Se for inteligente, não é sertanejo…

Se for inteligente, não é sertanejo…

O título desta matéria pode parecer um pouco pesado, mas acho que traduz bem a intenção deste texto. Dia destes no Twitter expressei minha indignação com a interminável ladainha em torno do que as pessoas consideram e o que elas não consideram “música sertaneja”. Eu sou um eterno crítico deste tipo de pensamento, isto é, desta superioridade que algumas pessoas demonstram quando se sentem capazes de apontar dedos e dizer: “este artista não é sertanejo”.

Confesso que minha obsessão em acabar com esse tipo de mentalidade é tão intensa quanto a vontade que estas pessoas têm de continuar agindo dessa forma. E essa obsessão faz com que eu perca muito tempo formulando teorias sobre os motivos pelos quais essa mentalidade continua aparecendo em uma parcela do público. Independente da teoria que eu formule aqui na minha cuca, uma conclusão é, a meu ver, inevitável: a música sertaneja ainda é vista por algumas pessoas como um segmento desprovido de inteligência.

Esta afirmação parte do princípio de que a cópia, a falta de identidade, o singelo ato de se limitar a seguir uma tendência é algo burro. Por que burro? Ora, o burro, em teoria, é aquele tipo de pessoa incapaz de criar, de formular, de imaginar. Por conta disso, ele prefere repetir algo que viu uma outra pessoa fazendo e passa a acreditar que aquilo que deu certo com a primeira pessoa também vai dar certo com ele.

“Nossa, Marcão, precisa chamar tanta gente assim de burra?”. Em primeiro lugar, não estou citando nomes. Só estou tirando uma breve conclusão. Na escola, para passar de ano, o que boa parte das pessoas burras fazem? Colam, copiam as respostas e as tarefas de alguma pessoa mais inteligente. Justamente por serem incapazes de resolver as questões sozinhas. Enfim, são incapazes de criar, de formular, de imaginar.

Mas afinal de contas o que isso tem a ver? É que costumeiramente são incluídos no rol de artistas não-sertanejos quase todos aqueles que, mesmo em meio a tanta coisa parecida e tanta pressão para se fazer um som igual ao que a maioria está fazendo, conseguem se manter firmes nas próprias convicções e criam o próprio som, ou pelo menos buscam gravar seus trabalhos preservando ao máximo a própria identidade e estilo, sem levar em conta o que é tendência e o que deixa de ser.

Acontece que a primeira reação dessa parcela do público ao artista que consegue criar para si um estilo novo, um som diferente, é justamente a de renegá-lo. “Isso não faz parte do segmento”, “isso não é sertanejo” e outras frases do gênero. Ora, que paradoxo é esse? Tanta gente reclama o tempo todo de tanta coisa igual que o mercado abraça mas quando algum artista consegue se diferenciar dos demais através de sua sonoridade, ele simplesmente é excluído por aqueles que, pelo jeito, acham que o sertanejo é burro e baseado apenas na cópia e nas “tendências”.

Isso aconteceu com a dupla Victor & Leo, que até hoje é defendida (ou atacada, dependendo do ponto de vista) como sendo uma dupla não-sertaneja. Tempos depois, o mesmo ocorreu com a Paula Fernandes. Ambos os artistas, aliás, descendem da escola musical inaugurada por Almir Sater e Renato Teixeira, que são os artistas sertanejos que as pessoas costumam consideram menos sertanejos. Só dizer que o Almir Sater é sertanejo já rende uma dor de cabeça absurda junto aos seus fãs.

O exemplo mais recente desse tipo de mentalidade atrasada é o que está ocorrendo com a dupla Jorge & Mateus. Sem defender este ou aquele produtor musical, mas são inúmeros os comentários que atacam a sonoridade da dupla nos trabalhos recentes, dizendo que não é um som sertanejo e que aqueles primeiros discos é que eram sertanejos de verdade. Mas aconteceu com a dupla um fenômeno natural e muito válido: eles encontraram a sua própria identidade. E justamente na hora em que acham essa tão sonhada identidade, que tantos artistas passam a vida toda sem conseguir encontrar, eles são tachados como “não-sertanejos”.

Na história da música sertaneja, vários são os episódios em que esse pensamento predominou e, pra variar, se mostrou um absoluto erro. Quando a dupla Chitãozinho & Xororó gravou a música “Amante”, por exemplo, eles foram intensamente atacados pela própria crítica especializada justamente pelo fato de estarem produzindo um som que seguia um caminho diferente ao da absoluta maioria dos artistas da época. Anos mais tarde, entretanto, o som inovador inaugurado pela dupla na canção “Amante” passou a predominar no mercado. E os que atacavam o estilo da canção por julgarem-no “não-sertanejo” tiveram simplesmente que enfiar o rabinho entre as pernas.

Não estou dizendo que o som dos artistas atuais que são atacados justamente por preservarem a própria identidade vai predominar no mercado. O som não, mas a busca pela identidade sempre deve ser o ponto de partida de qualquer artista. Adianta continuar seguindo o mesmo burro caminho da cópia, da “tendência”, do igual? Ser inteligente a ponto de buscar a própria identidade é o que deveria acontecer com cada artista antes mesmo de ele decidir seguir uma carreira. O problema é essa parcela do público que continua achando que a música sertaneja é burra e que um artista inteligente simplesmente não é digno de representar o segmento. Se depender dessa parcela do público, a música sertaneja vai continuar tendo pouca ou nenhuma importância cultural, apenas comercial. E isso sim é que é uma pena.