REVIEW: Matheus & Kauan – Face a Face

REVIEW: Matheus & Kauan – Face a Face

Matheus & Kauan são atualmente a principal aposta da Audiomix. As redes sociais têm pegado fogo com brincadeiras e provocações entre escritórios nos últimos meses, com a Audiomix sempre levantando a bandeira da dupla, claro. Mas o mais interessante de se observar a respeito deles é que há, ainda, uma dificuldade em alinhar a busca pelo primeiro lugar com a musicalidade da dupla. É que o trabalho tem sido feito como se a dupla fosse mais uma no padrão “modinha”, do tipo que se vale de hits para se destacar no mercado, enquanto na verdade os dois parecem colocar prioridade sempre na qualidade musical através de músicas de altíssimo nível, mas cujas características não batem com as músicas de padrão mais “comercial”.

Já no primeiro DVD, a dupla demonstrava uma preocupação maior com a qualidade do repertório do que com o potencial de “explosão” do mesmo. Ora, o Matheus tem se destacado como compositor nos últimos anos justamente pela qualidade de suas letras. A consequência natural é que muitas delas se tornassem sucesso, já que diversos grandes artistas apostaram nelas, mesmo sem elas seguirem uma fórmula padrão para tal. Não vemos, por exemplo, refrões chiclete nas músicas escritas por ele. Compondo quase sempre em parceria com o Felipe Oliver, Matheus ficou conhecido por criar letras complexas, o que chama ainda mais atenção vindo de um jovem que mal ultrapassou os 20 anos de idade.

O disco “Mundo Paralelo Ao Vivo” exaltou muito disso. Foi um projeto cuja qualidade musical, ancorada nos ótimos arranjos e na qualidade das letras, foi o grande destaque. E no novo disco, “Face a Face”, a preocupação é deixar a dupla ainda mais “solene”. Apesar de não ter mais o Matheus como protagonista do repertório, trazendo desta vez músicas de vários compositores diferentes, o fato é que o disco vai ainda mais além do que foi o “Mundo Paralelo Ao Vivo” ao tentar dar às músicas da dupla o máximo de requinte possível.

A maior evidência disso é a participação, em praticamente metade do disco, da Orquestra Villa-Lobos, o que pode ser considerado uma ousadia, já que a dupla ainda é relativamente recente e esse tipo de incremento na produção costuma acontecer quando o artista já tem um certo tempo de carreira ou um status consolidado no mercado. Isso só demonstra a preocupação da dupla em manter o nível cada vez mais alto no que diz respeito à sonoridade.

E sobre o repertório, mesmo que o Matheus não tenha nesse disco uma participação tão intensa como compositor, o projeto eleva ainda mais a qualidade das letras e leva a musicalidade da dupla para uma linha ainda mais romântica e, portanto, menos imediata. O resultado dá pra ser visto em músicas impecáveis como “Ser Humano ou Anjo”, “Que sorte a nossa”, “Face a Face”, “Abelha sem mel”, “Me amar amanhã” e “Meu oxigênio”, por exemplo.

Dessa vez sob a tutela do produtor Eduardo Pepato, que saiu de sua zona de conforto para trabalhar num grau maior de erudição neste disco, o trabalho é o mais sério da dupla até então. Além da orquestra, o vestuário da dupla também remete a algo mais formal, com os dois vestindo terno durante metade do disco e voltando ao “normal” na outra metade.

E se cabe aqui uma repetição de um argumento que eu sempre usei, a voz do Kauan continua sempre causando um impacto positivo quando ele faz a primeira. Neste disco, ele canta “Que sorte a nossa” e “Abelha sem mel”, por exemplo. O que não tira o mérito do Matheus como intérprete, afinal a cada disco o Matheus tem melhorado cada vez mais, mas talvez fosse o caso de dar ainda mais espaço ao Kauan, justamente pela identidade diferenciada da sua voz.

O novo DVD acaba sendo um disco ligeiramente diferente do anterior. Enquanto o “Mundo Paralelo – Ao Vivo” era mais pop, este é mais romântico, mesmo com algumas canções agitadas. Acontece que, mesmo com músicas nessa linha, é nas românticas e sérias que a dupla se destaca mais. Daí o “problema” que eu apontei lá no começo: a intenção de trabalhar a dupla num formato mais “povão”, mais “verão”, parece contradizer a intenção dos dois de priorizar as músicas que fazem com que a dupla tenha tanta qualidade. Este novo disco, por exemplo, foi praticamente todo regravado posteriormente num cenário sunset de praia, às margens do lago Paranoá, em Brasília, com a intenção de trabalhar a dupla no Nordeste durante o verão. A grosso modo, eliminaram toda a erudição e requinte do disco a fim de torná-lo aparentemente mais “vendável” a um grande público.

Olhando o trabalho que a dupla tem feito no Nordeste como exemplo, é certo que a Audiomix tem portões abertos por lá e isso tem se refletido no sucesso que Matheus & Kauan têm obtido em suas apresentações naquela região. Em contrapartida, o que tem acontecido, a meu ver, é que o potencial da dupla nos estados mais ao sul talvez não esteja sendo tão bem explorado, em nome dessa facilidade que o nordeste apresenta. E, a julgar pelos artistas que têm feito sucesso nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, talvez fosse o caso de enfim explorar melhor a dupla para estas bandas. Muitos artistas numa linha similar à da dupla tem obtido excelentes resultados por aqui, mesmo sendo desconhecidos no Nordeste.

Então, o que temos no fim das contas é uma encruzilhada. O escritório parece querer trabalhar a dupla num determinado formato, mas a musicalidade que eles construíram vai para um caminho diferente. Musicalmente, é fato que eles vêm construindo uma carreira brilhante, com trabalhos de altíssimo nível em sequência. Pode ser que o equilíbrio, com o intuito de aproveitar as portas abertas pelo escritório e sua já conhecida forma de trabalho, talvez seja a decisão mais sensata, afinal é o que pode gerar resultados mais imediatos. Só espero que o consenso seja logo atingido e a dupla não precise abandonar essa qualidade crescente e cada vez mais admirável em nome de uma consolidação mais imediata.