REVIEW: Renato Teixeira e Sérgio Reis – Amizade Sincera II

REVIEW: Renato Teixeira e Sérgio Reis – Amizade Sincera II

O vencedor do Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Sertaneja em 2015 sabiamente concorreu numa categoria que provavelmente facilitaria sua vitória. Quem acompanha essa premiação deve ter notado que uma categoria foi suprimida esse ano: a de “melhor álbum de música regional brasileira” ou “melhor álbum de raízes brasileiras”.  Não houve premiação porque não houve número suficiente de inscritos. Concorrendo, portanto, como álbum de música sertaneja, a vitória foi relativamente fácil.

Por que essa observação logo de cara? Ora, além de mostrar que os jurados do grammy latino sempre vão acabar pendendo mais para o lado do regional e menos para o sertanejo comercial (já são dois anos seguidos), é altamente simbólico que dois grandes artistas que representam essa vertente que muitos chamam de música regional – o Renato Teixeira num grau muito maior – enfim aceitem assumir o rótulo “sertanejo”, mesmo com algumas pessoas insistindo em chamar até de “folk”, só pra fugir do rótulo. Não que o Sérgio Reis não tenha assumido o rótulo sertanejo desde sempre, mas no caso do Renato Teixeira sempre houve essa vírgula no meio do caminho. Renato, Almir Sater, entre diversos outros artistas que cantam a música sertaneja com um quê de MPB e que, por isso, não são sempre elencados no mesmo rol dos demais artistas do segmento. E o engraçado é que, pelo menos em comparação com a primeira edição do projeto “Amizade Sincera”, este acaba sendo ligeiramente mais regional e menos caipira, pelo menos no repertório e nas participações.

Ao invés de celebrar o vasto e belo repertório dos dois artistas como no primeiro “Amizade Sincera”, desta vez Renato Teixeira e Sérgio Reis optaram por passear por um repertório de clássicos regionais e caipiras e também por músicas que celebram a amizade, mais do que apenas na música título, como no DVD anterior.

Além de uma regravação de “Canção da América”, uma das mais importantes descrições da amizade em forma de canção da música brasileira, o disco traz pelo menos mais 3 faixas que falam deste tema: “Eu e meu irmão”, canção inédita do Renato para este projeto e que celebra o formato “dupla de irmãos” dominante no gênero sertanejo desde o começo do gênero, “A visita da canção” e “Gratidão”, música que o João Carreiro compôs e cantou neste DVD para agradecer o convite para gravar esta participação. Aliás, quem acompanhou toda a saga do fim da parceria entre o João Carreiro e o Capataz sabe que esta participação foi crucial para o fim da dupla e, ao mesmo tempo, para que o João conseguisse superar a depressão.

Entre os clássicos regionais e caipiras, estão “Pingo D’água”, “Chuá, chuá”, “Você vai gostar” (aquela da casinha branca), “Calixbento”, “De papo pro ar”, “Cabecinha no ombro”, “Cuitelinho”, entre outras. Destaque para a releitura de “Deus e eu no sertão”, que abre o disco, alçada aqui à condição de clássico caipira. Lembrando que no primeiro DVD eles haviam gravado “Vida boa” com a participação dos próprios Victor & Leo.

E no eterno flerte da música “regional” sertaneja com a MPB, já exemplificado no resgate de “Canção da América”, Renato e Serjão ainda resgataram o clássico “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues, além de terem convidado o grande e lendário Toquinho para participar do DVD. Em outro momento inusitado, Amado Batista saiu da sua zona de conforto, que muitos chamam de “brega”, para cantar música caipira de fato. Aliás, as duas canções interpretadas por ele, “Pingo D’água” e “Viola Cabocla”, são as duas mais tradicionalmente caipiras do disco. Fechando as participações, Chico Teixeira, filho e herdeiro musical do talento do Renato, cantou duas faixas.

A atmosfera desta vez é muito mais intimista do que no primeiro DVD. Com um público mais seleto e um cenário mais simples, o foco acabou sendo mais na sempre excelente musicalidade e na qualidade do vídeo captado, que enche os olhos, mesmo com o cenário enxutinho. Sérgio Reis arremata seu segundo Grammy Latino seguido. E Renato Teixeira segue fazendo algo que parece adorar: dividir discos com seus amigos da música. Este é o segundo com Sérgio Reis, sem falar dos discos já gravados com Rolando Boldrin, Pena Branca & Xavantinho, entre outros. E, há poucas semanas, foi lançado o mais esperado: um disco que celebra a eterna parceria entre ele e Almir Sater. Vou fazer o possível para escrever sobre este projeto antes do ano acabar.

Os quase 60 anos de amizade entre Sérgio Reis e Renato Teixeira, que além de tudo são vizinhos, dão a entender que este é apenas mais um DVD de uma longa série. Ainda há muito o que se explorar nessa parceria. E os dois se sentem à vontade até para puxar a orelha um do outro sem que isso vire uma mágoa posterior. Ora, quem acompanhou a entrevista do Blognejo no ano passado com o Renato Teixeira, com certeza o viu lamentando o fato do Serjão ter que atrasar temporariamente a divulgação deste disco por conta da campanha política. Mas o atraso acabou não causando qualquer efeito negativo no resultado obtido com este projeto. Ele segue sendo celebrado em turnê pelo Brasil afora. E agora com um Grammy Latino a tiracolo.