Som Livre, a gravadora “coração de mãe”

Muita gente anda estranhando a grande quantidade de artistas sertanejos que tem assinado contrato com a Som Livre ultimamente. Ao lado da Sony Music, ela se tornou a gravadora dos sonhos de muitos artistas em ascensão. Claro que isso de forma paralela ao aparente desinteresse de gravadoras como a Universal e a EMI, que têm dispensado ou deixado escapar artistas sertanejos de seu casting (saíram da Universal Fernando & Sorocaba e Chitãozinho & Xororó, por exemplo, e João Neto & Frederico deixaram a EMI).

Não costumo estar por dentro dos trâmites que envolvem as negociações entre artistas e gravadoras. Não sei dizer os reais motivos por trás da saída de um artista de alguma gravadora. O caso da Som Livre salta aos olhos porque a cada dia a gente recebe notícias de um novo artista ou dupla passando a integrar o rol de contratados da gravadora. O primeiro pensamento é, claro: como uma única gravadora vai poder ajudar tantos artistas ao mesmo tempo?

Nas minhas divagações no Twitter, acabei entrando em contato com um funcionário de alto escalão da Som Livre. Eu, que pensava que a coisa funcionava de uma forma, acabei me surpeendendo. Ele me revelou que a Som Livre na verdade não possui um casting. Ela agora trabalha com contratos que dizem respeito a um único trabalho. Isto significa que a cada disco lançado um novo contrato é firmado entre a gravadora e o artista. E o contrato é de divulgação e de distribuição e não de produção, como era no século passado.

Com base nessas afirmações, conclui-se que a lista de artistas sertanejos com contrato com a Som Livre pode mudar a cada temporada. Tudo vai depender do resultado do trabalho de cada artista durante a temporada anterior. O mais interessante no caso deles é que quase não se tem notícia de artistas que trocam a referida gravadora por outra.

Qual a vantagem da Som Livre perante as outras gravadoras, afinal? Inicialmente, a divulgação maciça proporcionada pela Rede Globo. A Som Livre é, como tooooodos sabem, o braço fonográfico do maior veículo de comunicação do Brasil. É responsável pelas trilhas sonoras de novelas e coisas do gênero. Nem preciso dizer que é a provavelmente a gravadora com maior arrecadação na indústria fonográfica nacional. Que artista não gostaria de fazer parte de uma gravadora com essa retaguarda?

Fora que, talvez por necessidade de se ter um fluxo de caixa no gênero sertanejo dentro da gravadora, a cada temporada entra pelo menos uma novela no ar com trilha sonora quase que completamente voltada para a música sertaneja. A última foi “Paraíso”, mas teremos em breve “Araguaia”, já em fase de gravação dos primeiros capítulos. A trilha sonora já está sendo selecionada, inclusive. O interessante é que não entram apenas artistas da Som Livre nas trilhas dessas novelas com trilhas sertanejas. Ou seja, até as outras gravadoras sabem o que representa ter uma música numa trilha de uma novela da Globo, mesmo que o CD com a referida seja lançado numa gravadora diferente. O mesmo acontece com as coletâneas de música sertaneja lançadas frequentemente e maciçamente divulgadas nos interrvalos comerciais da programação.

Não é incomum a existência de um acordo entre a Som Livre e as outras gravadoras. Principalmente a Sony Music, que agora até veicula propaganda de seus discos na programação da Globo. Ela é aliás a gravadora que mais insere artistas sertanejos na programação da Globo depois da Som Livre. Victor & Leo, por exemplo, são queridinhos da Vênus Platinada, mesmo fazendo parte da gravadora concorrente. Não me perguntem o que envolve acordos desse tipo. Ainda não sei responder, hehe.

Atualmente, os seguintes artistas possuem contrato com a gravadora da Globo: Luan Santana, Fernando & Sorocaba, Maria Cecília & Rodolfo, Hugo Pena & Gabriel, Guilherme & Santiago, João Neto & Frederico, Nechiville, Tchê Garotos, João Carreiro & Capataz, Paulo Alan & Rafael, Daniel e Adair Cardoso. Existem negociações em andamento para a entrada de mais alguns nessa lista, mas nada certo ainda. O grande número de artistas envolvidos com a gravadora inevitavelmente acaba gerando uma dúvida: por que parece que eles dão mais atenção a uns que aos outros?

Quem fica de olho na programação, com certeza percebe que artistas como Luan Santana, por exemplo, são muito mais badalados na programação da Globo que artistas como Nechivile, que pelo que eu me lembre nunca participaram de um programa sequer da casa ou entraram numa única trilha sonora de novela. Se o contrato com a Som Livre inclui divulgação, qual seria o motivo dessa falta de cuidado com determinado artista? Claro, também, que tudo é uma questão sazonal. A Som Livre e a Globo simplesmente se dedicam mais ao que o público está mais interessado naquele determinado momento. A onda do momento é Luan Santana. É ele que está dando ibope. Não dá, então, para forçar a barra e tentar empurrar os outros artistas da gravadora pela goela abaixo da galera.

Esse inchaço que tem se formado na sucursal sertaneja da Som Livre é o principal (e talvez único) ponto negativo da gravadora, o que aliás tem sido usado de motivo para a recusa de alguns artistas de entrarem no barco. É que quem na Som Livre, tem que entrar sabendo que a sua vez de ganhar espaço na programação pode simplesmente não chegar. O problema é que não adianta nada ter a logomarca da gravadora no encarte do CD ou DVD mas não ganhar nenhum espaço nos veículos de divulgação que ela tem a seu dispor. Ninguém quer ser “mais um”. E se você não for o artista mais popular da casa ou não tiver potencial para isso, é inevitável que fique jogado lá no fundo da gaveta do diretor e seja mencionado apenas como “ah, uma dupla aí que a gente tá dando uma força”. A Som Livre tenta ser, sim, a gravadora “Coração de Mãe”. Sempre vai caber mais um rebento. O problema é que toda mãe tem seu filho preferido.