REVIEW – Marcos & Belutti – Acústico

Um dos textos que mais me deu gosto de escrever até hoje em todos esses anos de blog foi o review do primeiro DVD da dupla Marcos & Belutti. A dupla, que na gravação daquele projeto tinha apenas um mês de existência, sequer tinha subido no palco até então. Mesmo assim, entregaram um projeto perfeito em diversos aspectos, mas principalmente em interpretação. O repertório prioritariamente romântico, aliado às cordas presentes na harmonia, deram ainda mais peso à interpretação da dupla.

De lá pra cá, demorou pelo menos uns dois discos até que a dupla conseguisse abandonar o estigma de dupla romântica, coisa que prejudicava um pouco a colocação deles no mercado, ainda mais num momento em que o romantismo já não era algo assim tão bem quisto pelo público. Mas mesmo tendo conseguido mostrar com o tempo um trabalho mais amplo do que o que lhes foi atribuído durante os dois primeiros anos de carreira, fato é que aquele disco ainda não havia sido superado, em termos de qualidade, nos projetos seguintes.

O novo DVD, “Acústico”, mesmo não sendo tão grandioso quanto aquele primeiro, consegue reproduzir de novo aquela magia do primeiro DVD da dupla, e trazendo ainda alguns dos elementos que ajudaram a moldar a trajetória deles. Os diversos medleys com músicas que marcaram a carreira da dupla, misturados a um repertório de inéditas eclético mas que dá mais ênfase às boas canções românticas, e numa fase em que o sertanejo se voltou de novo ao romantismo, tudo isso parece ter conspirado a favor de Marcos & Belutti para que eles vivessem o melhor momento profissional da carreira deles, como eles próprios já reconhecem, apesar da tragédia recente envolvendo o baixista Rafa Salles e diversos membros da equipe feridos no acidente, que acabou sendo o pior momento da dupla na esfera pessoal, o que não deixa de ser, infelizmente, irônico.

Dá até pra encarar este disco como um recomeço. Durante os anos que eles passaram sob os cuidados da EBA Shows, Marcos & Belutti acabaram marcados também por um outro estigma: o de gastadores. Muito se fala sobre o que foi investido (até além do que era efetivamente necessário) nessa fase. O fim da EBA Shows e a entrada da dupla na FS ajudou os dois a mostrarem ao mercado um novo estilo administrativo, mais pés no chão, e o grande sucesso da música “Domingo de Manhã”, a mais tocada da atualidade fora do eixo Crowley, têm mostrado, a despeito do que muitos diziam a respeito deles, que as músicas da dupla podem ir bem nas rádios independente do investimento feito. Afinal sucesso não se compra, por mais que os haters de Internet adorem dizer que sim.

Este novo disco se assemelha ao primeiro por valorizar principalmente a capacidade de interpretação da dupla. De novo as pessoas voltaram a comentar o grande cantor que o Belutti é, assunto que acabou sendo deixado em segundo plano nos últimos anos, de novo as pessoas voltaram a falar da altíssima qualidade do dueto dos caras, de novo as vozes foram colocadas em primeiro plano. E tudo isso numa atmosfera simplista, com o quintal da casa do Sorocaba, o novo empresário da dupla, como cenário, e com instrumentos acústicos. A bateria foi abandonada e deu lugar a uma “percuteria”. E o violão ficou em evidência na maior parte dos arranjos, apesar do uso sutil da guitarra em algumas músicas.

Pela primeira vez é possível ver, na tela, o Fernando Zor desempenhando exclusivamente o papel de produtor musical, com ele tocando o DVD inteiro. Ele também é o responsável pelos arranjos e pelos violões e guitarras do disco. E aliás, é notável a evolução do Fernando Zor nessa função. Tanto que ele já está começando a se tornar o queridinho de alguns artistas veteranos, como Chitãozinho & Xororó, Rionegro & Solimões e alguns outros.

Apesar de um disco acústico não ser o ideal pra se mostrar virtuosismo e criatividade em arranjos, que ficam restritos aos violões e acordeon, este DVD até que traz alguns momentos memoráveis. “Domingo de Manhã”, por exemplo, mostra o quanto o “menos” pode ser “mais” às vezes. Aquela intro de pouco mais de 5 segundos com o violão, por exemplo, já ficou eternizada. Absurdamente simples mas ainda assim extremamente marcante.

Esta música, aliás, é só a cereja do bolo de um projeto com muitas canções de alto nível, como “Irracional”, “A gente pega fogo”, “Trânsito de São Paulo”, “Saudade d’eu” e “Aceito a sua decisão”, com Marciano. Mas o fato dela ter se destacado mais que as outras, coisa que eu já imaginava que aconteceria quando vi ela sendo gravada, só comprova que sair da mesmice e do normal pra apostar no ousado pode muito bem dar certo. Quem diria que uma canção com expressões como “módulo lunar” ou “hotel mil estrelas em Dubai” poderiam ser usadas numa canção romântica de forma tão perspicaz? Mérito do compositor Bruno Caliman, que tem se destacado justamente pelo caráter pouco usual de suas canções. Ora, o cara me manda um “velhinha gagá” na música “Te Esperando” e entrega aquela que eu considero a melhor música já gravada pelo Luan Santana. Coisas assim têm consagrado o Caliman como um dos melhores e mais criativos compositores da atualidade.

Sobre Marcos & Belutti, ao mesmo tempo em que a pressão sobre eles diminuiu, já que antes o mercado, querendo ou não, esperava muito mais deles devido ao alto volume de investimentos, eles ficaram mais à vontade com a própria carreira. Passaram a trabalhar sem aquele peso nas costas. A indicação ao Grammy Latino com o disco “Cores” já tinha aliviado e muito essa tensão e a música “Domingo de Manhã”, carro-chefe de um dos melhores discos da carreira da dupla, praticamente se equiparando ao primeiro DVD, jogou a pá de cal que faltava no ceticismo quanto ao sucesso dos dois. O meme que se tornou a postagem da música nas redes sociais por diversos artistas, não só sertanejos, só mostra o quanto o mercado e a classe artística esperavam por esse momento. É o melhor momento da carreira de Marcos & Belutti e, por se tratar de uma dupla com tanta qualidade, acaba sendo também uma vitória para a música sertaneja. Ainda há, e como há, espaço para duplas realmente boas. Sem falar que o DVD ainda acabou se tornando uma bela homenagem, já que o músico Rafa Salles foi o único membro da banda da dupla que tocou no disco, acompanhando os medleys com as músicas mais marcantes da carreira.

Nota: 10