Timing: um novo e poderoso inimigo

Timing: um novo e poderoso inimigo

Um dos objetivos do Blognejo no ano de 2015 é retomar um pouco do seu caráter analítico perdido nos últimos anos em prol da exploração comercial do blog. Por conta disso, teremos este ano diversos textos sobre os mais variados temas, a fim de que o debate volte a fazer parte da nossa rotina diária. E o tema de hoje é bastante interessante.

Em tempos nos quais a informação viaja como um raio e tudo desce na mesma velocidade com que sobe, o mercado sertanejo anda sofrendo com o prazo de validade cada vez mais curto de uma série de coisas. O DVD que mal é lançado e já é tido como fracasso; a música de trabalho que em menos de um mês nas rádios já é descartada para dar lugar a um novo hit; a modinha que dura no máximo seis meses e já dá espaço à próxima; os CDs que deixaram de ser CDs para se tornarem EPs; etc, etc e etc. Tudo isso resume o modo de atuação de um elemento cada vez mais poderoso e que tem se mostrado uma pedra no sapato de grande parte dos artistas e escritórios: o timing.

Na verdade, o que tem ocorrido é uma interpretação um pouco equivocada do conceito desse elemento. Timing é basicamente aproveitar o momento certo de cada coisa. O que mais vemos, no entanto, é a galera utilizando essa palavra para se referir ao que na verdade é mais como um “prazo de validade”. Ao invés de dizer que o prazo de validade de alguma coisa acabou, convencionou-se dizer que “perdeu-se o timing”. Acontece que o timing tem sido perdido depressa demais, pelo menos na interpretação de boa parte dos artistas.

A vontade dos artistas e de seus managers de estar sempre à frente ou de pelo menos fazer parte de um determinado movimento enquanto ele ainda é “quente” tem feito com que algumas decisões acabem atropelando outras anteriores. Vou ater-me aos exemplos apontados mais acima para explicar melhor o que quero dizer.

Os CD’s ou DVD’s, por exemplo, hoje em dia mal são lançados e já são considerados fracassos quando alguma música não emplaca logo de cara. Antigamente, quando um projeto era lançado, o trabalho com o mesmo era realizado no decorrer de um ano inteiro, pelo menos. 4 ou 5 músicas do disco eram trabalhadas neste período, e funcionava. Tanto que os artistas da velha guarda permanecem firmes nesse método de trabalho. E alguns artistas de gerações mais recentes também. Mas parece ser um consenso o fato de que isso só funciona para quem já tem uma carreira consolidada. Os que ainda estão em busca da consolidação não costumam esperar para ver se uma música ou um projeto deu certo ou não. Tudo depende da reação imediata. Se a reação imediata do público é negativa ou indiferente, os artistas já partem pra outra rapidinho. E nos casos em que dá certo, bem antes do outrora tradicional período de 1 ano o artista já está lançando um single que não fazia parte daquele projeto.

Outro exemplo é a ploriferação maciça dos projetos em formato EP, que na verdade são CD’s com uma quantidade bem menor de faixas. A média é cinco, pelo que tem dado pra notar. Moda nos EUA, o EP parece ter encontrado um habitat natural na música sertaneja. A pressa em fazer com que as coisas aconteçam para que o timing não seja perdido tem tido nos EPs um porto seguro. Usado também como desculpa por artistas com menor potencial de investimento, ele é usado pelos artistas “maiores” como tapa-buraco entre um trabalho e outro, lançados muitas vezes num período inferior a um ano, e mascarado pela falsa premissa de ser uma forma de combate à pirataria. Ora, convenhamos que a pirataria já ganhou há tempos. Não dá mais para combatê-la. A guerra já foi perdida. O EP é, então, muito mais uma alternativa para evitar que o público pare, ainda que por pouco tempo, de pensar no artista em questão. Tudo porque o artista não acredita mais que em seu último trabalho hajam músicas passíveis de serem trabalhadas. E a verdade é que o próprio público acabaria estranhando uma música “velha” sendo lançada como de trabalho. Já pensou dar uma bobeada dessas? Perder o timing desse jeito? Jamais. Depois quero me aprofundar mais no tema “EP” em um texto exclusivo.

As modinhas cada vez menos duradouras também denotam a pressa do mercado atual. Todo mundo já imaginava que o arrocha perderia força, mas alguém pensava que isso aconteceria tão rápido? As músicas com onomatopéias ou com temas automobilísticos, entre outras, também duraram pouco. Aí veio a bachata, que acabou puxando a modinha mais recente do gênero sertanejo, a “sofrência”, que pelo menos é uma “moda” muito mais criativa e interessante do que as outras. Mas atendo-se a esse exemplo específico, querem apostar que o Pablo vai deixar de ser o ídolo mor dos sertanejos na mesma velocidade com que ele se tornou? É a ordem natural das coisas. O Pablo tem seu público consolidado fora do nosso segmento e a sua influência no sertanejo, assim como a de outros representantes da sofrência, é muito mais passageira do que se imagina, podem apostar. Porque por mais que a influência do Pablo seja positiva, a pressa e o timing no mercado sertanejo são implacáveis. Também falarei da “sofrência” em um texto exclusivo em breve.

A verdade é que a preocupação com o timing tem aos poucos se transformado em desespero. Decisões muitas vezes equivocadas jogam por terra planejamentos de meses que, devido a uma reação imediata não muito positiva, geraram resultados insatisfatórios. O medo de parecerem ultrapassados faz com que muitos artistas simplesmente descartem pedaços importantes de seus próprios trabalhos, que acabam relegados a uma discografia restrita a colecionadores ou a fãs mais apaixonados. Quantas excelentes músicas de DVD’s ou CD’s não deixaram de ser trabalhadas porque o disco havia sido lançado há tempo demais e já precisava ser substituído? Quantos artistas que se consolidaram em momentos do sertanejo muito ligados a alguma “modinha” não acabaram perdendo espaço depois que essa “modinha” perdeu força? Tudo bem que novidades sempre são bem vindas e o medo da perda do timing faz com que elas surjam cada vez mais rápido, mas será que momentos importantes da nossa trajetória musical não estão sendo desperdiçados depressa demais? Lembram daquele velho ditado “A pressa é inimiga da perfeição”? Pois então…

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