REVIEW: Maiara & Maraísa – Ao Vivo em Goiânia

Há algum tempo, falei aqui no blog a respeito do novo movimento feminino que se desenha na música sertaneja. Ao invés do padrão “mulher perfeita que canta músicas românticas com temas totalmente femininos”, o que temos visto crescer na música sertaneja é um time com mulheres que bebem, farreiam, cantam músicas com temas incomuns a elas até então, e que atingem o coração do público justamente por representarem tão fielmente essa nova geração de mulheres que não se prendem mais às regras machistas de outros tempos.

Entre os outros trabalhos que representam essa provável “revolução” que enfim se desenrola, este primeiro DVD da dupla Maiara & Maraísa é o que melhor reúne os elementos que caracterizam essa fase: músicas que não se prendem a temas femininos e uma interpretação que foge do tradicional “suave e doce” das mulheres que fizeram sucesso no sertanejo nos últimos anos, além do perfil que foge do “padrão diva, consolidado pela Paula Fernandes e pela Thaeme, por exemplo.

Na verdade, o que se observa é um retorno ao padrão Roberta Miranda. Aliás, várias das características que marcaram a carreira da maior representante feminina da música sertaneja se repetem em Maiara & Maraísa e nas outras cantoras dessa turma. Além das características que apontei mais acima, há ainda o fato de serem compositoras incríveis que viram sua carreira ascender após músicas escritas por elas fazerem sucesso em vozes masculinas. Com o sucesso de suas composições, o mercado começou a se interessar pelas intérpretes, talento tão evidente quanto o que se percebia nas composições. O mesmo ocorre com nomes como Marília Mendonça e Paula Mattos, de quem falaremos nos reviews de seus respectivos trabalhos. Lembrando, claro, que, fora a Roberta Miranda, ainda tivemos e temos a Fátima Leão, que seguiu carreira a partir do mesmo perfil.

E se o sucesso dessas cantoras começou na composição, é justamente no repertório que está o seu maior diferencial. Este DVD da dupla Maiara & Maraísa tem, sem dúvida, o melhor repertório do ano. Isso levando em conta DVDs de cantores e cantoras, sem distinção de gênero. Não há uma música ruim sequer em todo o disco. É do tipo que se ouve do começo ao fim sem pular nenhuma faixa e se bota em modo repeat pra começar de novo quando acaba. Viciante. O que mostra que o dom para compor também se repete na escolha de músicas de outros compositores, já que nem todas as músicas do DVD foram compostas pelas duas.

E se o disco tem o melhor repertório do ano, há que se reconhecer também o mérito do produtor Eduardo Pepato de enxergar a produção do disco sem distinção de gênero. Ora, se tem algo que irrita no sertanejo feminino dos últimos anos é o eterno achismo de que, se é uma mulher cantando, então as músicas precisam ser mais angelicais, com arranjos mais suaves. Ao produzir uma dupla feminina como ele produz qualquer grande dupla masculina, sem essa bobagem que mencionei, Pepato acerta na mosca a produção e os arranjos do disco.

É claro, também, que a versatilidade da dupla é incontestável. Maiara & Maraísa cantam canções românticas como “Você se transformou”, “Se olha no espelho”, “No dia do seu casamento”, “À luz de velas” e “Dois idiotas” com a mesma destreza e potência vocal que cantam as ótimas vaneiras do disco, como “Quase um casal”, “Mexidinho” e a espetacular “10%”, que é sem dúvida uma das melhores músicas do ano.

Aliás, essas duas músicas citadas por último são belos exemplos do que falei acima sobre os temas femininos. “Mexidinho” fala da esposa que chega em casa da farra em silêncio para não acordar o marido, um tema que tantas vezes vimos ser cantado por homens; e “10%” fala de uma pessoa (só sabemos que se trata de uma mulher porque são duas mulheres cantando) que é ludibriada pelo garçom do bar através das músicas sofridas que ele coloca no som ambiente para que ela gaste mais e mais e os 10% da gorjeta sejam maiores no final. Quem imaginaria uma dupla de mulheres cantando algo assim?

A questão da potência vocal fica ainda mais evidente com as participações. O saudoso Cristiano Araújo (na melhor música lançada com sua voz após sua partida) cantou a incrível “Se olha no espelho” no mesmo tom da dupla, o que rendeu um dos refrões mais “rasgados” do disco. Bruno & Marrone seguiram a mesma linha em “Dois idiotas”. Dois duetos impressionantes, no fim das contas.

Apenas a música “Fala a verdade” foge um pouco da qualidade técnica vista no restante do disco, já que Jorge & Mateus precisaram, posteriormente, gravar a participação em estúdio, o que tirou um pouco da energia vista em todas as outras canções. E se há mais algum defeito a ser apontado no DVD, talvez seja apenas na edição do vídeo, o que ficou mais evidenciado nesta mesma canção. Em alguns outros trechos do DVD, a edição pecou na sincronização das vozes com o vídeo, o que só deve ser percebido por quem tiver um olhar mais atento.

Mas esse é o típico caso do DVD cujos pouquíssimos defeitos acabam não sendo nenhum pouco relevantes, dada a enorme qualidade do restante do projeto, que aliás tem mais um momento símbolo de toda essa nova fase feminina: Maiara & Maraísa com a Marília Mendonça em volta de uma mesa regada a whisky, cantando uma música extremamente “de corno” com o “Motel” como tema. Muita informação para os conservadores machistas da família tradicional brasileira, hehe.

Este é, sem dúvida, um dos melhores discos do ano. E qualquer argumento contrário a isso deve passar por um filtro anti misoginia ou anti conservadorismo. É impossível não apreciar este DVD. Basta que se escute sem preconceitos ou sem achismos e idéias pré concebidas de que “mulher no sertanejo não dá certo” ou “mulher pra dar certo tem que cantar assim ou assado”. Quero crer, sim, que se trata do começo de uma necessária mudança no que diz respeito às cantoras e duplas femininas. A julgar pelo sucesso que vêm sendo feito pelos nomes que citei aqui ou em outras ocasiões, basta que as demais mulheres deixem de insistir em fórmulas manjadas e já provadas como desgastadas e entendam a importância de assumir uma posição feminista. Não o feminismo de atacar e odiar os homens, mas a de agir em pé de igualdade. O resultado dá pra ouvir em DVDs incríveis como esse. Se é o começo de uma revolução, não dá pra saber ainda. Mas rezo todos os dias para que seja.