer (“Danadinha”, “Vou trair” e “Mozão”).

Em “Toda toda”, “Beijar à queima-roupa” (que traz a participação da Anitta), “Rainha” e “Vou trair”, é bem marcante a influência do funk melody e da música eletrônica (esta na “Rainha”), diferente da influência do funk tradicional de outrora, como na “Princesinha”. Levando em conta que o funk melody, defendido por nomes como Anitta e Naldo, é atualmente o gênero musical brasileiro que mais se aproxima da música pop internacional, até que foi uma sacada bem inteligente. E antes que comece toda aquela ladainha dos mais conservadores, uma reflexão se faz necessária: introduzir influências externas, muitas vezes inusitadas, não é o que faz do sertanejo o gênero mais longevo da música brasileira?

A muvuca que já vinha acontecendo com o Lucas nas mídias sociais e a boa repercussão deste seu novo projeto parecem ter feito com que a tal desconfiança inicial desaparecesse, pelo menos internamente. Tanto que ele já gravou um DVD de grandes proporções, com uma equipe de peso, que deve ser lançado nos próximos meses. Isso mediante os olhos até do presidente nacional da gravadora Sony (que distribui o trabalho do Lucas), que se deslocou para a pequena cidade de Patrocínio para assistir aquele que atualmente tem sido o produto mais rentável da gravadora. E a força da sua imagem na Internet aos poucos tem migrado para a TV, com participações em grandes programas. A mais recente foi no Faustão.

Não digo que esse disco, por si só, já pode ser considerado a consolidação do Lucas Lucco no mercado. Isso deve acontecer com o DVD. Mas sem dúvida alguma, o disco “Tá diferente” o ajudou a abrir caminho para que isso aconteça. Boa parte dos que falavam mal já parece ter entendido e assimilado a proporção que o trabalho dele vem tomando e que espernear contra não fez efeito algum. Ainda há os que não entendem ou não aceitam. Mas é aquela velha história: tem gente que simplesmente não consegue enxergar um palmo à frente do nariz. Ou prefere viver enclausurada no passado.

Nota: 8,5