Será que os veteranos estão mesmo preocupados?

Será que os veteranos estão mesmo preocupados?

O tempo segue passando, o mundo segue girando e na música sertaneja uma discussão não tem fim: os conservadores, fãs de um estilo sertanejo mais tradicional, alegam que o segmento está se perdendo, que a música sertaneja está morrendo, e mimimi, e bla bla bla, e snif snif. Toda vez que eu posto aqui no Blognejo uma música voltada para o atual momento do mercado, é aquela avalanche de comentários negativos. E quanto menos conhecido for o artista, mais pesados são os comentários achincalhando o pobre coitado, amaldiçoando-o até a décima geração. Só que, fora esses comentários negativos, a gente não vê praticamente nenhuma reação efetiva daqueles que, segundo os reacionários, seriam os mais afetados com a mudança e os mais interessados em manter o nível da música sertaneja: os artistas veteranos. Daí a pergunta: será que eles estão mesmo se importando com tudo isso?

Enquanto a briga por uma pequena fatia do mercado está cada vez mais intensa, com artistas surgindo a cada fração de segundo e a música sertaneja indo pro “buraco”, isso na visão dos mais desesperados, os veteranos mantém suas vidinhas teoricamente simples, sem se meter no meio da bagunça e do gasto desenfreado, sem se preocuparem com uma agenda de 30 shows por mês ou mais. Alguns, aliás, já estabeleceram uma quantidade fixa de shows por mês e não aceitam ultrapassá-la nem por decreto. Dois shows por dia, então, nem em sonho. Diminuir o cachê, então, ou trabalhar em parceria na bilheteria com o contratante, jamais.

Isso acontece devido a um fator que eu já apontei aqui diversas vezes, mas que aparentemente os fãs mais reacionários da tradição sertaneja simplesmente não parecem entender: as coisas mudam, tudo é um ciclo. Artistas consagrados soltam um pouco o pé do acelerador para ceder, ainda que inconscientemente, espaço para quem está vindo absurdamente acelerado logo atrás. E ainda jogam o carro um pouco para o acostamento só para permitir a ultrapassagem.

Essa é a ordem natural das coisas. Chega um momento, em qualquer profissão, que a pessoa quer mesmo diminuir o ritmo de trabalho. Mas o mundo em volta dela continua exigindo mais e mais profissionais. E se o artista simplesmente não quer mais continuar no mesmo pique depois de 20 anos trabalhando tanto, é natural que outros apareçam e ocupem as lacunas que ele, aos poucos, vai deixando pelo caminho.

E por mais que alguns destes artistas veteranos ainda percam tempo com declarações polêmicas na imprensa a respeito dos novos artistas do segmento, a verdade é que eles não fazem absolutamente nada pra mudar o mercado do qual eles próprios reclamam. Estão todos acomodados. O mercado sertanejo é hoje praticamente uma bolsa de valores, com gente gritando e se estapeando o tempo todo. A metodologia de trabalho mudou radicalmente. Mesmo assim, os veteranos ainda insistem em continuar trabalhando do mesmíssimo jeito. Não aceitam se adaptar ao que os novos contratantes estão acostumados ou ao que o público anda querendo.

O consumidor médio de música de hoje não é o mesmo de 10 anos atrás. As coisas mudam. Mesmo assim, os veteranos continuam trabalhando com os mesmos produtores, continuam com a mesma metodologia de trabalho, continuam com a mesma mentalidade arcaica que, apesar de ter dado certo há 15 ou 20 anos, hoje é totalmente ultrapassada. Poucos são os artistas veteranos que procuraram se adaptar às novidades do mercado e hoje trabalham de forma competitiva, pau a pau com os novatos que aí estão.

Isso, a meu ver, acontece até de forma inconsciente, conforme eu disse acima. O tempo passa e o cansaço chega. E eles mesmos diminuem o ritmo. Mas novos públicos surgem, as gerações mudam, crianças nascem todos os dias e estas crianças um dia se tornarão consumidores ou até fabricantes de música. E novos artistas se fazem necessários, porque os antigos simplesmente não vão conseguir manter o mesmo pique da época de ouro. Mesmo porque eles não querem. Já conquistaram tudo o que queriam conquistar, afinal de contas. Para que ficar perdendo tempo tentando conquistar coisas que já conquistaram há 15 ou 20 anos?

Por mais que os veteranos e seus fãs reacionários, desesperados e conservadores não aceitem, é assim que o mundo funciona. E por mais que reclamem, se os veteranos estivessem realmente preocupados, é bem provável que hoje em dia estaríamos vendo boa parte deles mudando seu jeito de trabalhar pra atender aos anseios de uma nova classe consumidora. Convenhamos, entretanto, que não é isso que a gente vê por aí. Enquanto isso, a música sertaneja segue mudando. Pode ser que atravessemos fases com níveis inferiores no que diz respeito à qualidade. Ou então poderemos ver em breve uma mudança drástica e para melhor no jeito de se fazer música sertaneja. Nunca se sabe. O que não adianta é ficar reclamando tanto.