Sobre a banalização da figura feminina em clipes sertanejos…

Uma das maiores reclamações com relação ao sertanejo contemporâneo é a banalização da figura feminina. Se há alguns anos a mulher era tratada nas letras sertanejas como uma rainha, princesa, ou algo desse tipo, hoje o mais comum é que ela seja mesmo tratada como um mero objeto.

E um dos fatores que mais tem contribuído para essa “banalização” da figura feminina, fora as letras das músicas, são os videoclipes, que hoje em dia são essenciais em qualquer estratégia de divulgação de um artista. A quantidade de clipes recentes que trazem mulheres em trajes minúsculos, para fazer jus às letras e à pegada caliente, vem crescendo gradativamente. Aqui mesmo no Blognejo a gente já publicou diversos deles.

Resolvi entrar no assunto por conta da publicação de mais um clipe nessa linha, postado pelo cantor Rodrigo Ferrari essa semana no Youtube. Vejam abaixo o clipe da música “Tá Soltinha”, uma composição do Diego Kraemer, Tiago Marcelo e Raynner Sousa.

É certo que parte dos comentários sobre esse vídeo serão relacionados justamente a essa reclamação apontada no começo deste texto. Mas eu quero aprofundar um pouco mais essa polêmica com algumas observações.

Não sou favorável à nudez ou sequer à banalização da figura feminina em qualquer tipo de manifestação artística. Para mim, qualquer cena de sexo dessas que a Globo transmite aos montes em seriados sazonais, como em “Gabriela”, são meras desculpas para a exploração erótica de voluptuosas atrizes com o único objetivo de angariar audiência, sob a desculpa de que se trata de arte. Arte uma pinóia. Onde é que está escrito que para fazer arte é preciso que a mulher fique nua? O pior é que as pobres coitadas compram essa idéia achando que estarão contribuindo, através da exposição de suas curvas, seios, nádegas e às vezes até a genitália (em filmes, nesse caso), com a propagação da arte do diretor ou do escritor da obra. É a mulher sendo banalizada em todas as vertentes possíveis da cultura e não se dando conta disso.

Entretanto, uma das maiores justificativas dos adeptos dessa prática em filmes, novelas e seriados é algo que pode muito bem ser usado como desculpa também nos recentes clipes sertanejos: o contexto. Se em “Gabriela” a Juliana Paes ficava nua tomando banho no tonel enquanto o Humberto Martins babava escondido atrás da cortina, isso fazia parte do contexto da cena, por mais boba que pareça essa desculpa. Nesse ponto, os atuais clipes sertanejos também acabam obedecendo ao contexto das letras. Se as letras falam de mulheres em trajes sumários, o clipe traz mulheres em trajes sumários.

E se uma parcela mais conservadora do público reclama dessa banalização da figura feminina presente nos clipes sertanejos atuais, ainda que o contexto das letras acabe exigindo esse tipo de artimanha, creio eu que precisamos puxar um pouco mais da história da música sertaneja para talvez fazer cairem por terra esses argumentos mais conservadores.

Vejam, por exemplo, este clipe clássico da dupla Zezé di Camargo & Luciano, da música “Saudade Bandida”. Enquanto a dupla canta a música pelos cômodos de uma casa, uma bela atriz anda pra lá e pra cá cobrindo os seios apenas com um pano fino que insiste em ficar deslizando pra baixo, o que garante cenas de mamilos escapando, sem nenhuma conexão com a letra, chegando ao clímax com a atriz completamente nua tomando banho na banheira e com os seios totalmente à mostra no minuto 2:29 do clipe. Vejam abaixo:

E olha que esse até que foi leve. Ainda mais explícito é o clipe da música “Deixaria tudo”, do Leonardo. O clipe traz o Leonardo cantando a música debaixo de uma cachoeira, prestes a ser atacado por uma tribo de mulheres nuas que aparentemente vivia na caverna localizada no mesmo local. O clipe traz inúmeras cenas de seios e nádegas expostas, não só de uma mas de várias mulheres. Vejam:

Se formos analisar bem, nenhum destes dois últimos clipes obedece a qualquer contexto. As mulheres são mostradas nuas sem nenhum motivo. Apenas porque o diretor do clipe quis. As letras das músicas passam longe disso. E ambos os clipes são de artistas defendidos pela parcela conservadora do público sertanejo. Nesse ponto, ouso dizer que os clipes atuais que trazem mulheres em trajes cada vez mais sumários pelo menos obedecem ao contexto das letras. E até o momento ainda não tivemos nenhum clipe da sertanejada nova que trouxesse mulheres com os seios ou a bunda de fora. Pelo menos não como alguns clipes “românticos” da década passada. Pelo andar da carruagem, é possível que tenhamos muito em breve, mas ainda não tivemos nenhum. E agora, quem é que está certo?