REVIEW: Marília Mendonça – Ao Vivo

Fechando o ano de acertos da Workshow, Marília Mendonça lançou um DVD com o intuito de finalmente dar o start em seu trabalho como intérprete depois de anos como compositora dos projetos dos demais artistas do escritório. A intenção inicial, que sempre foi apenas mostrar a sua enorme qualidade vocal para a partir de então ir construindo sua carreira, foi atropelada pelo seu enorme sucesso diante de um público que, quem diria, carecia de uma representante feminina na linha brega. De simples compositora à primeira dama da sofrência em menos de um ano.

É surpreendente a rapidez e o tamanho do sucesso que a Marília alcançou em regiões como o norte e o nordeste, acostumadas com artistas, geralmente homens, e com músicas sofridas nos mais variados e inóspitos temas relacionados às desilusões do coração, como Léo Magalhães, Pablo, Tayrone Cigano, etc. Simultaneamente, ela viu seu nome bombar de uma hora pra outra em Goiânia, que recentemente havia experimentado uma afeição por essa vertente com o Pablo em sua fase “Porque homem não chora” e que, pelo jeito, estava no aguardo de algo mais nessa linha.

É claro que boa parte do sucesso da Marília Mendonça vem de tudo o que ela emplacou como compositora desde que o sertanejo saiu da fase “arrocha” e migrou para a “bachata”, mais romântica e “sofrida”. Com o sertanejo novamente voltado ao romantismo, ela emplacou sucessos como “Até você voltar”, “Cuida bem dela”, “Calma”, entre várias outras canções. E a expetativa em torno de seu trabalho como intérprete crescia com o sucesso de suas composições.

Sua qualidade vocal já era de conhecimento geral no meio. Por isso, seu novo DVD tem um formato concebido justamente para valorizar esse seu lado. Ao invés de um show normal com a presença do público, o disco foi gravado sem espectadores dentro do estúdio Na House, do produtor Eduardo Pepato, num cenário que aproveita os elementos vintage do recinto, numa atmosfera totalmente intimista. Mas o cuidado em montar o repertório de forma a destacar canções com temas voltados quase que exclusivamente às decepções amorosas deu ao DVD um caráter muito maior que o de mero portfólio vocal da Marília Mendonça.

O DVD acaba dando ao gênero sertanejo, de fato, sua primeira grande diva “brega”, na falta de uma palavra que melhor defina esse subgênero. O repertório é dominado por músicas que falam ou sobre a mulher apaixonada por um homem casado (“Sentimento Louco”), ou sobre a mulher que avisa ao porteiro que o namorado não tem mais autorização para subir ao apartamento (“Alô Porteiro”), ou sobre a mulher que não consegue mais dar uma chance a um novo amor por conta dos erros do anterior (“Esse cara aqui do lado”), ou sobre a mulher fiel que não aceita as investidas de um admirador (“Me desculpe mas eu sou fiel”), ou sobre a mulher traída que expulsa o traidor de sua vida (“Infiel”), etc, etc, etc. Deu pra sentir o drama?

Mas como tudo que é demais acaba não fazendo muito bem, o DVD consegue evitar que a Marília mergulhe por completo no brega ou na sofrência através de músicas mais voltadas a um sertanejo mais, digamos, tradicional, com vaneiras como “Como faz com ela”, “Meu cupido é gari”, “4 e 15”, “O que é amor pra você”, entre outras. Acontece que, mesmo nas músicas que fogem da sofrência completa, o timbre vocal da Marília trata de deixá-las sempre com um clima de “fim de noite”. E falo isso como um grande elogio. Parece que tudo que ela canta conversa diretamente com a parte do cérebro que controla o sofrimento amoroso. Principalmente nos momentos em que sua interpretação lembra a da Alcione (“Me desculpe mas eu sou fiel” é Alcione pura).

Ao colocar no DVD apenas uma participação especial, Henrique & Juliano, nota-se um cuidado em fazer com que ela cresça sozinha num primeiro momento. Ela participou de todos os outros projetos do escritório gravados esse ano, exceto o da dupla Marcos & Fernando. E sem querer causar discórdia entre ela e os colegas, o fato dela estar sendo preparada pela Work Show desde os 12 anos de idade faz com que o trabalho em torno dela pareça ser mais cuidadoso. E o resultado tem sido mais do que positivo. Nem o próprio escritório esperava que ela iniciasse de fato um projeto como intérprete e tudo acontecesse assim de forma tão rápida.

Marília Mendonça representa uma necessidade da música sertaneja, essa é a verdade. Ela é diferente, em todos os aspectos. Assim como Maiara & Maraísa, fala a um público feminino que nunca havia se sentido tão bem representado por suas semelhantes. Canta o que a mulher normal sente. E ao levantar a bandeira do brega, vai ainda mais além e abraça um público que geralmente não é tão explorado pelos demais artistas. O resultado óbvio é que ela está nadando de braçada, praticamente sem “concorrência”. E o melhor de tudo é que ela faz isso com a propriedade de quem parece já ter anos de carreira como intérprete, mesmo tendo passado tanto tempo se dedicando apenas às composições. O futuro lhe parece bem promissor e isso não poderia ser mais gratificante.

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