Review – Rick & Renner – Inacreditável o Poder do Amor

Review – Rick & Renner – Inacreditável o Poder do Amor

Em dezembro de 201o, exatamente há dois anos, eu postei o que seria o último review de um disco da dupla Rick & Renner. Na época citei o fim da dupla como sendo algo previsto e até esperado. A trajetória desembalada do Renner por caminhos cada vez menos ligados ao profissionalismo necessário à manutenção da dupla decepcionavam seu parceiro Rick. Mesmo sendo o Rick o cabeça da dupla (compositor das músicas, produtor dos discos e tomador das decisões), o que em teoria significava que o Renner não precisava ser tão responsável assim, era óbvio que a dupla não sobreviveria apenas mediante a vontade de apenas um.

Dois anos depois, cá estamos. Após o que o próprio Rick chamou de “uma boa proposta” da MC3, a dupla resolveu retomar os trabalhos, com uma aparente mudança de postura do Renner. Dia desses a dupla realizou, com o apoio da MC3, um evento oficial de reapresentação em São Paulo. Nesses dois anos, o Rick passou inclusive pela Talismã, com o nome de Rick Sollo. O Renner iniciou também um trabalho solo com o nome de Renner Reis. Cada um deles lançou um disco. O do Rick tinha inclusive a participação do Eduardo Costa e do Leonardo.

O retorno da dupla reacende o debate sobre o quanto uma separação pode ser prejudicial para uma dupla. No caso da dupla Rick & Renner, como já era de se esperar, a separação pareceu ter sido bem mais prejudicial para o Renner do que para o Rick. Não que isso signifique que o Rick tenha se dado muito bem enquanto cantou sem o Renner. Se a dupla voltou, é provável que a separação não tenha sido benéfica para nenhum dos dois.

O disco que reinaugura o projeto Rick & Renner, “Inacreditável o poder do amor”, mantém basicamente a mesma linha que a dupla já costumava trabalhar, tanto em questão de sonoridade quanto em repertório. Das canções do disco, que eu me lembre, pelo menos duas foram resgatadas. “Dança Comigo”, atual canção de trabalho, fazia parte do disco “Happy End”. “Em qualquer lugar do mundo”, que traz o arranjo mais bonito e profundo do disco, já havia sido gravada pelo Daniel no disco de mesmo nome produzido pelo próprio Rick.

Como de praxe, o repertório é quase 100% escrito pelo próprio Rick. Das 15 músicas do disco, apenas 3 não levam a assinatura dele, incluindo a música de trabalho, escrita por Valtinho Jota, e a bela guarânia “O culpado sou eu”, de autoria do nosso parceiraço Thiago Elias, do Blog Balaio, que anda precisando atualizar o blog também, pô, hehe. E a linha, como eu disse, é basicamente a mesma dos velhos tempos de Rick & Renner. Alterna canções dançantes com românticas, mas com foco nestas, sempre com uma ou outra com o refrão em pagode (no caso, a música que dá título ao disco), com uma canção com tema alusivo ao sertão encerrando o disco.

Neste CD, as diferenças com relação aos outros discos ficam por conta mesmo da guarânia “O culpado sou eu” e da rancheira “Lágrima de um homem”, ritmos que não apareciam tanto assim nos outros discos, além da ousadia, em se tratando de uma dupla veterana, de gravar um arrocha, “Ai que gostoso”, que apesar de ter um tema bem parecido com a maioria dos arrochas de hoje em dia, traz uma pegada um pouco diferente, que até faz a gente pensar que ela talvez não seja um arrocha, mas alguma outra coisa parecida. O CD traz também uma música com temática gospel que, por citar episódios bem específicos da bíblia, me fez até pensar que o Rick, devoto ferrenho de Nossa Senhora Aparecida, teria se tornado evangélico.

Sobre o aspecto musical do disco, não há muito o que acrescentar sobre o Rick produtor que todo mundo já não saiba. Desde sempre seu talento nessa área foi evidente. Ele tem um “paladar” muito apurado na escolha dos timbres do disco. Os arranjos, criados desta vez pelo Marquinhos Nascimento e uma faixa pelo Orlando Baron, são sempre de muito bom gosto, principalmente se tratando de um estilo um pouco mais tradicional. O foco foi, como eu disse, mais nas canções românticas. O disco traz apenas 3 canções mais agitadas, incluindo a “Ai que gostoso”. Levando em conta o atual momento do sertanejo, onde a quantidade gigantesca de canções de balada começa a fazer o público clamar por um pouco mais de romantismo, o que reflete no consenso geral de que esse tipo de música vai voltar, creio que esta seja uma decisão acertada.

Só tem um porém. Ouvindo o disco, a impressão que se tem é que a intenção da dupla é retomar exatamente de onde pararam. Rick & Renner como já eram conhecidos. Se for isso mesmo, o disco atende muito bem o propósito. Mas se a intenção por um acaso for competir no atual mercado sertanejo, aí a coisa complica um pouco mais. Se bem que não creio que esta seja a intenção. A dupla Rick & Renner pelo jeito pretende mesmo continuar fazendo um trabalho para quem gosta de um estilo um pouco mais tradicional. Basta saber para quem vender o show. Ainda há bastante espaço para esse estilo junto ao público. A dupla já se desligou da MC3, o que soou meio estranho aos olhos do mercado, principalmente levando em conta que foi essa empresa que promoveu o retorno. Mas independente dos motivos que levaram a dupla a decidir por administrarem sozinhos a própria carreira, parece ser, sim, possível voltar ao mesmo patamar de antes. Mas desta vez, quem sabe, como parceiros de fato e não mais como o pai severo e o filho rebelde de outros tempos.

Nota: 8,5