Review – Marcos & Belutti – Cores

Review – Marcos & Belutti – Cores

O último review completo do ano. Nada mais justo que seja sobre o último disco lançado até o momento (isso se ninguém lançar nada até dia 31). Amanhã ou domingo, trarei aqui no Blognejo o prometido Mega Review, sobre 20 DVDs independentes, com 2 parágrafos para cada um, com direito a nota e possível colocação na lista de melhores do ano, que entra no ar segunda-feira. Enquanto isso, vamos à análise do novo disco da dupla Marcos & Belutti, “Cores”.

O disco acaba de ser lançado. Apesar de estar pronto há algum tempo, ainda faltava acertar alguns detalhes administrativos. Como a maioria de vocês já deve saber, a dupla Marcos & Belutti trocou de escritório. Aparentemente, o empresário que estava por trás da dupla até bem pouco tempo atrás resolveu deixar o ramo do gerenciamento de carreiras artísticas e negociou a venda dos direitos dos artistas que faziam parte da EBA Shows – Marcos & Belutti e o Trio Bravana. A FS Produções assumiu a dupla Marcos & Belutti, enquanto o Clube do Cowboy passou a cuidar do Trio Bravana. Não sei se o Amaury ficou com alguma porcentagem de algum dos artistas, só sei que ele resolveu se dedicar a um outro empreendimento na área de música: a casa de shows Brook’s Bar, da qual Marcos & Belutti também são sócios. A EBA Shows, ao que parece, foi extinta.

Acho relevante falar sobre esse processo de transição, afinal isso pode refletir diretamente na qualidade de um trabalho artístico. Mas como as coisas ali se deram aparentemente na mais santa paz de Deus, sem desavenças, creio que a produção do disco não tenha sido afetada. Outra hipótese levantada quanto a problemas paralelos que possivelmente poderiam afetar a produção dizem respeito ao próprio Dudu Borges, produtor de 13 das 14 faixas do disco. É que ele disse no Twitter recentemente que produziu o disco durante um período muito turbulento de sua vida.

Aliás, é bom ressaltar aqui que este foi no mínimo o sexto disco produzido pelo Dudu Borges num curtíssimo período de tempo. Em cerca de 3 ou 4 meses, ele arranjou e produziu os DVDs de Jorge & Mateus, Bruno & Marrone, João Bosco & Vinícius, Kleo Dibah & Rafael, Luiz Henrique & Fernando e este CD de Marcos & Belutti, além de alguns outros de artistas ainda em crescimento. Se somarmos isso aos problemas pessoais que ele enfrentou (segundo o que ele disse no Twitter, não me perguntem do que se trata), a mistura obtida pode ser nociva para a cabeça de qualquer um, principalmente para aqueles que, como ele, trabalham com ideias, com criação, e, portanto, precisam manter a mente o mais livre possível de influências prejudiciais externas.

Quem chegou a ouvir os outros discos e este do Marcos & Belutti, assim como eu, deve ter notado que o próprio Dudu parece ter se preocupado muito em buscar uma sonoridade diferente em cada um deles, justamente para não parecer repetitivo, ainda mais se levarmos em conta o curtíssimo período de tempo e a enorme quantidade de trabalhos que se acumularam. Até o ano passado, uma das maiores reclamações que algumas pessoas costumavam apontar sobre ele era o fato de, segundo essas reclamações, ele se repetir nos arranjos. Independente do que dissessem a respeito dele, o fato é que ele criou uma identidade nas suas produções. É muito fácil distinguir um disco produzido por ele dos que não o são.

Digo isso porque, este ano, apesar dele ter buscado uma sonoridade mais própria a cada disco, o CD “Cores” parece ter sido o que mais levou a marca dele. A bateria moendo quase que durante o disco inteiro, os arranjos priorizando principalmente o violão, a sanfona “arrastada” nas baladas, com o teclado destacado em uma ou outra música nos arranjos, mas sempre bem marcante na harmonia e as músicas começando quase todas já quase no clímax. Todas estas são características bem marcantes das produções do Dudu Borges. Desta vez, ao contrário do DVD mais recente, que também foi produzido por ele, a guitarra ganhou menos espaço.

A única música do disco que não foi produzida por ele foi “I love you”, que foi produzida pelo Giuliano Matheus, ex Luiz Cláudio & Giuliano e que agora faz parte da dupla Giuliano Matheus & Rodrigo, que também compôs a música. Foi ele que compôs e produziu também a música “Monalisa”, da dupla Guilherme & Santiago. É que ele tem uma exigência para as músicas que compõe: só libera para gravação se ele for o produtor. Provavelmente para manter intacta a ideia original de arranjo, que costuma ser uma das principais reclamações dos compositores, quando estes não gostam do resultado final da produção de alguma de suas músicas.

Assim como nos outros trabalhos, um dos pontos fortes é mesmo a letra das músicas, principalmente as compostas pela própria dupla. Metade das músicas do disco é de autoria do Marcos, algumas delas com o Belutti e alguns outros parceiros. Outro ponto forte, como de praxe, é a interpretação sensacional que a dupla sempre imprime em cada uma das músicas que canta. O Belutti ainda é um dos melhores intérpretes do sertanejo e o Marcos, sem dúvida, um dos melhores segundeiros em atividade.

Entre as canções que a meu ver se destacam neste disco, o topo da lista fica por conta da fantástica “Não te amo menos”, do Marcos e do Jhonatan Félix, que foi a que trouxe o arranjo mais sutil, com a música crescendo até explodir no refrão. A que abre o disco, “3, 2, 1”, traz um tema inédito e bastante criativo, com a música começando na contagem regressiva, o que eu achei uma sacada genial, ainda mais se tratando da abertura do disco. A música título do disco, “Cores”, além de “Saudade”, “Dois de Mim” e “Primeiro Inverno”, também se destacam com relação à bela letra. “Dois de mim” também pela pegada da interpretação, que soa um pouco mais juvenil mas por isso mesmo acaba ficando bem interessante e gostosa de se ouvir. “Primeiro Inverno” chama a atenção por conta da letra profunda e pela interpretação do Marcos, mais uma vez fazendo a primeira voz, assim como aconteceu com “Dupla Solidão”.

“Dois de mim”, junto com “Amor de Madrugada”, são as que ganharam o arranjo mais diferenciado, a primeira com uma guitarra que ajuda a dar à música o aspecto juvenil que eu mencionei. Em “Amor de Madrugada”, a bateria foi mixada de forma a dar uma sutil impressão de uma pegada mais eletrônica, auxiliada pela sanfona, cujo timbre ganhou uma sonoridade a la “Kuduro”, timbre que aliás está ganhando espaço dentro da música sertaneja recente.

O disco foi todo concebido antes da mudança de escritório. Por isso ainda não é possível perceber no som da dupla nenhum elemento comum às produções dos outros artistas da FS Produções. Mas é claro que o escritório acabou deixando sua marca. A música “Chega Chora”, composta pelo Thiago e alguns parceiros, acabou ganhando, depois do disco já ser liberado no Youtube, a participação da dupla Thaeme & Thiago. Essa versão com a participação da dupla é a que vai entrar no disco “físico”.

Aliás, sobre essa história do Youtube e do disco “físico”, é interessante falar sobre o processo de lançamento do CD. Ao invés dos meios tradicionais, a dupla lançou o disco primeiramente no Itunes (ou seja, pra baixar tem que pagar) e através de uma jukebox montada no Youtube, com direito a vídeos extras e todas as músicas do disco em versão “lyric video”. O CD mesmo (cuja imagem da capa ficou também bastante inusitada), aquele com encarte que a gente compra em loja e tudo mais, só deve ser lançado em março de 2013. Acabou que esse sistema de lançamento, inédito na música sertaneja, se mostrou uma tática muito inteligente. Quem deixou pra baixar o disco através dos sites piratas acabou tendo que se contentar com versões ripadas direto do Youtube, o que significa uma péssima qualidade de áudio. Este tipo de procedimento deve ser utilizado por mais artistas de renome muito em breve, o que é sensacional, diga-se de passagem.

A mudança de escritório parece ter agradado muito a dupla. Não porque consideravam o empresário anterior ruim, pelo contrário. É que a FS Produções é um dos escritórios mais importantes do mercado e mais arrojados. Durante a gestão “EBA Produções”, a dupla Marcos & Belutti acabou ficando marcada pelo alto investimento, principalmente na divulgação. A partir de agora, é bem provável que as decisões fortaleçam mais a agenda da dupla e outros elementos ao invés apenas do alto investimento em rádios e demais veículos de publicidade. Musicalmente, a dupla continua seguindo a mesma linha do disco anterior, mesmo com algumas mudanças bem pequenas e quase imperceptíveis relacionadas à sonoridade. Resumo da ópera: a qualidade continua alta. E a mudança de gestão não afetou em nada. Ainda bem.

Nota: 9,0