REVIEW: Victor & Leo – Irmãos

Depois de anos, a dupla Victor & Leo mudou. No disco “Viva por mim”, tivemos um grande “grito de independência”, na falta de uma expressão melhor, do Leo. Pela primeira vez, ele assumiu as rédeas do repertório e da produção, funções que o Victor exercia desde o começo. O resultado foi positivo, jogando por terra qualquer dúvida que pudesse haver quanto a essa atitude inusitada do Leo. Já no DVD “Irmãos”, ao invés do Leo permanecer à frente, o que temos é um equilíbrio, de fato. Uma divisão literal de funções.

Cada um se dedicou ao que lhe cabia, escolhendo metade do repertório e produzindo cada um por si as músicas escolhidas, com a ajuda do produtor Beto Rosa. Dessa forma, temos pela primeira vez, dividindo o mesmo espaço, as duas facetas da dupla: o Léo descolado, político, e preocupado em absorver influências positivas do mercado, e o Victor cult, bucólico e ao mesmo tempo erudito, e ainda extremamente fiel à identidade criada e consolidada nacionalmente desde 2007.

O que poderia significar um disco irregular, no entanto, funciona muito bem. A dupla é conhecida por conta da grande diferença de personalidade dos dois irmãos. Mas, ao contrário de muitas outras duplas que passam pelas mesmas diferenças algumas chegando inclusive a encerrar a parceria justamente por conta disso, Victor & Leo abraçaram essa condição como parte da própria carreira. O nome do disco, aliás, não poderia ser mais pertinente: “Irmãos”. Não pela melação clichê que vemos em casos em que dois irmãos parceiros de dupla trocam juras de amor mas um acaba sempre se submetendo aos desejos do outro, mas por ser um disco que respeita a individualidade de cada um e deixa claro que há espaço para ambos.

Levando isso em conta, é importante analisar cada um dos dois lados do disco por vez. Levando em conta o lado Victor, temos basicamente o mesmo folk com os arranjos de violão e um repertório com músicas de interpretação mais sutil, com excessão da ótima “Conheço pelo cheiro”, que estava presente no último disco e foi novamente incluída neste DVD. Entre as melhores contribuições inéditas do Victor para o disco, estão a música “Momentos”, na qual ele faz a primeira voz e que lembra algumas das melhores canções da história da dupla, como  “Deus e eu no sertão”, e “Estrada Vermelha, que além de trazer o lado sempre excelente de suas letras bucólicas, trouxe a participação de Milionário & José Rico, na última gravação oficial da dupla antes da morte do José Rico, o que por si só já garante enorme valor histórico para este DVD.

Indo para o lado “Leo” do DVD, temos uma preocupação maior com o mercado. Além de uma pegada mais comercial nas músicas, temos as diversas participações especiais de artistas dos mais variados segmentos que são tidos como os novos grandes representantes de suas respectivas vertentes. Sem falar também da participação dos artistas do escritório recém montado pelo Leo.

O DVD trouxe Henrique & Juliano, Wesley Safadão e Banda Malta, que são ou estão entre os maiores representantes do sertanejo, do forró e do rock brasileiro na atualidade. Henrique & Juliano gravaram a música mais comercial do disco, “10 minutos longe de você”, em um inusitado e inédito momento em que Victor & Leo gravaram uma bachata, ora vejam. Música incrível, por sinal. Já a participação do Wesley Safadão, no entanto, talvez não tenha sido tão bem aproveitada, já que a música, apesar de boa, não faz muito jus ao seu estilo mais agitado. A banda Malta gravou duas músicas para o DVD, mas apenas a inédita “Anjo ou Fera” entrou na edição. A ótima versão de “Borboletas” gravada com eles para o disco acabou não sendo incluída, sabe-se lá por que. Com direção visual a cargo do Fernando “Catatau” Trevisan, o DVD destaca o conceito “Irmãos”, com o cenário principal composto pelas silhuetas dos dois viradas uma para a outra.

As participações dos artistas do novo escritório do Leo também surpreenderam. Lucyana Villar cantou duas canções. Victor Freitas & Felipe, por sua vez, cantaram uma, “Vai me perdoando”, que acabou saindo uma das melhores do disco. Fora das participações dos intérpretes, é importante destacar ainda uma outra figura que se sobressaiu nesse disco. Com 6 músicas no projeto, incluindo “Vai me perdoando”, a compositora Paulinha Gonçalves, que compôs a música “Colo” com o Leo, gravada por Jads & Jadson com a participação da dupla Victor & Leo, vem se mostrando um adido valioso à atual fase do trabalho dos dois, já que ela é talvez a principal responsável por despertar no Leo esse lado compositor até então inerte e apenas em algumas ocasiões demonstrado. Sua presença marcante na musicalidade recente da dupla é ainda mais bem-vinda por conta da semelhança da sua linha de composição com aquela já praticada pela dupla, o que evita um choque em quem talvez não tenha interesse em deixar de ouvir o lado musical que o Victor ajudou a consolidar.

Eu continuo sendo um admirador dessa atual fase de Victor & Leo, justamente por ela proporcionar uma segunda visão de uma dupla com tanto a oferecer para a música brasileira. Victor Chaves continua sendo genial, o que é sempre bom lembrar, mas o protagonismo assumido pelo Leo nos últimos anos dá à dupla uma necessária abertura a novas influências. É ótimos vê-los buscando uma melhoria no relacionamento com os demais artistas do mercado e deixando de lado aquela velha lenda de que eles “não se misturam”. No lado musical, então, isso é ainda mais importante. Na medida em que a dupla se abre a novas parcerias, é natural que as novas parcerias também se abram às influências que podem ser trazidas pela dupla. E olha que são muitas. E sobre a diferença de personalidades, enquanto a dupla conseguir manter esse equilíbrio de forma saudável, poderemos ver pela frente muitos ótimos trabalhos vindos dos dois. Basta que o respeito ao espaço de cada um continue sendo o principal elemento dessa fase atual.