REVIEW – Paula Fernandes – Multishow Ao Vivo – Um Ser Amor

REVIEW – Paula Fernandes – Multishow Ao Vivo – Um Ser Amor

Paula Fernandes já é uma artista de gênero bem definido. Seu trabalho sempre teve uma originalidade muito evidente, tanto por conta do estilo concebido por ela própria e sua equipe quanto pelo repertório quase sempre completamente autoral. Esse ano ela cogitou gravar músicas de outros compositores, chegou a fazer campanha nas redes sociais pedindo que eles enviassem canções, mas aparentemente ninguém foi contemplado. O que eu não considero negativo, já que boa parte de sua sonoridade se deve justamente ao fato de ela priorizar as próprias composições em seu repertório. E convenhamos que ela compõe absurdamente, né?

Seu novo DVD continua praticamente de onde o DVD anterior tinha parado, com direito a um CD entre os dois, todos com a mesma fórmula básica. Uma canção composta em parceria com o Zezé, uma guarânia, uma música em voz e violão, uma com tema rural, um pout pourrie de vaneiras, etc. Desta vez, no entanto, as coisas ganharam proporções maiores, já que antes ela era uma cantora em busca de reconhecimento e hoje ela é uma estrela reconhecida que só precisa continuar consolidando o reconhecimento conquistado sem deixar a peteca cair.

O cenário do primeiro DVD, com uma árvore cenográfica e cenas que se modificavam no LED ao fundo de acordo com cada música, evoluiu para um cenário bucólico bem mais amplo, com direito a um lago cenográfico e uma canoa, fora as cenas muito melhor elaboradas no painel de LED, além das diversas plantas espalhadas pelo cenário. Sem contar os elementos cenográficos inseridos em algumas canções, como o banquinho de praça, o cavalo (que deixou sua marca no dia, claro, cena esta que infelizmente ficou de fora do disco, hehe), e outros.

A escolha pelo Rio de Janeiro como palco dessa gravação, quem diria, se mostrou um grande acerto. Talvez a proximidade da Paula com a Rede Globo, sem dúvida uma das suas maiores incentivadoras desde o começo, tenha facilitado sua aproximação com o público carioca. O público interagiu muito durante as canções conhecidas. Nas canções inéditas, entretanto, a interação foi mais sutil, o que é normal para canções ainda desconhecidas. Mas pelos celulares sempre ligados e filmando tudo, dá pra perceber o grande interesse do público por ela. Quem diria que veríamos isso na cidade menos sertaneja do Brasil.

O respeito conquistado pela Paula no circuito sertanejo rendeu duas participações de peso neste DVD: Zezé di Camargo & Luciano (o Zezé é um dos seus pouquíssimos parceiros habituais de composição) e Roberta Miranda. A participação de Zezé & Luciano remete a um vídeo da infância da Paula cantando “Coração na Contra-mão”. E foi esta a música escolhida para a participação da dupla. E a da Roberta não poderia ser mais providencial. Sempre considerei a Paula Fernandes a Roberta Miranda contemporânea. Um incrível talento na voz e na caneta. Uma foi a grande rainha do sertanejo há 20 anos. A outra é a rainha do sertanejo contemporâneo. A Paula cantando com a Roberta uma das principais músicas da carreira desta soou como o começo de uma passagem de bastão, que pode ser completada com as duas cantando juntas uma música da Paula. Quem sabe não vejamos isso um dia.

Um dos poucos aspectos controversos do disco, entretanto, continua sendo a grande preocupação da Paula com o apelo visual. Ela já é linda por natureza. Não vejo, portanto, necessidade de chamar ainda mais a atenção para a sua beleza através de roupas cada vez mais curtas. As músicas que ela cantou com vestidos longos a partir da cena do cavalo, inclusive, tiveram um efeito até melhor sem precisar chamar tanta atenção para a sua “formosura”, já que a apresentaram de forma angelical, o que tem muito mais a ver com seu trabalho, afinal de contas as suas canções não tem qualquer apelo sensual.

Talvez essa preocupação exagerada com o aspecto visual seja resquício da sua influência country, que mais uma vez a Paula Fernandes escancarou neste DVD. É sabido que nos EUA as cantoras são meio que compelidas a se valerem da beleza para se manterem no mercado ou para conquistarem espaço, o que atinge inclusive o gênero country. E o fato é que a Paula é uma cantora country nascida no Brasil. Os trajes, o jeito de cantar, a presença de palco, tudo isso remete ao country. E o DVD traz ainda um pout pourri de canções do gênero, cantadas em inglês, e a participação da Taylor Swift através do telão na canção “Long Live”. Então é até compreensível que as preocupações da Paula Fernandes sejam as mesmas das cantoras country americanas, mesmo o Brasil sendo um mercado completamente diferente. Em tempo, recentemente começou a circular uma foto da Paula com a Shania Twain, sua principal influência no gênero country, o que parece significar uma grande parceria a caminho.

O trabalho da Paula continua sendo de altíssimo nível, original e criativo. O seu repertório, mais voltado a canções lentas, sempre levanta preocupações no mercado quanto à qualidade do seu show, preocupação esta que eu sempre achei um tanto quanto exagerada. Afinal de contas nem só do circuito de festas vive a música sertaneja. Onde é que ficam os shows corporativos, os teatros, os festivais alternativos? Esses tipos de evento têm tudo a ver com a Paula Fernandes. É claro que o show da Paula é para um público mais selecionado, coisa que não considero um problema, ao contrário de uma considerável parcela de profissionais do meio. Para quem gosta de ouvir uma boa música, cantada por uma bela voz de uma mulher que além de tudo é linda, o trabalho da Paula continua sendo um dos mais interessantes do mercado. É só saber exatamente qual seu público alvo.

Nota: 9,5