REVIEW – Zezé di Camargo & Luciano – Teorias de Raul

Tornou-se difícil escrever sobre Zezé di Camargo & Luciano nos últimos anos. O próprio Zezé disse em entrevista recente que não gostava tanto de alguns de seus álbuns mais recentes, mais precisamente os que haviam sido gravados durante o período em que ele mais enfrentou problemas relacionados à voz, tabu do qual ele também não gosta nem um pouco de falar. Além disso, a dupla parece preferir ser notícia nos sites e revistas de celebridades, muito mais do que nos veículos relacionados à música. O resultado disso é uma perda gradativa da relevância do trabalho de Zezé di Camargo & Luciano com o passar dos anos, em contraponto ao aumento da importância da imagem deles para os veículos de famosos.

A exposição excessiva da vida pessoal da dupla, principalmente a do Zezé, ofusca quase toda a atenção que deveria ser dada ao trabalho deles. Afinal de contas, estamos falando de Zezé di Camargo & Luciano, uma das duplas mais bem sucedidas da história. Cada álbum deveria ser o assunto principal de qualquer entrevista com os dois ou matéria jornalística e não um mero complemento ou anexo em uma matéria sobre a vida pessoal.

Sem falar que um dos assuntos sobre o qual as pessoas mais cobram que se fale a respeito da dupla é a condição vocal do Zezé. Pois bem, já que insistem tanto pra saber a minha opinião, me limito a dizer o seguinte: o cara lança disco e vende horrores, faz shows e os fãs comparecem em peso… você, leitor do Blognejo, pararia de cantar, como tanta gente acha que ele deveria? Eu não. Até já fui da turma que defendia um tempo longe dos palcos para o Zezé, mas, depois de analisar bem, percebi que se ele se sente bem assim e se as pessoas ainda enlouquecem só de olhar pra ele em cima de um palco, não faz diferença. Se a perda da qualidade vocal do Zezé, ocasionada, segundo rumores, por uma cirurgia mal realizada nas cordas vocais, refletisse em perda consistente de fãs ou queda brusca na vendagem de discos, ele provavelmente pararia. Mas isso não aconteceu. Muito mais arriscado para a carreira dele, ouso opinar, é o jeito com que ele se comunica com alguns fãs mais atrevidinhos pelo Instagram, mas isso já é uma outra história.

O novo disco, “Teorias de Raul”, é bem parecido com a mais recente discografia da dupla. O disco “Double Face” havia quebrado uma sucessividade de discos não muito bons dos dois e desde então os projetos lançados têm sido todos bons. O novo CD evidencia um Zezé recuperando aos poucos sua identidade musical, com influência de pessoas que trazem à tôna o Zezé de outros tempos, com composições que remetem mais aos velhos tempos.

A parceria com o Danimar, por exemplo, compositor de grandes hits da carreira do Zezé, rendeu 4 das melhores faixas deste disco, todas com as mesmas características das grandes canções compostas pelo Zezé em outras épocas, principalmente o uso intenso do artifício da metáfora nas letras. A amizade com o Gusttavo Lima também rendeu uma música, do próprio Gusttavo, com as melhores características interpretativas do Zezé, como os tons altos no refrão. Além da inclusão da música “Do outro lado da moeda”, presente no CD do Gusttavo e que traz a participação de Zezé di Camargo & Luciano, como bonus track.

A escolha ousada da música de trabalho, a ótima “Flores em Vida”, também mostra um pouco mais de iniciativa, ao tirar a dupla da zona de conforto e mostrá-los com uma sonoridade diferente. A música é “Victor & Leo” puro, até nos arranjos, apesar da composição ser do Alberto Araújo e do Felipe Duran, outro nome bacana da nova música sertaneja, o que mostra que a dupla está antenada, sim, com novidades interessantes.

O resgate de alguns aspectos bacanas de uma fase mais originária da dupla também é observado na ótima “Seca Verde”, música engajada que reivindica, de forma simbólica, a transposição do Rio São Francisco, há anos parada e que aparentemente está enfim sendo retomada. Esse lado engajado da dupla já foi visto em músicas como “Meu País”, que chegou a ser tema da campanha presidencial do Lula, que teve o Zezé como um dos principais garotos propaganda, “Bandido com Razão” e “Menino de Rua”, do segundo e quarto discos da dupla, respectivamente, que falavam sobre, claro, meninos de rua, mas de uma forma completamente sertaneja e genial. Músicas incríveis, diga-se de passagem.

Outra evidência do resgate de características embrionárias da dupla está na música “Teorias de Raul”, que dá título ao disco. É uma homenagem ao Raul Seixas, com uma letra que remete aos grandes clássicos do Maluco Beleza e uma vocalização nos arranjos feita por alguém com a voz muito parecida com a dele. O lado fã da dupla já tinha ficado evidente em músicas como “Tente outra vez”, do próprio Raul Seixas e que a dupla havia regravado no quarto disco, e “Saudade dos Beatles”, gravada no quinto disco.

Apesar da participação meio frustrante do Roupa Nova na mediana “Depende”, e da estranheza causada por faixas como “Nada é igual”, versão de “I can see Clearly Now”, do Jimmy Cliff, ou “Pára”, o disco mostra bem mais o lado tradicional de Zezé di Camargo & Luciano, com músicas como “Eu vivo pra te amar”, “Pelas mãos de Deus” e “Pedaços de Fotografia”, além das já citadas mais acima. Apesar da sua importância ainda ficar ofuscada pelo gosto que a dupla tem pela sessão de “famosos” das revistas, o disco, que apesar do nome não trouxe nenhuma das faixas do EP “Teorias”, lançado no ano passado, faz jus à carreira da dupla. Ainda não é como aqueeeeeeles de antigamente, mas pelo menos já é melhor que muitos que a dupla lançou nos útimos anos.

Nota: 8,5