Segunda voz: será que o fim está próximo?

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Faz tempo que não postamos aqui algo exclusivo da seção “Post de Segunda”. Pra quem não sabe do que se trata, nada mais é que uma seção dedicada exclusivamente à instituição sertaneja chamada SEGUNDA VOZ. Uma singela homenagem aos segundeiros do Brasil e uma tentativa de elevar essa essencial faceta da música sertaneja ao seu devido lugar: ao lado da primeira voz, em total igualdade. A intenção com essa referida sessão sempre foi tentar mostrar para o público sertanejo que o dueto de qualidade é uma das maiores e melhores características da música sertaneja. Nada contra os artistas solo, muito pelo contrário.

O que se vê na recente história da música sertaneja, no entanto, é uma evidente e triste desvalorização desse tesouro. Na verdade, não chega a ser um “objetivo alcançado” por ninguém em sã consciência, mas um efeito colateral de alguns fatos ocorridos de 10 anos pra cá.

Essa perda da real importância da segunda voz na música sertaneja começou junto com os primeiros esboços do movimento “universitário”. Quem se lembra DESTE TEXTO postado aqui no Blognejo, sabe que consideramos o primeiro disco “pirata” da dupla Bruno & Marrone o pontapé inicial do rótulo. Até o próprio Bruno, aliás, já reinvindicou o título de “pai do sertanejo universitário” em recentes entrevistas. O fato é que quando aquele disco originado de uma apresentação em voz e violão numa rádio em Uberlândia começou a se popularizar, a dupla começou a crescer. O resultado foi a venda de 2 milhões de discos do primeiro disco acústico sertanejo que realmente estourou, esse já original, lançado por um selo, com DVD e tudo.

O “problema” não foi o estilo lançado, mas sim a dupla que estourou com isso. Mesmo sendo uma das duplas mais populares de todos os tempos, Bruno & Marrone eram ligeiramente diferentes das outras duplas num quesito básico: o dueto. Entendam, ambos são grandes cantores. O Marrone é um grande músico e um ótimo segundeiro, o Bruno um puta intérprete. O que se via, no entanto, nos discos da dupla era uma extrema valorização da primeira voz e uma gradativa diminuição do volume da segunda voz. Isso a partir principalmente daquele disco acústico que vendeu mais de 2 milhões de cópias. O ápice dessa iniciativa de se reduzir o valor da segunda voz na dupla Bruno & Marrone ocorreu no segundo disco acústico, no qual a voz do Marrone simplesmente não era ouvida. Apenas quem lidava com música diariamente conseguia identificar naquele disco um traço de volume na segunda voz do Marrone.

Nesse período entre o disco Acústico e o Acústico II, a piada mais recorrente junto ao público sertanejo era: “ah, o Marrone num canta nada”, “o Marrone tem o melhor emprego do mundo, ganha dinheiro sem precisar cantar” e etc, etc, etc. Ora, quem acompanha a dupla desde a primeira versão de “Dormi na Praça” sabe que isso não é verdade. O Marrone canta, sim senhor. Mas o que pareceu com isso tudo foi que ele mesmo se acomodou com a situação e não se preocupou muito com a forma como ele era encarado enquanto segundeiro.

Com o estrondoso sucesso da dupla Bruno & Marrone, váááááárias novas duplas começaram a pipocar Brasil afora. Eu vivi essa época intensamente, já que moro no “marco zero” desse sucesso, a cidade de Uberlândia. E tenho certeza que posso citar minha cidade como o melhor exemplo dessa influência que Bruno & Marrone exerceram nas duplas que iam surgindo na época em que eles dominaram a música sertaneja, de 2001 a 2006, mais ou menos. Uma grande parcela das duplas que surgiam nessa época seguiam a “fórmula” que acreditavam ter dado certo com Bruno & Marrone: uma primeira voz potente com uma segunda voz ausente, em volume baixo ou simplesmente desafinada.

Por mais que fosse um grande músico, a má fama do Marrone ajudou a propagar a máxima de que para ser segundeiro bastava segurar um microfone do lado do cantor principal e mexer a boca, abrindo e fechando. É óbvio que essa nunca foi a intenção do Marrone, mas é mais óbvio ainda que jovens duplas inexperientes acreditavam piamente nesse método.

Nesse meio tempo, até os dias atuais, a música sertaneja ainda assistiu ao estouro de duplas como César Menotti & Fabiano e Victor & Leo, ambas com segundeiros sensacionais. De certa forma, o sucesso dessas duas duplas ajudou a amenizar a má impressão deixada na instituição “segunda voz” devido à má fama não intencional do Marrone. Mas aí aconteceu outra coisa que ajudou a derrubar mais um pouco a importância da segunda voz: a popularização dos cantores solo.

Há cerca de 20 anos, a música sertaneja tinha pouquíssimos representantes solo que gozavam de um pouco de prestígio. Sérgio Reis, Juliano Cesar, fora as mulheres, eram alguns dos poucos que carregavam a bandeira do artista sertanejo solo. Com a morte do João Paulo e depois a do Leandro, essa turma ganhou mais dois grandes adeptos: Daniel e Leonardo. Mas ficou nisso. Desde então pouca gente havia se aventurado com um bote nessa correnteza. Até que um certo mineirinho começou a ficar popular. Seu nome era Eduardo Costa.

O sucesso de Eduardo Costa junto a um público mais popularesco impulsionou o surgimento e posterior crescimento de cantores que queriam seguir a mesma linha, como Léo Magalhães, Serginho Pinheiro e outros. Antes de Eduardo Costa, os principais cantores solo da música sertaneja ainda se preocupavam em gravar uma segunda voz para acompanhar a primeira voz nos discos. Quem for bastante atencioso vai notar que em muitas canções do Daniel, por exemplo, há uma segunda acompanhando a primeira.

Eduardo Costa foi praticamente o primeiro a se tornar realmente popular (com agenda lotada e tals) cantando totalmente sozinho, sem a “cama” da segunda voz nas canções. Aliás, convenhamos, gravar segunda voz para o acompanhamento é uma incoerência sem igual para quem se diz artista solo. Nos discos do Eduardo Costa, quase não há segunda voz.

Mas o estouro recente de outro artista solo é talvez o fato que mais tenha contribuído até então para essa desvalorização da segunda voz. Luan Santana é o maior sucesso da temporada e muuuuuuita gente tem se aventurado no segmento sertanejo acreditando que “se o Luan Santana conseguiu, eu também consigo”. Luan Santana é mais versátil e dinâmico que muita dupla por aí e talvez por isso vários artistas, jovens ou não, estejam tentando seguir seu exemplo.

O mais evidente reflexo dessa gama de fatores na atual conjuntura do segmento sertanejo está na grande quantidade de duplas se desfazendo, com seus respectivos cantores decidindo seguir carreira solo. Nem todas, diga-se de passagem, gozam de grande prestígio. Aliás, foram pouquíssimas as duplas com grande apelo popular que entraram nesse rol. Mas impressiona a grande quantidade de artistas com pouca fama que têm decidido seguir carreira solo sem sequer ter conseguido alcançar um real sucesso como dupla. De renome, podemos citar o Edson e o Luiz Cláudio apenas, que eu me lembre. Porque o resto dos ex-membros de duplas vieram de carreiras provavelmente frustradas.

A principal consequência desses fatos é o que estamos assistindo atualmente. Pouca gente se preocupa com tentar arrumar parceiro, e quem quer não consegue achar um decente. Principalmente aqueles que possuem talento para compor. É comum ver bons compositores investindo em suas carreiras de cantor solo e deixando de lado a possibilidade de mostrar as suas canções para o mundo com um dueto de qualidade, preferindo mostrar com apenas uma voz mesmo.

Se uma dupla se desentende e decide se separar, pouquíssimos são os remanescentes que decidem continuar as carreiras com outras pessoas. Talvez pela desilusão ocasionada pelo fim da parceria ou talvez por verem que hoje em dia é possível fazer sucesso cantando sozinho.

O fato é que a instituição “segunda voz” tem perdido a importância. É gravada em discos de artistas solo mesmo que eles não tenham nenhum parceiro os acompanhando em shows (o recente CD do Edson conta com esse recurso também, seguindo o exemplo do Daniel e do Leonardo). Ou simplesmente não é gravada por ninguém, deixando o disco com uma única voz (Luan Santana; Eduardo Costa).

Poucas são as duplas jovens que ainda levam a sério essa dádiva de se formar um bom dueto. Um bom segundeiro hoje em dia é uma raridade. Mas ainda assim o pessoal não dá mais aquele valor que se dava antigamente. Cantar numa dupla com um segundeiro de “araque” é aceitável. Cantar sozinho, idem. Infelizmente o público é leigo nesse assunto e não sabe muito bem dizer a diferença. Para o público, tanto faz se é uma dupla “fake”, um cantor solo, ou uma dupla de verdade, das boas. É triste, mas essa é a verdade.

Nada contra quem se enquadra numa das duas alternativas apontadas. É que eu, como segundeiro que tenta a todo custo valorizar essa habilidade, me sinto cada dia mais sozinho. A segunda voz enquanto instituição está cada dia mais parecida com aquelas ilhas estreitas que ficarão debaixo d’água em poucos anos. Pouco a pouco, o fim parece estar se aproximando. Eu sei que ainda dá pra salvar, mas será que alguém vai conseguir? E o pior: será que temos gente suficientemente interessada em ajudar nesse resgate?